Ethan Hawke e Richard Linklater é uma das parcerias mais longevas do cinema na atualidade. Ao lado de Julie Delpy, os dois começaram a trilogia “Antes do Amanhecer” pelas ruas de Viena em 1994. Nove anos depois dobraram a aposta em Paris com “Antes da Meia-Noite” e mais nove anos com “Antes do Por-do-Sol” na Grécia.

A dobradinha, porém, se estendeu para além das conversas adoráveis entre Jesse e Celine por regiões europeias maravilhosas. Vieram também “Newton Boys: Irmãos Fora-da-Lei”, “Waking Life”, “Amargo Reencontro”, a epopeia de “Boyhood” e agora “Blue Moon”. No novo longa da parceria, o ator interpreta o lendário compositor americano Lorenz Hart. A obra mostra a luta dele contra o alcoolismo e a deterioração da saúde mental enquanto vê o parceiro Richard Rodgers ser aclamado com “Oklahoma!”.

Cotado para o Oscar 2026 de Melhor Ator, Ethan Hawke conversou com o Cine Set sobre o desenvolvimento de mais uma década de “Blue Moon” e sobre a melancolia do novo trabalho ao lado do amigo Richard Linklater.

CINE SET (Pâmela Eurídice) – Você já teve muitas colaborações com o Richard Linklater ao longo da carreira. Como surgiu essa nova parceria em Blue Moon? E você enxerga conexões entre os experimentos sobre passagem do tempo e identidade de Boyhood com o que o filme propõe?

Ethan Hawke – Quando o Linklater me enviou o roteiro pela primeira vez, foi bem na época em que estávamos terminando Boyhood. A partir dali, começamos a conversar sobre o projeto — conversávamos muito, fazíamos leituras, imaginávamos: “isso pode ser um filme? Como seria esse filme? De que forma conseguiríamos realizá-lo?” Passamos cerca de dez anos assim, pensando, maturando, até perceber que finalmente estávamos prontos. Foi um processo longo, mas muito bonito.

E sim, existe uma ligação muito clara com os trabalhos anteriores. A trilogia Before realmente me ensinou como o diálogo pode ser profundamente cinematográfico — como usá-lo, como falar diante da câmera, como memorizar grandes blocos de texto pensando no ritmo do plano, como sustentar takes longos e permitir que a cena respire. Aqueles filmes ensinaram tanto para mim quanto para o Richard sobre o poder de simplesmente permanecer com os personagens, deixar que eles existam ali, em tempo real. Mesmo que o público não esteja acostumado, ele pode aprender a apreciar isso.

Acredito sinceramente que não poderíamos ter feito Blue Moon sem termos passado por aqueles outros filmes antes. Tudo isso nos preparou para chegar até aqui.

CINE SET (Pâmela Eurídice) – Você interpreta uma figura real que teve enorme influência no teatro musical americano. O que você descobriu sobre esse personagem que acrescentou ao que já sabia? E como você explorou a complexidade dele?

Ethan Hawke – Por sorte, como levamos muitos anos preparando esse filme, tive bastante tempo para absorver todas as ideias envolvidas. O nosso roteirista, Robert Catwell, é brilhante — um verdadeiro nerd desse período histórico. Ele sabe absolutamente tudo: o que as pessoas vestiam, quem estaria no bar naquela época, que outros eventos estavam acontecendo no mesmo dia… Conversar com ele era uma aula constante. Ele ajudou de formas que talvez ele nem perceba.

Mas o que mais me ajudou, de verdade, foi a música. Estudava as falas ouvindo Ella Fitzgerald Sings Rodgers & Hart repetidamente. Escutava no avião, no caminho para o set, na volta para casa… Queria que aquilo entrasse em mim por osmose mesmo. A sagacidade, a solidão, a leveza, a profundidade — as letras dele carregam tudo isso. São extremamente poderosas.

Com o tempo, comecei a enxergar as falas do filme como se fossem letras de um musical do Rodgers & Hart. Isso me ajudou a acessar a alma do personagem, essa mistura de brilho artístico e vulnerabilidade que o torna tão fascinante.

CINE SET (Pâmela Eurídice) – Há uma melancolia muito forte que envolve esse personagem tão machucado. Preciso admitir que, nas minhas anotações, houve momentos que me causaram o que chamamos no Brasil de “vergonha alheia”, aquele desconforto quase físico. Como você incorporou as questões do alcoolismo e dessa melancolia profunda na construção física do Hart?

Ethan Hawke – Acho que “melancolia” é realmente a palavra-chave. Há uma combinação de tristeza e alegria — ou aquela alegria dentro da tristeza — que está sempre presente no Larry Hart. A gente já viu muitos filmes sobre términos amorosos, mas quase não vemos filmes sobre o fim de uma amizade. Para mim, esse homem no filme está absolutamente de coração partido por perder um amigo que era também seu parceiro artístico. Ele acredita que não consegue viver sem essa parceria. Ele sente que não tem motivo para continuar sem ela — e isso o apavora.

Por isso que ele não consegue parar de falar. Essa é a energia inteira do filme. Então, tentei usar tudo isso como combustível.

E eu adoro trabalhar com o Andrew Scott. Ele é muito inteligente. Sabíamos que tínhamos muito pouco tempo para fazer o público sentir o peso de uma amizade de 25 anos. Precisávamos que as pessoas entendessem o que significa esse rompimento: o amor que existe ali, mas também a raiva e a frustração acumuladas.

CINE SET (Pâmela Eurídice) – Este é um projeto que levou muitos anos para se concretizar, assim como Boyhood. Como é passar tanto tempo imerso em um único projeto?

Ethan Hawke – É maravilhoso. Sabe, se você vai pedir para as pessoas pagarem por um ingresso ou dedicarem algumas horas da vida delas pensando em algo que você criou, você quer colocar muito pensamento nisso. Você não quer desperdiçar o tempo delas.

Eu amo fazer cinema por causa disso: você pode dedicar anos da sua vida a esse poema de 90 minutos, duas horas. E aí eu consigo entregar para o público dez anos da minha vida em apenas algumas horas. E, se a pessoa compartilha dessa mesma sensibilidade, isso vai ser algo prazeroso para ela. Se não compartilha… bem, aí não vai ser.

Autor

  • Pâmela Eurídice

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (2018), integrante do Coletivo Elviras de Mulheres na Crítica Cinematográfica. Participou de duas edições do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (2018 e 2020), escreve para o Cine Set e produz conteúdo para internet.

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