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“Uma estrela de cinema”. Deve pensar assim um desavisado que esteja assistindo “Seu Cavalcanti”. Afinal, a câmera parece apaixonada por aquele senhor desajeitado em meio a luzes azuis e vermelhas que o circundam logo nos créditos iniciais.
O senhor é o avô de Leonardo Lacca, nome fundamental do atual cinema pernambucano e diretor do excelente “Permanência”. Ao longo de décadas, o neto acompanhou filmando Seu Cavalcanti desde atividades triviais como uma ida ao supermercado, tomar aquele whiskey de lei, dirigindo muito mal pelas ruas do Recife até momentos importantes da família como a formatura da neta em Direito.
Este longo acervo chega agora ao público a partir de uma docuficção bem-humorada de fácil identificação com o público. Lacca conversou com o Cine Set sobre “Seu Cavalcanti” e revelou divertidos bastidores da produção.
Cine Set – Qual foi o momento de todo período de gravações que você notou a possibilidade que dali sairia um filme? Quanto tempo de filmagens você possui ao todo?
Leonardo Lacca – É difícil ter uma noção plena do material filmado, porque gravei de várias maneiras. Usei mini-DV, digital de diversos formatos, o que torna complicado quantificar. Mas estimo entre 30 e 40 horas de gravação, muito espalhadas e longas. No início dos anos 2000, era difícil ter uma câmera à disposição; os celulares e computadores ainda não ofereciam esse recurso. Na época, eu fazia Comunicação Social na Universidade Federal de Pernambuco, e havia muitos colegas interessados em cinema.
Em determinado momento, estávamos gravando um filme e a câmera da faculdade dormiu na minha casa. Automaticamente comecei a experimentar, a testar. Testava, por exemplo, filmando meu avô. Foi um impulso, um ímpeto, um desejo. Acho que porque o achava interessante, misterioso, engraçado e carismático. Também havia esse lugar do exercício: testar um plano, experimentar. E isso era muito prazeroso. Assim, filmei durante alguns anos. Sempre que surgia uma câmera, ou outro projeto, eu o incluía. Ele chegou a fazer figurações em trabalhos como Armários, Animal Político e Bombas.
Em 2008, aconteceu o primeiro Janela Internacional de Cinema do Recife, organizado por Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux. Fui convidado a realizar uma vinheta para o festival. Quando revisitei o material do meu avô, percebi ali uma potência, um propósito. Fiz várias vinhetas rapidamente e elas foram muito bem recebidas. Passaram a ser exibidas antes dos filmes, durante todo o festival, e meu avô acabou se tornando a cara do evento. Ele ia às sessões, assistia, era reconhecido pelo público e, no final, foi homenageado por Kleber, que lhe entregou um prêmio na cerimônia de encerramento. Foi um momento muito bonito, que me motivou a continuar explorando esse tipo de material.
Continuei filmando-o, de forma lúdica e íntima, como se ele fosse meu primeiro ator — não profissional, mas um corpo disponível, próximo, com quem eu tinha intimidade. Eu o convidava para brincar e ele aceitava. A partir daí, levamos o material para a ilha de edição, com Ricardo e Luiz Pretti. O filme foi, de fato, escrito na montagem. Passamos por cerca de seis etapas de edição ao longo de 10 anos. Montávamos intensamente, mas, enquanto trabalhávamos em outros projetos, este ficava em stand-by, voltando sempre que surgia uma nova ideia ou necessidade de ajuste. Assim, fomos encontrando o filme.
Depois que meu avô faleceu, abriu-se uma nova etapa difícil. Mais tarde veio a narração, outro processo, marcado pela ficcionalização sem a presença dele. Tudo isso fez parte da trajetória do filme, que foi se transformando junto com o tempo e as circunstâncias.
Cine Set – Seu avô não trabalhava com o cinema; era policial civil. Antes de você começar a filmá-lo, qual era a relação que ele tinha com cinema? Em algum momento de tanto tempo de filmagem, ele chegou a querer parecer alguém que via nas telas?
Leonardo Lacca – Tenho muitas lembranças de meu avô me levando ao cinema. Ele tinha essa história de não pagar passagem de ônibus nem o ingresso da sessão, a famosa carteirada (risos). Minha relação com ele não era exatamente de uma cinefilia no sentido tradicional, de colecionar filmes ou decorar nomes; era outro tipo de cinefilia, mais simples, ligada ao prazer de ver filmes juntos. Um dos últimos filmes a que fomos juntos foi Que Horas Ela Volta? e guardo bem esse dia na memória.
Ele nunca teve a pretensão de ser alguém do cinema, isso veio de mim. Na minha família não havia referências artísticas ou cinematográficas; esse interesse surgiu naturalmente. Foi algo que partiu de mim para ele: um convite para compartilhar essa experiência. Ele não buscava se parecer com ninguém ou assumir um papel específico; era sempre ele mesmo, se comportava como era.
Engraçado que, mesmo não sendo o meio dele, ele comentava com as pessoas: “Leonardo vive com esse negócio de cinema, fica indo a todo lugar do mundo com isso”. Meu avô falava com orgulho, ainda que não fosse parte do meio dele.
