Em 2025, curiosamente, dois cineastas americanos conhecidos por fazer filmes dramáticos e densos, quando não sombrios, decidiram relaxar e embarcar em projetos mais leves, por assim dizer. Darren Aronofsky, conhecido por amputar o braço do Jared Leto em Réquiem para um Sonho (2000) e por fazer a Jennifer Lawrence colocar fogo no mundo em Mãe! (2017), fez o vibrante e divertido Ladrões. E Derek Cianfrance, que partiu nossos corações com Namorados para Sempre (2010) e a minissérie da HBO I Know This Much is True (2020), fez este O Bom Bandido, que para os padrões do diretor, é praticamente uma comédia.
Baseado em fatos reais, O Bom Bandido conta a história de Jeff Manchester (interpretado por Channing Tatum), um veterano do Exército americano que no final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, ficou conhecido como “Roofman” (o homem do telhado, em tradução livre). Ele cometeu dezenas de assaltos na Carolina do Norte, sempre entrando pelo telhado dos estabelecimentos, e dando preferência para lanchonetes do McDonald’s. Segundo todos os relatos, apesar de apontar uma arma para suas vítimas durante os roubos, ele se comportava como um cara legal e educado.
Ao longo do filme conhecemos essa figura, suas motivações para seus crimes, e a parte mais extraordinária da história, o momento no qual ele fugiu da prisão e se escondeu por meses em uma loja de brinquedos da região. Com o tempo, ele acabou fazendo amizades e tocando as vidas de pessoas que nem suspeitavam de que ele se tratava de um criminoso.
Nas mãos de Cianfrance e do co-roteirista Kirt Gunn, O Bom Bandido se torna um estudo de personagem, daqueles que busca apresentar uma pessoa contraditória, capaz de ser muito inteligente num momento e muito burra no outro. A direção tempera a história com algo que pode ser chamado de “humor melancólico”, mostrando a vidinha comum daquelas pessoas, na qual quase nada acontece e o clima é sempre gelado. Não deixa de ser mais um trabalho do diretor sobre a vida proletária dos EUA e seus pequenos dramas.
O que não significa que não haja alguns momentos hilários e situações estranhas. Para dar vida à história, a reconstituição de época é um deleite à parte, com direito a loja Toys “R“ Us se tornando praticamente um personagem do filme, e aparece até uma Blockbuster! Detalhes do figurino estranho de Jeff também chamam a atenção e ajudam a compor o personagem, como o agasalho quase infantil que ele usa quando conhece a congregação de uma igreja.
Claro que a proposta, para funcionar, precisava de um ator que reunisse carisma e capacidade de dar conta dos aspectos contraditórios do protagonista: felizmente Tatum se sai mundo bem ao retratar as emoções complexas de Jeff. Um momento em particular é bastante emotivo, quando ele conversa com sua filha pelo telefone e uma lágrima cai de um dos seus olhos, com a cena sendo filmada com proximidade quase incômoda por Cianfrance. E ele ainda consegue ser também engraçado no papel.
Completando o elenco temos ótimas atuações de LaKeith Stanfield, Peter Dinklage – hilário como o gerente mala da Toys “R” Us – e Kirsten Dunst, como a mãe solteira que se envolve romanticamente com Jeff. As sutilezas do desempenho da atriz dão vida à personagem, que parece sempre estar guardando algo sob a superfície. Ela ainda tem uma ótima química com Tatum.
O roteiro tem alguns clichês e facilidades dramáticas – em dado momento Jeff explica na sua narração sobre o que aprendeu com seu tempo de encarceramento e os problemas pelos quais passou. Mas o personagem interessante e o retrato da vida modorrenta americana conquistam o espectador até os créditos finais, nos quais aparecem algumas das pessoas reais retratadas no filme.
É possível, com um pouco de imaginação, ver como Derek Cianfrance poderia ter delineado O Bom Bandido como um suspense – a exemplo do seu O Lugar Onde Tudo Termina (2012) – ou como um drama carregado e com toques existencialistas, no molde dos seus trabalhos anteriores. Mas aqui, curiosamente, ele faz um filme gentil e leve, engraçado sem de fato se transformar em uma comédia de absurdos, e com vontade de agradar, quase como o seu protagonista. E o resultado acabou ficando bom e interessante.
De fato, tanto este quanto Ladrões podem servir como exemplos para aquele velho argumento que ocasionalmente críticos, e também o público, jogam para os artistas: de vez em quando, é bom se reinventar.













