Um dos subgêneros cinematográficos mais interessantes de serem explorados é o coming-of-age. As temáticas de fácil identificação e a experiência coletiva e atemporal de vida enquanto você cresce, erra e amadurece tornam seus filmes acessíveis tanto para discutir questões complexas quanto para navegar entre culturas e ser compreendido independentemente de operadores sociais, econômicos e históricos. Essa percepção me fez refletir sobre pontos que tangenciam o amadurecimento feminino diante de duas produções asiáticas: Hijra e The President’s Cake.
O primeiro é um road movie que acompanha Janna, uma garota que, na companhia da avó, viaja de Taif a Meca a fim de realizar o Hajj — peregrinação anual à Meca e um dos pilares do islamismo. Exibido no festival de Veneza de 2025, é o segundo filme da diretora saudita Shahad Ameen, que aborda temas como liberdade, crescimento espiritual e o que é ser uma mulher crescendo no meio árabe.
Ganhador da Caméra D’Or no festival de Cannes 2025, o iraniano The President’s Cake acompanha Lamia, uma menina de 9 anos de idade, sorteada para fazer um bolo para o presidente em meio a um Iraque assolado pelas sanções econômicas, a guerra e a falta de comida. Dirigido por Hasan Hadi, ele flerta entre a violência de um regime ditatorial e os absurdos que a situação provoca.
Quando as duas obras são postas em paralelo, percebe-se os encontros entre Jana e Lamia e como as suas infâncias e amadurecimentos tem muito em comum, apesar do distanciamento evidente. Destaco, então, quatro momentos que atravessam as protagonistas e acentuam que crescer entre conflitos é uma experiência coletiva.
Conflito Geracional
Tanto Janna quanto Lamia compartilham suas jornadas com suas avós. Estas colocam-se dispostas a orientá-las nas tradições e costumes de seus povos, mas também a protegê-las de si mesmas, uma vez que as meninas tem vontade própria e opiniões que nem sempre se coadunam com o regime patriarcalista que ambas vivem. Tal comportamento suscita conflitos entre as jovens e suas avós.
As senhoras estão alicerçadas na tradição, apresentada por meio do apego e do enraizamento às questões culturais, da reafirmação da identidade local seja nos ritos islâmicos e na manutenção dos costumes tribais em The President’s Cake seja na tentativa de passar os saberes tradicionais (não ancestrais) para as suas netas. Em contraponto a elas, Janna e Lamia buscam fugir do enclausuramento social.
A protagonista de Hijra, por exemplo, confronta a avó sobre suas escolhas de jornada, a desobedece para fazer o que acha ser o correto e assume as rédeas quando percebe que Sitti está dominada por razões que não se adequam ao momento. Já Lamia indaga várias vezes Bibi se está fazendo aquilo que a senhora espera, porque tem medo do abandono e, quando isso acontece, se revolta e foge em busca de outra solução para a falta de dinheiro para fazer o bolo.
Em cada uma dessas situações, o carinho das meninas está presente, assim como o desacordo com as matriarcas, elas só não percebem que tomam decisões iguais e repetem o mesmo padrão de comportamento. Assim, mesmo em conflito, as meninas compreendem as avós e ficam ao seu lado nos últimos momentos de vida. Situação essa que salienta a passagem delas, também, para fora de sua infância.
Tensão sociopolítica
A incompreensão para com Sitti e Bibi parte de uma questão central nas duas narrativas que se mistura ao seu pano de fundo: elas são ferramentas de um sistema que oprime mulheres. Logo, tudo o que fazem é na tentativa de que suas meninas se ajustem ao sistema e não sofram consequências pesadas por quererem seguir seus próprios caminhos.
Sitti precisa completar o Hajj, mas se vê presa a busca por Sara, uma vez que ela é responsável pela educação das duas irmãs. Nessa caçada, ela se encontra também como caça do pai das garotas e da irmã dele; rejeitando a única aliada adulta que poderia ter na família por esta não se encaixar aos padrões sócio religiosos.
