Mansos, dirigido por Juliana Segóvia, é um curta-metragem que impressiona pela meticulosidade na construção de personagens e espaços e pela capacidade de unir tensão, drama e crítica social. A narrativa acompanha Benedita, jovem que busca justiça pela morte da mãe, Teresa, assassinada quando ainda era criança. Ao longo do filme, o espectador é conduzido por uma investigação não apenas da história pessoal das protagonistas, mas também das tensões raciais, culturais e sociais que atravessam suas vidas.

Um dos aspectos mais interessantes do curta é como Segóvia utiliza elementos do cinema de horror para criar suspense e tensão, transformando o gênero em ferramenta para discutir injustiças raciais e memória histórica. Momentos de estranhamento e inquietação surgem não pelo sobrenatural, mas pelo resgate sociopolítico e cultural que permeia cada plano — seja em cenas silenciosas de observação, seja em sobreposições de imagens que conectam passado, presente e ambiente.

O trabalho com os espaços e a encenação é exemplar. Um dos primeiros planos do filme mostra a filha de uma personagem olhando para uma água parada: em um único enquadramento, o filme estabelece a problemática central, insere o espectador no lugar da personagem e comunica, de forma silenciosa, a presença de histórias e memórias que ali existem. Ao longo da narrativa, a sobreposição de cenários, a composição meticulosa dos enquadramentos e a atenção aos detalhes de cada espaço reforçam o discurso político, econômico e cultural, transformando cada ambiente em personagem.

A trama é inspirada em experiências pessoais da diretora e em figuras femininas fortes de sua vida, como sua mãe e tias, que enfrentaram diversas barreiras. Além disso, o nome da matriarca, Teresa, é uma homenagem à rainha quilombola Teresa de Benguela, símbolo da resistência e inspiração para novas gerações de mulheres negras .

A atuação das protagonistas é um dos pontos altos do filme: as atrizes Sara Nawy, Camila Pinho e Elisana Bueno entregam performances intensas e emocionantes, que capturam a essência da dor, da luta e da esperança presentes na história. A direção de fotografia de Kelven Queiroz e a direção de arte de Manoel Vieira contribuem para criar uma atmosfera densa e envolvente, que transporta o espectador para o universo do filme.

Além disso, o uso de gênero, tensão e ritmo permite que Mansos dialogue com tradições de resistência feminina e negra, conectando simbolicamente a história de Teresa de Benguela e lembranças de lutas contemporâneas, como a de Tuíre Kayapó. O resultado é um curta que não apenas emociona, mas também provoca reflexão, mostrando como narrativas cinematográficas podem ser ferramentas de memória, justiça e afirmação cultural.