AVISO: ALERTA DE SPOILERS 

O ineditismo está bem longe de ser o ponto forte de “Dia dos Pais”. O novo curta de Bernardo Ale Abinader traz muitas lembranças de “O Barco e o Rio”, filme do diretor amazonense premiado com cinco Kikitos no Festival de Gramado 2020, com dois protagonistas em choque por conta de perspectivas diferentes de vida. O pano de fundo da masculinidade que aprisiona sentimentos de pai e filho, os protagonistas deste filme, bate muito com o excelente Oeste Outra Vez, enquanto a distopia da ficção científica traz ecos de “Black Mirror”.   

Em uma visão apressada, seria o suficiente para classificar a obra com rótulos como ‘clichê’, ‘mais do mesmo’ ou qualquer adjetivo ou expressão mais impactante. Um olhar mais atento, entretanto, permite enxergar as nuances de “Dia dos Pais”. Se para Freud, o sonho seria a realização disfarçada de um desejo, Abinader coloca esta ideia para jogo ao trazer uma realidade em que pessoas possuem sonhos hiperrealistas através de um dispositivo clandestino oferecido em favelas das grandes cidades – aqui, no caso, uma Manaus encoberta pela fumaça e tomada pelo calor. 

Neste inconsciente exposto, o filho (Adanilo) deseja a morte do pai (Denis Lopes), afinal, sente um profundo desprazer daquele sujeito que considera um bêbado, falido e que parece pouco se importar com o rapaz. Já o pai sonha com o filho na região ribeirinha onde passavam horas na infância do garoto em uma relação pacífica e calma. Quando colocados na vida real, no entanto, os papéis se invertem: como uma criança pequena, o filho fica na expectativa do encontro com seu velho no dia dos pais. Até comprou um presente. Já o pai segue a sina de decepcionar e se ausenta mais uma vez.  

O jogo entre as ações concretas e aquilo que o inconsciente revela escancara estas barreiras emocionais tão próprias da masculinidade marcada pela ideia de que ceder é admitir derrota. Logo, formam-se trincheiras de ambos os lados pelos mais diversos motivos – os brincos e a maquiagem do filho, os ressentimentos acumulados, a falta de dinheiro, sentimentos de ingratidão, pequenas mentiras… Tudo vira razão para estes sentimentos seguirem imutáveis independente de ambos reconhecerem suas falhas nos sonhos – ao ser criticado pelo pai, o filho não rebate a acusação de ingrato, enquanto o personagem de Denis pede desculpas pelas burradas de uma vida toda.   

Toda esta construção bem costurada fica levemente ameaçada com a sequência final do encontro dos protagonistas na vida real. Ali, “Dia dos Pais” estanca no meio do caminho: nem oferece a catarse emocional que poderia ainda que traísse o estilo mais sóbrio adotado até ali nem consegue adicionar mais elementos para tudo o que fora mostrado até então. É como se houvesse uma necessidade de mostrar aquilo que já estava nas entrelinhas, reduzindo o grau de subjetividade que o filme proporcionava até ali. 

Se o paralelo com a fumaça soa óbvio demais e pouco eficiente até porque visualmente “Dia dos Pais” não consegue transpor isso para a tela tão bem assim, funciona melhor como a escuridão dos becos captada pela fotografia de Valentina Ricardo assim como a direção de arte de Francisco Ricardo emulando a clandestinidade do dispositivo de sonhos hiperrealista e dos ambientes internos que parecem cativeiros constroem esta realidade pesada imposta por Manaus refletindo nos protagonistas. Bernardo Abinader pode até não atingir a excelência e poética de “O Barco e o Rio”, mas, continua navegando bem em sua jornada de personagens aprisionados nos próprios sentimentos. 

Autor

  • Editor-chefe do Cine Set. Exerce o cargo de diretor de programas na TV Ufam. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas com curso de pós-graduação na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.

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