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Vi duas pessoas se comunicando em Libras (Língua Brasileira de Sinais) antes da sessão de “Surda”. Tomei como bom sinal. Meu intuito ao incluir o filme na cobertura do Festival do Rio era buscar respostas à pergunta que lancei lá atrás, quando escrevi sobre “Assexybilidade“: o que pode um cinema PcD? E, mais ainda, que formas ele deve tomar?
Claro está a conscientização não serve de nada nos dias de hoje (se é que já serviu); todos estão carecas de saber de tudo o que se sabe. Inclusive, há aqueles que, sabendo-se errados, escolhem seguir adiante com palavras vis e desinformadas, por algum desígnio obscuro do coração. Ou seja, não é um problema de conscientização; é de sensibilização.
Meu problema com “Assexybilidade” era sua forma absolutamente convencional: o discurso estava bem estruturado, mas, como vimos, de discursos já estamos cheios. Se se trata de fazer um cinema PcD, se se trata de tocar o outro com uma potência singular de vida, então é preciso abrir uma trilha nova na densa floresta dos lugares-comuns.
E “Surda”? O filme conta a história de Ángela (Miriam Garlo), que nasceu ouvinte, mas perdeu a audição ainda menina. Por isso, ela consegue arranhar um pouco na leitura labial. Não que precise desse recurso na maior parte do tempo: seu marido Hector (Álvaro Cervantes), ouvinte, sinaliza com bastante fluência, e seus amigos são todos surdos.
Ainda nesses primeiros momentos do filme, uma cena me comoveu bastante: Ángela chega em casa e a música que o marido ouve toma conta do lugar. Ela não escuta a canção, mas sente as vibrações do corpo dele enquanto ele a canta e lê os seus lábios enquanto dançam juntos. Lindo.
Ángela e Hector esperam seu primeiro bebê, com um grande porém: não sabem se a criança será surda ou ouvinte. Quando a menina, Ona, finalmente nasce com a audição perfeita, Ángela precisa competir com os sons ao redor da filha pela sua atenção. A solidão materna é agravada pelo fato de não entender uma palavra do que as mães na creche dizem, e vice-versa. Que Ona ainda se torne a filhinha do papai ouvinte também não ajuda.
Tudo é conduzido com habilidade inegável pela diretora Eva Libertad, o que não é de se espantar: Libertad é irmã da atriz principal, cujas experiências reais inspiraram um curta que precedeu o filme. Mas a verdade é que “Surda” é, na maior parte, um drama bastante convencional, embora extremamente eficaz, salvo as particularidades — bem retratadas, é verdade — do tema.
Até que, finalmente, já no último terço da projeção, Libertad toma uma decisão inspirada: ela tira o som do filme. Ou, melhor seria dizer, ela nos oferece o que seria o som da surdez de sua protagonista: estrondos abafados, ruídos distantes, diferentes matizes de frequências captadas ou não por Ángela. Entendemos que a decisão venha em um momento de força dramática, mas a pergunta é necessária: por que não lançar mão desse recurso antes? Por que não matizar ainda mais a surdez? Por que não tentar registrar as vibrações, apelar para o háptico, jogar com a multissensorialidade?
É claro, isso tudo é extremamente difícil de fazer, e talvez seja mesmo pura mesquinharia exigi-lo do longa de Libertad — que, afinal, emociona. O mais importante talvez seja isto: quis o destino que eu me sentasse ao lado das duas pessoas surdas que vira antes, e que pareciam em polvorosa ao fim da sessão. Aliás, elas passaram a projeção inteira conversando fervorosamente, o que em quaisquer outras circunstâncias me irritaria profundamente. Mas é que as pessoas surdas têm um jeito só seu de falar em silêncio. Por mais plateias assim.














