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Christy Renea Martin, conhecida como Christy Martin, foi a primeira mulher a assinar um contrato com Don King, o mesmo empresário de Mike Tyson e Muhammad Ali, e a única lutadora feminina a aparecer na capa da revista Sports Illustrated, no ano de 1996. E agora, sua história será apresentada nos cinemas por Sidney Sweeney, Ben Foster e David Michôd (O Rei, The Rover).
Sweeney e Foster interpretam o casal Martin, Christy foi casada com seu treinador — além da estrela de Euphoria assinar a produção do filme — enquanto coube a Michôd a missão de dirigir esta cinebiografia que contou com um preparação intensa por parte do elenco. A intérprete de Christy, por exemplo, ganhou 16 kg e treinou boxe por meses para retratar a força e as lutas pessoais da profissional do boxe.
O Cine Set participou de uma coletiva de imprensa virtual que contou com o diretor e os protagonistas. Eles falaram sobre a atuação como produtores do longa-metragem e o processo de criação dos personagens.
PERGUNTA – Sydney, você pode falar sobre o seu papel como produtora neste filme, o quanto isso foi significativo e o quanto foi diferente de outros papéis que você assumiu em projetos seus.
Sydney Sweeney – O processo foi diferente dos outros projetos que produzi porque o David já estava confirmado para dirigir, e ele já tinha escrito o roteiro junto com a parceira dele, a Mirrah, e era um roteiro lindo, quase não precisava de ajustes. Eu li e chorei rios. Então, quando entrei, esses elementos já estavam prontos, e aí montamos o pacote todo e saímos para vendê-lo.
Fiquei envolvida na parte de financiamento e, depois, quando finalmente entramos em pré-produção e filmagem. Isso foi um pouco diferente para mim. Normalmente eu começo do zero absoluto, construindo tudo do início, mas no momento em que li esse roteiro eu soube: eu precisava fazer parte disso, precisava garantir que essa história viesse à luz.
A Christy é uma das mulheres mais inspiradoras e incríveis que já conheci na vida, então esse projeto é muito especial para mim.
PERGUNTA: Esta é uma história tão incrível, e também é impressionante que alguns de nós não a conhecêssemos, incluindo você. E isso é uma das muitas coisas que torna este filme tão valioso para o público assistir. Então, quando penso na sua filmografia, li também que você disse que vários dos seus projetos tratam de, acho que usaram a expressão “caras delirantes” (delusional dudes). Isso soa familiar para você? Você poderia falar sobre a diferença entre essa história real incrível e como foi esse processo criativo para você?
David Michôd – Para começar, eu não fiquei totalmente surpreso por não ter ouvido a história da Christy antes. Eu não saio muito, mas… Quanto mais eu pesquisava, mais percebia que, na verdade, havia uma razão profunda e enraizada para eu não conhecer a história da Christy. E essa razão é que acho que isso acontece com muitas mulheres, não só atletas, mas mulheres de todas as áreas da vida: elas têm histórias incríveis que simplesmente não foram gravadas na memória histórica da mesma forma que as dos homens. E eu percebi imediatamente: “Nossa, essa história é incrível.”
E há uma vantagem em poder contar uma história que não é excessivamente conhecida por todo mundo. Você pode assistir a esse filme e ficar profundamente surpreso por ele, e depois profundamente emocionado, porque quase não consegue acreditar que essa pessoa tenha conseguido realizar tudo isso, suportado tudo isso e sobrevivido a tudo isso.
Isso me fez perceber que “Nossa, existe um poço incrível… há um manancial incrível de histórias sobre mulheres que estão aí só esperando para serem contadas.” Porque, sei lá, nos últimos dois anos, fazendo esse filme, tive essa experiência de perceber que essa história era incrível. Foi algo que me deixou de boca aberta.
CINE SET: James é um personagem ambivalente. Ele não é um antagonista típico, e parte disso vem da toxicidade que envolve o relacionamento dele com a Christy. Como foi para você construir esse personagem?
Ben Foster – Para ecoar o que o Sid disse: o roteiro é lindo, complexo e cheio de nuances, exatamente como a vida real é. Essa não é uma história comum, de jeito nenhum. Histórias desse tipo afetam tantas gente por trás de portas fechadas.
O Dave e eu conversamos bastante sobre controle coercitivo e sobre garantir que aqueles sinais bem específicos — que são crime no Reino Unido, mas ainda não nos Estados Unidos ficassem claros. São formas diferentes de abuso: emocional, psicológico, financeiro, físico… Há etapas bem definidas no modo como esses relacionamentos codependentes vão se tornando perigosos e aterrorizantes.
Por isso foi muito importante que todo mundo estivesse na mesma página para representar isso da forma mais fiel e responsável possível.
PERGUNTA – Tanto em “Christy” quanto em “A empregada”, você interpreta duas mulheres que, mesmo sendo derrubadas e sofrendo muito, são extremamente subestimadas. E é justamente a inteligência delas que as impulsiona de verdade. Quão importante é para você dar vida a mulheres assim e não ser rotulada simplesmente como “vítima”?
