Em seus primeiros movimentos, “Ruas da Glória” parece querer se filiar a uma nobre tradição da qual “Rio Babilônia” talvez seja o maior expoente: aquela que encena a Cidade Maravilhosa como um vulcão sexual prestes a entrar em erupção. Há algo no Rio que encanta seus habitantes, mas também os cineastas. Penso, por exemplo, no curta “A Ronda”, de Rogério Cavalcante e Castro, onde os cariocas são tomados por um certo espírito dionisíaco depois de certa hora da noite.
Parece ser essa a primeira impressão de Gabriel (Caio Richards) sobre o lugar, recém-chegado à cidade após fugir de sua família rica no Recife. Ele não conhece ninguém e ninguém o conhece. Ele está sozinho, triste e com tesão — um combo mais perigoso que uísque e energético. Aqui em terras cariocas, conhece Adriano (Alejandro Claveaux, grande presença, grande rosto, grande ator), um michê uruguaio que o apresenta ao submundo da prostituição carioca. Gabriel irá se apaixonar perdidamente por esse homem, uma daquelas paixões obsessivas que trazem à mente Adele H., imortalizada por Isabelle Adjani. Está posto o mote do filme.
O longa está em seu melhor quando consegue evocar um certo clima, o que o diretor Felipe Sholl realiza com certa frequência: um clima tesudo para caralho, sim, mas também melancólico: um encontro entre um michê e seu cliente em um apartamento à beira-mar, enquanto a chuva cai do lado de fora; dois homens se engalfinhando entre urros e gemidos, metade sexo e metade briga; um fio de saliva escorrendo da boca de um ator, enquanto um fio perdido de seu cabelo se prende à barba do outro.
A demanda sobre o elenco, percebe-se, é grande. A boa notícia é que todos se saem bem, sem demonstrar qualquer embaraço em longas coreografias sexuais filmadas em plano-sequência. Elas têm o mérito de, novamente, serem tesudas, mas também de trazer à tona dinâmicas emocionais bastante complexas.
No centro de tudo, temos Caio Richards. Richards está se tornando um grande ator de cinema diante de nossos olhos. Esteve em “Pedágio“, que detesto, “A Noite Amarela”, que respeito, e, neste mesmo ano, em “Prédio Vazio“, de que gosto bastante, fazendo seu melhor cosplay de Salsicha do “Scooby-Doo”.
Aqui, o ator se sai milagrosamente bem em um papel que exige que passeie por boa parte do espectro das emoções humanas, pelado e com a câmera colada ao seu corpo. É dele o mérito se Gabriel não resulta em um personagem irritante — afinal, assim como Adele H., ele não deixa de ser apenas um menino mimado.
De fato, é essa constatação sobre o personagem que nos torna um pouco distantes em relação à obra. Isso, e um certo caráter repetitivo nas situações em que Gabriel se mete por amor. De fato, Sholl quase se perde em alguns momentos, como no encontro violento com o bolsominion, forçado e perigosamente próximo do moralismo punitivista. Ou, no retrato que faz da acolhedora família LGBT que Gabriel inevitavelmente encontra, fofo, ainda que ligeiramente piegas. Mesmo nessas horas, Sholl encontra uma forma de se safar de maiores embaraços, como no desfecho dos dois exemplos citados que, ao som de “Nessun Dorma”, funciona, sabe-se lá como.
Sim, são críticas pertinentes, e que são balizadas por uma queixa maior, a saber, a de que o filme é mais longo do que precisava. Mas a imaginação de Sholl garante que a incursão por terras cariocas valha a pena na maior parte do tempo. Pervertidos e depressivos de plantão não sairão decepcionados.












