O Retorno, co-produção entre Itália/Grécia/Reino Unido é um filme muito curioso e interessante: uma versão cinematográfica do final da “Odisseia” de Homero, contada com austeridade, mas de algum modo, mesmo com poucos recursos, ainda prende a atenção do espectador. É um épico, mas minimalista (se tal coisa é possível), e o elenco e a direção do italiano Uberto Pasolini conseguem fazer dele uma aventura pequena, mas não menos emocionante por causa disso.
O filme começa com a chegada do outrora rei Ulisses (interpretado por Ralph Fiennes), que um dia aparece deitado, nu, na praia de Ítaca. É o retorno dele, meio por acidente, depois de 10 anos lutando na guerra de Tróia. Durante esse período, o reino entrou em tumulto e ficou sem governo, pois a rainha Penélope (Juliette Binoche) não escolheu nenhum pretendente e ficou esperando o marido voltar. Que mulher paciente… Bem, Ulisses volta parecendo um mendigo e caracterizado como um soldado sofrendo de stress pós-traumático, nos termos de hoje, por isso se mostra relutante em reassumir a antiga posição. Mas a disputa de vários pretendentes pelo trono vai acabar forçando o protagonista a se envolver na luta.
Primeiro, os problemas: apesar do bom trabalho dos atores e da boa condução de Pasolini – que não tem parentesco com o lendário Pier Paolo Pasolini – O Retorno apresenta um grande fator limitante: a fotografia digital e banhada em luz natural deixa o filme às vezes com jeito artificial, quase como um programa de TV. E em termos narrativos, o roteiro pede por uma paciência do espectador porque nosso herói leva… muito… tempo… e depois… mais um tempinho… para enfim tomar uma atitude.
De fato, o clima e a austeridade da produção lembram A Última Tentação de Cristo (1988), o clássico controverso que Martin Scorsese e elenco e equipe fizeram por amor, com o orçamento de uma pizza calabresa. A maior parte das cenas de O Retorno se passa ao ar livre, nas locações, e tudo é bem simples e pouco refinado, incluindo aí as vestimentas e objetos de cena. Não seria surpresa constatar também que Binoche e Fiennes tenham feito o filme praticamente de graça.
E quando Ulisses finalmente resolve agir, o filme se torna, a seu modo, uma aventura até empolgante, conduzido principalmente pela atuação intensa e física de Fiennes, que diz muito apenas com seu olhar e seu físico sarado – o ator realmente frequentou a academia por este papel. Além dele, Binoche apresenta um porte real e uma tristeza que são muito convincentes para a sua personagem – e ainda mantém uma boa química com Fiennes, mesmo décadas depois do oscarizado O Paciente Inglês (1996) – e o jovem Charlie Plummer se sai bem como Telêmaco, o filho do casal real.
O clímax é ao mesmo tempo um banho de sangue e uma curiosa prova de amor, sem invencionices para quem conhece a “Odisseia”, mas recompensador mesmo assim. O Retorno é um filme que funciona por causa do seu tom, realista sem parecer forçado, e por se fixar, principalmente, na história de duas pessoas adultas que cometeram alguns erros em suas vidas, mas se mostram dispostos a consertá-los, na medida do possível. Não espere grandes batalhas nem momentos à la “This is Sparta”, mas isso acaba funcionando a favor do filme, e suas limitações acabam por lhe conferir um estranho charme, que mantém o espectador assistindo até o final.