Cine Set – O seu filme foge de uma tentação que seria procurar mil razões para justificar a razão de estarmos assistindo a um filme sobre o seu avô. Desde o início, fica claro que aquela obra existe porque você o ama tanto nas virtudes quantos possíveis defeitos dele. Neste sentido, você chegou a temer que pudesse ficar algo muito restrito a você? Como isso foi sendo trabalhado ao longo do processo de feitura e montagem?
Leonardo Lacca – Essa sempre foi uma questão para mim: eu não queria fazer um filme em si mesmo, um filme fechado em mim. Queria realizar algo universal, que pudesse se conectar com as pessoas. Nos anos 2000, havia uma expressão usada em festivais e circuitos de cinema — “filme umbigo” — para falar de obras muito autocentradas. Eu não queria fazer isso; buscava justamente o contrário.
Quando o projeto do filme chegou à etapa de finalização, precisei escrever um texto justificativo. Muitas vezes começava assim: “Meu avô não é famoso, não fez nada significativo”. E era exatamente sobre isso. O documentário não pretendia engrandecer sua trajetória, mas criar um lugar ficcional, afetivo, quase uma carta de amor. Justificar esse projeto sempre foi difícil — e continua sendo até hoje.
Lembro que, quando o trailer foi postado no canal da Ingresso.com no YouTube, li um comentário que dizia: “Qual a contribuição desse homem para a sociedade? Por que eu estou assistindo isso? Nunca ouvi falar desse cara”. Achei muito curioso, até engraçado, porque revela uma expectativa de que apenas certas pessoas “merecem” ser personagens de um filme.
Mas eu acredito que todo mundo merece um filme. Toda relação pode ser cinematográfica. Não cabe a nós categorizar o que merece ou não se tornar cinema, porque isso implica também julgar quem merece ou não ser representado. Uma vez um conhecido me pediu: “Posso te contar uma história e você me diz se ela merece um filme?”. Eu respondi que não é por aí, porque qualquer história pode se tornar filme. Não acredito nessas categorizações.
Cine Set – Falando nesta questão, muitos editais públicos exigem determinados tipos de temáticas ou que necessitem ter uma justificativa pautada em critérios sociais. Você acha que isso amarra os realizadores do ponto de vista criativo ou não há como fugir disso?
Leonardo Lacca – Essa pergunta é muito difícil, porque acho totalmente louco que a retórica para escrever palavras e saber justificar bem seja vista como um critério capaz de viabilizar um filme. A escrita de um projeto é uma coisa totalmente diferente do que o filme será. É doido que uma coisa esteja relacionada à outra, mas também não vejo alternativa melhor — a não ser que fosse por sorteio, o que talvez fosse até mais justo (risos).
Hoje em dia alguns editais pedem materiais audiovisuais, mas aí entra a questão do acesso: quem tem mais estrutura consegue realizar e isso torna o processo muito desigual. Ainda assim, acho justo que, atualmente, a Ancine exija que todos os projetos sejam lidos. Por muito tempo, apenas produtores experientes com currículo consolidado tinham essa oportunidade. Agora houve transformações que permitem que todos sejam avaliados – isso é um avanço.
Atualmente há um edital de produção em curso, com mais de mil projetos, todos precisando ser lidos, o que leva bastante tempo. Acho isso ótimo, mas continuo acreditando que essa formatação padrão de edital é limitadora. Nem todo filme se justifica bem em palavras. Uma boa justificativa não necessariamente está ligada a um bom filme. Às vezes, não há justificativa nenhuma além do desejo de filmar uma história, de expressar algo que acreditamos ter importância.
Comparar relevâncias é muito injusto. No meu caso, por exemplo, meu avô carrega consigo uma cultura inteira, que aparece no filme, ainda que indiretamente. O simples fato de existir essa obra já traz uma questão importante: o envelhecimento. E não de forma caricata ou melancólica, como muitas vezes o idoso é retratado, próximo da morte. Mas sim como alguém que quer viver, que tem desejo, vitalidade. Essa noção só veio depois; no início, eu apenas estava fazendo um filme sobre o meu avô.
Cine Set – Nas situações ficcionais, quanto daquele jogo você revelava ao seu avô e quanto você o deixava sem saber? Quais preocupações tinha para construir estas situações?
Leonardo Lacca – Em relação às cenas com a Maeve (Jinkings), eu revelei para o meu avô, nós fomos juntos. Ele já a conhecia, mas não sei se, quando ela se caracterizou, percebeu de imediato quem era. Isso foi curioso, até porque, em algum momento, a própria Maeve ficou preocupada, achando que ele poderia estar se envolvendo de verdade. Esse é um lugar nebuloso, que acontece até com atores profissionais — imagine, então, com alguém que não é ator, mas está contracenando e acreditando porque está ali. Acho que isso o balançou um pouco, talvez.
A própria Maeve chegou a comentar comigo: “Poxa, quando eu encontrar com teu avô, como vai ser?”. Depois das filmagens, eles se viram em um café, mas ela estava de cabelo solto, muito diferente, e ele não a reconheceu. Ela brincou, dizendo que já tinha sido esquecida (risos).
De todo modo, ele tinha consciência de que estava sendo filmado, embora às vezes esquecesse — quase como um participante de Big Brother, que sabe que está sendo gravado, mas, em algum momento, esquece e fala algo espontaneamente. Para um não ator, isso é ainda mais natural. Como diretor, eu também tinha a preocupação de não ultrapassar certos limites.