Embora seu comportamento seja pedante e as escolhas se aproximem de um sincericídio, isso revela o senso de auto proteção que Sitti possui e como o sistema a aprisionou e a moldou para ser como é. Quando se é mulher, você precisa estar sob a tutela de um parente masculino.
Por outro lado, toda a estrutura de The President’s Cake se alicerça na tensão política que ronda o Iraque. A história se passa em um período de guerra e mostra como os conflitos e seus rumores afetam as parcelas mais vulneráveis da sociedade e como aqueles que poderiam protegê-los — adultos, educadores, policiais e trabalhadores do sistema de saúde — fazem parte do núcleo agressor. Lamia nunca está segura por conta da própria instabilidade que ronda o sistema e se expressa diretamente em sua vida. A maior evidência é que quando pode respirar sossegada, somos nós quem ficamos em estado de suspensão por ela.
Dois lados da mesma moeda: em busca de Sara e da receita de bolo
Na esteira de seu crescimento, é interessante como Janna e Lamia estão numa constante procura de algo que esperam alcançar um dia. Diferentemente dos coming-ages ocidentais, as protagonistas não estão em busca do autoconhecimento ou de viver uma paixão de juventude, mas sim de que as coisas voltem a sua ordem natural. Para que isso aconteça, elas embarcam em jornadas que tangenciam uma liberdade que dificilmente conheceriam seguindo o ritmo que a vida lhes impõe.
Janna não tem uma boa convivência com a irmã, um comportamento típico de duas adolescente que crescem juntas, mas com idades diferenciadas. Ainda assim, ela quer encontrar Sara e quer que a irmã consiga a alcançar a plenitude que tanto almeja, disso provém, por exemplo, as frustrações que a acometem quando descobre o destino final de Sara.
Em paralelo, Lamia pergunta a Bibi várias vezes o que fez de errado tanto para ser sorteada para levar o bolo quanto em relação a seu destino em um lar adotivo. Sem compreender bem como sair de ambas enrascadas, é curioso como a jornada de conseguir os ingredientes para um bolo torna-se uma denúncia sobre a corrupção iraniana e a forma como o povo se comporta diante do regime autoritário.
No primeiro momento, por exemplo, a menina vê na busca por estar no mesmo local que Saeed e seu pai como um ambiente seguro, sem perceber que, na verdade, a forma como pai e filho ganham a vida pode arrastá-la para mais confusões. O que exemplifica o quão pouco Lamia vê a malícia humana, algo que se transforma no decorrer da narrativa.
Road movie
Me chama a atenção como as duas protagonistas estão em sua própria caçada que as levará ao processo de compreensão de suas avós e, ao mesmo tempo, a própria percepção de que não são mais crianças inocentes. Nesse aspecto, é um acerto que os respectivos diretores tenham escolhido contar essas narrativas como road-movie peculiares.
Enquanto Hasan Hadi escolheu mostrar o caos urbano no Iraque, Shahad Ameen vai na contramão e nos leva pelas paisagens áridas e montanhosas da Arábia Saudita. Ambos os cenários conseguem dialogar tanto com suas personagens como também no choque que as histórias causam. Me incomoda muito, por exemplo, ver duas mulheres caminhando sozinhas pelo deserto, assim como também acompanhar duas crianças perdidas pelas ruas em busca de um pouco de trigo, ovos e açúcar.
Tratar Lamia e Janna a partir da perspectiva de um road movie, no entanto, permite que o conflito entre desejo e busca assuma a centralidade das obras, abordando de maneira sutil a discussão social intensa que permeiam os filmes; ao mesmo tempo em que observamos o amadurecimento das protagonistas e criamos identificação consigo. Elas vão se descobrindo enquanto se desnudam para o público e é lindo de se ver, especialmente diante do desfecho de suas histórias.
Hasan Hadi e Shahad Ameen tem perspectivas diferentes sobre o amadurecimento a partir de seus lugares de origem, ainda assim nos entregam narrativas fortes, interessantes e que conseguem dialogar entre si sobre o crescimento feminino em várias ocasiões — e, consequentemente, também dialogam com a adolescência universalmente. No final das contas, todas nós estamos crescendo juntas.














