Mesmo que Darren Aronofsky traga novamente a humanização típica de seus personagens — uma marca recorrente em sua obra —, ele também os coloca sob julgamento constante, quase como se nutrisse uma raiva silenciosa por eles. Em filmes anteriores, essa abordagem muitas vezes deixa de ser apenas alegoria ou representação de vidas arruinadas para se tornar um espetáculo de crueldade. Raphael Montes faz algo semelhante na literatura, ao construir vilões cuja maldade é o eixo central de seus universos, enquanto os “bons” acabam sempre castigados ao extremo. Réquiem para um Sonho é um exemplo emblemático de como Aronofsky por vezes exagera nesse sadismo, chegando ao mau gosto. Mas aqui, em Ladrões, ele consegue equilibrar esse impulso com o universo quase mafioso que constrói e com as consequências trágicas que recaem sobre seu protagonista.
A estrutura de Ladrões se aproxima de uma grande comédia de erros, construída a partir de situações improváveis que se acumulam até o absurdo — lembrando Depois de Horas de Martin Scorsese ou Na Mira do Chefe de Martin McDonagh, com uma pitada de humor excêntrico que remete a Wes Anderson. A diferença é que, em vez da ordem visual típica de Anderson, aqui o que se organiza é o caos: sujeira, sangue, violência e toda sorte de grotesco dividem espaço como parte inevitável da narrativa.
Austin Butler demonstra total conforto no papel. Seu corpo transmite a tentativa constante do personagem de escapar da própria vida, até que, em certo momento, ele se transforma num herói de ação improvável — e debochado — mesmo após perder um rim. O mesmo vale para Matt Smith, que parece ter encontrado um papel sob medida para suas características cênicas.
Vale destacar também a estreia de Charlie Huston como roteirista de cinema (vindo de séries como Powers e Gotham). Ele consegue explorar com eficácia tanto a construção das situações quanto a dos personagens, sempre adicionando camadas à narrativa sem cair na repetição. Até mesmo personagens com pouquíssimo tempo de tela têm relevância dentro do todo.
Um detalhe interessante surge no arco do protagonista vivido por Butler: antes da avalanche de acontecimentos, ele já era retratado como um procrastinador crônico, com foco desmedido em seu time de beisebol, os Giants, que acompanhava junto à mãe. É nesse ponto que Aronofsky reencontra sua marca pessoal: a humanização. Mas, diferentemente de outros filmes, em que as atrocidades surgem de maneira quase gratuita, aqui existe uma coesão cênica que justifica o destino do personagem. Sua trajetória mostra como alguém que sempre deixou tudo para depois acaba se reconstruindo justamente a partir do absurdo e da violência que o cercam.
Ladrões é um típico exemplar da comédia britânica, com ecos do cinema de Edgar Wright, mas filtrado pelo olhar de Aronofsky. Ao final, fica a vontade de que o diretor deixe de lado suas presunções desesperançosas sobre a vida e abrace, com mais frequência, esse lado cômico e absurdo de contar histórias.