Sydney Sweeney – Acho muito importante mostrar que as mulheres são indivíduos complexos. Temos várias camadas. Não somos só uma coisa, nem apenas o estereótipo que aparece na TV ou personagens rasos. Acho fundamental mostrar que você pode ser uma pessoa extremamente forte, como a Christy, e mesmo assim ser vítima de abuso, e que isso pode acontecer com literalmente qualquer pessoa.
Quando você encontra essa força dentro de você, quando consegue se levantar, você consegue sair daquela situação. Por isso, acho essencial mostrar que vítima não tem uma “cara” padrão, não é só aquele perfil que a gente costuma imaginar. Pode ser absolutamente qualquer pessoa.
PERGUNTA – E Ben, numa carreira em que ser “irreconhecível” já é um elogio frequente, acho que o Jim leva isso a outro patamar. Pode falar sobre o processo físico de se transformar no Jim?
Ben Foster – Existe um documentário incrível na Netflix que estava circulando entre a gente e que estudamos bastante sobre ele. Também tinha outros vídeos e consegui conversar com amigos deles da época. Muito do trabalho foi peso, o jeito de andar. Os ritmos dele. Em vez de fazer uma imitação, você simplesmente se sente diferente dentro de um smoking do que de pijama.
Parte disso foi engordar um pouco, só para sentir aquele peso, aquela presença mais pesada. A gente tinha um macacão acolchoado, a gente chamava de “terno de gordura” (girth suit), e eu lembro que no primeiro dia de filmagem o Dave chegou e falou: “Ei, Ben, acho melhor você tirar esse traje.” Eu falei: “Eu não tô usando nenhum.” Ele: “Então puxa a barriga pra dentro.” Eu: primeiro dia de gravação…
A Sid engordou 16 quilos e ainda treinou. Para mim, a gordura escondia a vulnerabilidade dele, porque o Jim era um homem muito frágil. Qualquer pessoa que faz aquilo com outro ser humano… pode chamar de várias coisas, mas eu acho que é uma insegurança profunda.
PERGUNTA – Você pode falar sobre o trabalho com o Walter Garcia para se transformar nessa máquina de luta?
Sydney Sweeney – O Walt foi o nosso coreógrafo de lutas, então ele nos ajudou a montar cada luta do filme, do começo ao fim. Todas as lutas que vocês veem no filme são lutas reais da vida da Christy. Cada combinação que aparece não é só um sparring inventado: são lutas de verdade que ela teve na carreira.
Eu tive uns dois meses e meio, três meses para treinar. Trabalhei com um preparador físico e nutricionista, o Grant Roberts, e com um técnico de boxe, o Matt Baiamonte, e treinava com ele todo santo dia. Fazia uma hora de musculação de manhã, três horas de boxe depois, e mais uma hora de musculação à noite.
Eu engolia shake de proteína atrás de shake de proteína, creatina, L-carnitina, tudo que tinha direito, e ganhei 16 quilos. Mas todas as lutas que vocês veem, a gente está realmente conectando os golpes. Eu tinha um grupo de mulheres duronas lutando comigo, e eu falava: “Me bate e me bate forte mesmo”, e elas deixavam eu acertar nelas também. Vocês estão literalmente me vendo realizar o sonho da minha vida de ser boxeadora.
PERGUNTA – David, já saíram vários filmes de boxe antes, mas esse aqui tem uma energia cinematográfica completamente diferente, que quase parece casar perfeitamente com a intensidade emocional da história. Como foi criar isso para você?
David Michôd – Era fundamental que as lutas do filme, no nível mais básico, simplesmente parecessem reais. E “parecer real” significava abraçar a bagunça delas. Sim, são atletas incrivelmente habilidosas, com estratégia e uma quantidade absurda de treino, mas no meio de qualquer luta sempre vai ter exaustão, falta de ar num clinch, golpes que passam no vazio, combinações que não funcionam.
Uma das primeiras conversas que tive com o Wally Garcia foi exatamente: “Vamos abraçar isso tudo. Essas lutas não precisam parecer O Matrix. Precisam parecer lutas de verdade.”
Foi um pouco parecido com — não sei se alguém lembra — uma cena de luta em “O Rei”, entre o Timothée Chalamet e o Tom Glynn-Carney, só dois cavaleiros de armadura completa se enfrentando. Eu fiz questão absoluta de que não fosse uma esgrima toda chique e coreografada, que fosse o que realmente seria: dois caras se socando pra caramba dentro de latas de lixo. E o Wally, o maravilhoso Wally Garcia, simplesmente falou: “Entendi perfeitamente o que você quer. Vamos fazer assim.”
Aí ele trouxe um time incrível de mulheres que interpretaram todas as adversárias da Sydney. E eu só tive que dar um passo atrás e dizer: “Vão o mais forte que conseguirem, desde que seja seguro”, e deixei o Wally, a Sid e todas as dublês no comando de até onde empurrar, quando recuar e quando já tinha passado do ponto. Às vezes ficava bem tenso mesmo.














