De “Valor Sentimental” a “O Agente Secreto”, Caio Pimenta traz as previsões iniciais para o Oscar 2026 de Melhor Filme Internacional.
CHANCES MÉDIAS
São mais de 90 países concorrendo pelas cinco vagas de Melhor Filme Internacional. Logo, precisei priorizar aqueles com alguma chance de concorrer. Este é o time que está no terceiro pelotão.
Longe do Oscar desde 2023, a Argentina busca o retorno com “Belén”. Protagonizado e dirigido por Dolores Donzi, a obra apresenta o tradicional drama de tribunal trazendo uma mulher acusada de infantício e o advogado dela tentando a condenação. O filme possui distribuição nos EUA e Reino Unido da Amazon MGM Studios, o que pode ajudar na campanha para dar visibilidade ao projeto.
A Índia aparece com “Homebound”, drama sobre dois jovens que buscam emprego como policiais, mas, veem a amizade se deteriorar à medida em que os planos dão errado. A produção passou na Mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes e também em Toronto sem deixar muitas saudades.
Falando de Cannes, “O Olhar do Misterioso Flamingo” ganhou a principal mostra paralela competitiva do evento. O drama chileno se passa em 1982 quando uma doença se espalha em uma cidade no deserto do país com os homossexuais sendo responsabilizados. Com a tradição do país nos últimos anos no Oscar, vale ficar de olho para uma possível aparição na shortlist.
O suíço “Late Shift” e o italiano “Família” também surgem com chances médias de indicação. Chama a atenção que “La Grazia”, drama do Paolo Sorrentino elogiado em Veneza estava inelegível para a corrida. Se pudesse competir era um potencial candidato para brigar pelas cinco vagas da categoria.
A prudência deveria fazer com que eu colocasse “Sirât” entre os candidatos com grandes chances. Afinal, a produção espanhola levou o Prêmio do Júri no último Festival de Cannes. O longa apocalíptico dirigido pelo Oliver Laxe, entretanto, é aquele filme ame-o ou odeio-o do cinema mundial, como ficou provado nas reações bem divisivas na Mostra de São Paulo. Até vislumbro uma shortlist, mas, não mais do que isso.
“Palestine 36” é o candidato da nação para o Oscar 2026. A produção de época se passa em 1936 mostrando a revolta das aldeias palestinas contra o domínio colonial britânico.
“2000 Meters to Andriivka” é o novo filme do time responsável por “20 Dias em Mariupol”, ganhador do Oscar de Melhor Documentário em 2024. O documentário mostra a perigosa missão de um grupo de soldados ucranianos para libertar uma estratégica vila ocupada pelos russos.
Estes dois filmes abordam os assuntos mais delicados da atualidade na geopolítica mundial. Ainda que convencional, “Palestine 36” aborda a questão histórica da região, o que pode causar menos resistências se fosse sobre o recente conflito. Já o candidato ucraniano deve ter o apoio de alas mais politizadas da Academia, especialmente, na Europa. Vejo o longa, porém, mais direcionado para documentário do que em Filme Internacional.
GRANDES CHANCES
“Magellan” abre o time com grandes chances de indicação. O representante das Filipinas traz uma combinação irresistível: o diretor Lav Diaz e o ator Gael García Bernal. A produção se passa no período das Grandes Navegações mostrando o casamento entre Fernando de Magallanes e Beatriz Barbosa.
Com Javier Bardem e Mark Ruffalo de produtores executivos, “All That´s Left You” tenta levar a Jordânia pela primeira vez ao Oscar de Melhor Filme Internacional. A produção com passagens vitoriosas nos festivais de San Francisco e Sydney mostra as lutas de uma família contra um trauma hereditário ao longo de décadas, retratando sua resistência e crescimento pessoal. Tem um carinha de filme que a Academia adora prestigiar.
Falando nisso, a Netflix joga as fichas na categoria com “Left-Handed Girl”, produção de Taiwan adquirida no último Festival de Cannes. Uma mãe ao lado das duas filhas se muda para Taipei com o objetivo de abrir uma barraca de mercado noturno. A questão será manter a união da família neste processo. Carinha de Oscar total.
O tão estigmatizado Iraque chega na temporada de premiações para mostrar que tem cinema de qualidade com “The President´s Cake”. A Sony Pictures Classics terá a missão de levar a história de uma garota de 9 anos com a missão de entregar o bolo de aniversário do ditador Saddam Hussein ou enfrentar o risco de ser preso e até morta. O drama venceu o prêmio de direção na Quinzena dos Realizadores e deve pegar, pelo menos, a shortlist do Oscar.
