Nos últimos anos, a figura de Silvio Santos passou a ser explorada pelo audiovisual brasileiro: primeiro, veio a minissérie O Rei da TV (2022) no streaming, que durou duas temporadas; depois veio o terrível Silvio (2024), estrelado por Rodrigo Faro – foi minha escolha para pior filme de 2024, porque é praticamente um anti-filme. E agora chega este Silvio Santos Vem Aí, dirigido por Cris D’Amato, autora de comédias recentes de sucesso como “A Sogra Perfeita 1 e 2” e “Viva a Vida”… Ele é melhor que o longa estrelado por Faro – seria difícil não ser. Mas compartilha com ele alguns dos mesmos problemas.

Silvio Santos Vem Aí não se propõe a ser uma verdadeira biografia do maior comunicador da TV brasileira. Ao invés disso, se concentra em um momento específico da vida do ‘Homem do Baú’, quando em 1989 se lançou candidato a presidente, nas primeiras eleições presidenciais do Brasil desde a redemocratização- aquela que acabou sendo decidida entre Collor e Lula… Na trama, uma jovem jornalista chamada Marília (interpretada por Manu Gavassi) é incumbida pela campanha de Silvio (Leandro Hassum) de acompanhá-lo por uns dias e conhecê-lo, a fim de antecipar qualquer possível ataque por parte dos seus adversários.

Claro, a convivência com Silvio vai acabar mudando a forma como a jornalista o enxerga, porque assim como acontecia no filme com Faro, o apresentador do SBT aqui é uma figura praticamente perfeita: humilde, apesar da riqueza; simpático com todos; carismático, ético e sempre com uma frase inteligente ou de auto-ajuda na ponta da língua, como um mestre Jedi da televisão dominical. E esse é o maior problema de Silvio Santos Vem Aí: é inócuo demais, não tenta investigar nem questionar essa figura marcante da história brasileira do século XX. O personagem não é humano, é santificado, e mesmo quando parece que o longa vai enfim questionar essa figura, ele suaviza as coisas. Roteiristas e produtores de cinema ainda não conseguiram abordar o Silvio Santos com uma visão que não seja a da adoração cega.

Percebe-se que o roteiro do filme tentou fazer um paralelo com nada menos que Cidadão Kane (1941), o clássico de Orson Welles sobre como nunca podemos conhecer de verdade uma pessoa. E para o público que nunca viu esse filme antigão, o pôster aparece em diversas cenas e o filme é mencionado pelo nome em um dos diálogos. Porém, o cidadão Silvio que o filme tenta mostrar não tem “Rosebud”, porque o filme nem se esforça em responder à pergunta principal da sua narrativa: por que Silvio Santos, naquele momento da sua vida, quis se meter no mundo suspeito e cheio de sombras da política brasileira?

É um filme que não tem disposição para criar conflito: em dado momento, a jornalista que trabalha demais na campanha briga com seu namorado por causa disso; alguns minutos depois eles se resolvem por telefone. A questão da campanha presidencial também é resolvida rapidamente. Tudo é muito superficial, e o filme ainda lança mão de um dispositivo de trama esquisito, o de apresentar fatos da vida de Silvio ao colocá-lo como um dos participantes dos seus programas. Na teoria, a ideia até parece boa, mas a execução na prática é estranha e artificial.

O que resta ao filme é seguir o caminho do mais fácil, incluir referências e piadas sobre os programas do SBT: a piadinha do bambu é incluída, e vemos (ou não) o Lombardi, e depois o cantor/dublador Pablo. Algumas dessas cenas até conseguem divertir, é verdade, mas demonstram o quanto a proposta aqui é pequena e pouco ambiciosa, parecendo mais um programa de televisão do que a própria série O Rei da TV, que ainda tinha a coragem de questionar um pouco o mito Silvio Santos – talvez por isso tenha recebido críticas de seus familiares?

Manu Gavassi é simpática e consegue conduzir a narrativa, e Leandro Hassum se sai bem como Silvio, dentro das limitações impostas pelo roteiro – ele faz uma boa imitação e tenta injetar algumas nuances num momento mais dramático da história envolvendo a primeira esposa do apresentador. Em nome da ausência de conflito, esse momento acaba também ficando pouco explicado. Mas os dois atores acabam sendo as maiores qualidades do filme, pena serem tão limitados pelo roteiro e pela encenação.

Em algum lugar há um filme interessante a ser feito sobre Silvio Santos, uma figura contraditória, por mais que seus fãs e boa parte do público brasileiro não queiram discutir isso. Mas pelo menos por enquanto, cineastas querem mesmo ficar na zona da imitação fácil, do mito, do cara de fala engraçada na TV que jogava dinheiro para as pessoas. “Todo mundo acha que sabe fazer uma boa imitação do Silvio Santos”, diz a personagem Marília numa das cenas, e essa fala acaba sendo apropriada. É nessa zona que este filme opera mesmo. Ele não chega a ser ofensivo e desastroso como o Silvio de 2024, mas é tão superficial que ao final, ninguém vai descobrir nada que já não soubesse sobre o Homem do Baú.