Como todos aqueles que não fazem Direito e Medicina nem são herdeiros, Marty Reisman (Timothée Chalamet) passa longe de ter o trabalho dos mais valorizados. Ser vendedor de calçados é apenas a fachada para viver como mesa-tenista, a profissão que realmente almeja. O problema é que do sonho para a realidade há uma grande diferença, afinal, remuneração fixa não há – qualquer semelhança com o dia a dia de um crítico de cinema não é mera coincidência.  

Já que não há dinheiro para um ofício considerado insignificante ou mero capricho, Marty resolve dar o jeitinho dele em saídas nada dignas. Nosso mesa-tenista busca de qualquer maneira dinheiro para disputar as competições ao redor do planeta. Por US$ 1.500, vale tudo e qualquer coisa: roubar cachorro, fazer esquema com um amigo para roubar uns trouxas metidos a jogar pingue-pongue, extorquir um sujeito com fratura exposta, se diminuir profissionalmente e até colocar a bunda para jogo em troca de umas raquetadas.  

Neste sentido, o protagonista do novo filme de Josh Safdie guarda semelhanças com os personagens de Robert Pattinson em “Bom Comportamento” e Adam Sandler de “Joias Brutas”: malandros de primeira linha, prontos para dar um golpe no próximo distraído que cruzar o caminho deles. Através destes esquemas bem e malsucedidos que temos a dinâmica caótica ao trazer uma montagem frenética, inúmeros personagens se sucedendo em cena e que cruzam a vida do protagonista e uma gritaria ensandecida com os atores falando um por cima do outro.  

Pena que “Marty Supreme” sofra justamente com esse escopo ampliado, incapaz de conseguir dar a devida atenção a todas as abas que abre. Personagens como a mãe do protagonista (Fran Drescher), o melhor amigo (Luke Manley) ficam pelo caminho, enquanto todo o rolo com a casa do interior onde está o cachorro roubado ou do mel no campo de concentração soam como desvios do caminho para reforçar aquilo que estava consolidado. Se em “Bom Comportamento” e “Joias Brutas” sobrava concisão, aqui, Safdie parece encantando com o próprio universo do longa e a capacidade dele de orquestrar isso tudo. 

Graças a Timothée Chalamet que “Marty Supreme” acaba não se tornando uma experiência aborrecida: pode não ser a atuação avassaladora que uma provável lavada na temporada de premiações deixe a impressão, mas, é inegável como o astro consegue criar uma figura tridimensional. Ora torcemos a favor dele pelas humilhações constantes provenientes da falta de dinheiro, ora sentimos nojo pela ganância descabida, incapaz de olhar para o momento mais difícil do próximo. Chalamet joga com a energia imparável e a incapacidade de aceitar menos do que acha merecer para fazer uma figura sem papas na língua, um trem avassalador e em eterno movimento com o objetivo de manter o sonho de pé ainda que isso custe passar por cima de tudo e todos.   

Se Gwyneth Paltrow acaba avulsa em uma personagem que não diz tanto a que veio, Odessa A´zion segue provando como é uma das mais interessantes revelações recentes de Hollywood ao explorar a dualidade inconsequente de Rachel, uma versão feminina de Marty. E ainda há Kevin O´Leary, intérprete do cretino Milton Rockwell, empresário símbolo do poder daqueles que sabem que mandam e podem humilhar quem queiram apenas pelo simples prazer de ver o outro submisso. 

No mundo onde o dinheiro determina as regras, “Marty Supreme” demonstra como viver os nossos sonhos podem ser uma fonte de humilhações, frustrações e constante perigo. Até onde isso se mantém talvez seja o que determina a transição da adolescência para a vida adulta com os famosos boletos e a criação dos filhos batendo na nossa porta. Ainda assim, os teimosos mesa-tenistas e críticos de cinema não remunerados continuarão lutando para não deixar estas profissões inglórias morrerem – custe o que custar. 

Autor

  • Editor-chefe do Cine Set. Exerce o cargo de diretor de programas na TV Ufam. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas com curso de pós-graduação na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.

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