O último filme com muita cara de Oscar é “The Love That Remains”, da Islândia. A produção explora um ano na vida de uma família após a separação dos pais, focando com funciona esta nova dinâmica com todas as emoções e memórias do processo. É candidato a shortlist, no máximo.
A coisa começa a ficar mais séria a partir de agora com o sul-coreano “No Other Choice”. O suspense foi elogiado, mas decepcionou ao sair Veneza zerado. Toronto, porém, recuperou a força do longa do Park-Chan Wook, eleito o melhor pelo público entre as produções de língua não-inglesa.
Claro que a trama irônica sobre o mercado de trabalho e o desespero de um homem para arranjar um emprego pode fazer a Academia lembrar de “Parasita”, mas, a universalidade do tema somada ao talento do Park Chan-Wook e o rosto conhecido do Lee Byung-hun, de “Round 6”, deixam o candidato da Coreia do Sul perto da vaga.
“Sound of Falling” traz a tradição alemã para Melhor Filme Internacional. Nos últimos três anos, o país concorreu em todas elas e venceu em 2023 com “Nada de Novo no Front”. O drama da Mascha Schilinski chega credenciado pelo Prêmio do Júri no último Festival de Cannes.
Apesar do ritmo cadenciado, difícil de agradar a todos votantes, acredito em “Sound of Falling” muito forte para ficar entre os finalistas. Até por ele ser a produção que pode evitar de um domínio absoluto da Neon na categoria; nos EUA, o drama alemão é distribuído pela MUBI.
E, claro, tem a Tunísia com “Era uma vez em Gaza”, drama da Kaouther Ben Hania sobre o caso real de uma garotinha de 6 anos, morta ao lado da família pelo Exército de Israel. O fim do conflito no Oriente Médio diminuiu significativamente a urgência do longa comparado com o lançamento no Festival de Veneza neste ano.
O término do conflito deixa aquela dúvida se a Academia topa ou não comprar esta briga para não apagar o genocídio ocorrido na Faixa de Gaza. A falta de um distribuidor nos EUA para fazer campanha na segunda quinzena de outubro mostra como será um caminho difícil para o longa nesta temporada.
FAVORITOS ÀS INDICAÇÕES
Por fim, temos os três candidatos que estão garantidos em Melhor Filme Internacional.
“Valor Sentimental” somente não estará indicado se alguma descoberta terrível for revelada em relação ao Joachim Trier ou o elenco. O drama chega, inclusive, como favorito para a estatueta visto que está melhor posicionado nas categorias principais com possibilidades reais de vencer Melhor Filme, Direção, Atriz principal, Ator Coadjuvante e Roteiro Original.
Também é importante lembrar que a Noruega nunca venceu o Oscar da categoria. O país nórdico, aliás, amadurece a cada esta busca pela estatueta: basta lembrar “A Pior Pessoa do Mundo” que azar de ter pela frente “Drive my Car” como rival. Contar ainda com nomes no elenco conhecidos de Hollywood ajuda bastante. Sem dúvida, é o grande favorito para o prêmio.
Isso, entretanto, não significa que o jogo já está jogado.
O Irã chega pesado com “Foi Apenas um Acidente”. O contexto político de ser um apoio à classe artística iraniana e um reconhecimento a toda a trajetória de luta do Jafar Panahi tornam o atual ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes uma produção cotada para a vitória no Oscar.
E, claro, o brasileiro “O Agente Secreto” não pode ser descartado em hipótese alguma.
A produção do Kleber Mendonça Filho faz uma trajetória impecável nos festivais do segundo semestre, chamando a atenção do público e da crítica com elogios praticamente unânimes. A força do Wagner Moura, cada dia que passa mais consolidado em Melhor Ator, torna o filme brasileiro uma produção obrigatória desta reta final de 2025.
Tanto “Foi Apenas um Acidente” quanto “O Agente Secreto” também possuem chances de aparecerem nas categorias principais, incluindo, Melhor Filme. Isso seria um recorde para obras não faladas em inglês com até três indicados na disputa máxima do Oscar.
Se isso acontecer, abre-se uma real disputa igual houve neste ano: “Emilia Pérez” teve a vitória ameaçada a partir do momento em que “Ainda Estou Aqui” também apareceu em Melhor Filme. Isso embolou demais a corrida abrindo espaço para a vitória brasileira. Não duvide que pode acontecer novamente.





























