O primeiro filme que assisti no cinema foi Homem-Aranha, de Sam Raimi. Em 2002, aos quatro anos, o filme não apenas apresentou um super-herói, mas ajudou a formar uma relação afetiva com o próprio cinema, o encantamento, o espetáculo, a ideia de responsabilidade como valor moral. Anos depois, Socorro! marca um reencontro com o diretor que não é casual nem neutro. Se naquela primeira vez ele me encantou e me fez amar o cinema, agora ele me confronta. A reação é física, intensa, mas de outra natureza, não mais o fascínio, e sim a perturbação.
Em Socorro!, Sam Raimi opera um gesto peculiar dentro da própria filmografia, o abandono definitivo do herói. Não do herói clássico, mas do herói moral, aquele ponto de apoio ético que, mesmo em seus filmes mais sombrios ou irônicos, costuma guiar o espectador. Rápida e Mortal (1995), por exemplo, embora movida pelo desejo de vingança pela morte da família, Ellen, personagem vivida por Sharon Stone, age quase sempre em legítima defesa, o que a consolida como uma figura de resistência em meio à violência que organiza aquele mundo. Já em O Dom da Premonição (2000), Annabelle Wilson, mãe de três filhos dotada do poder de prever o futuro, é estigmatizada pela comunidade que a cerca, rotulada como bruxa e tratada como ameaça. Ainda assim, o filme insiste em preservá-la como um eixo ético inabalável, ela não se corrompe, não cede ao rancor e, em um gesto quase cristão, ajuda inclusive aqueles que a ferem. Neste novo longa, não há personagens “bons”, nem decisões plenamente justificáveis. O que existe é um campo de forças em disputa permanente, onde a moralidade se dissolve à medida que o instinto de sobrevivência assume o controle.
A premissa é simples: uma funcionária competente e um chefe autoritário sobrevivem a um acidente de avião e ficam presos em uma ilha deserta. O que poderia facilmente descambar para uma fantasia de vingança ou um thriller de superação se transforma, nas mãos de Raimi, em um experimento sobre poder, ressentimento e crueldade cotidiana. A relação empregado–patrão, antes mediada por regras sociais, contratos e etiquetas, é despida de qualquer verniz civilizatório. Resta apenas a selva, ainda que os personagens carreguem consigo o peso simbólico do mundo corporativo.
Rachel McAdams, por sua vez, entrega talvez uma das atuações mais interessantes de sua carreira. Embora tenha transitado por personagens muito diferentes ao longo dos anos, da vilania carismática de Meninas Malvadas às figuras mais afetivas de seus romances em Diário de uma Paixão, há em sua filmografia uma recorrência de personagens socialmente legíveis, seguras de si, capazes de controlar a própria imagem. Em Socorro!, essa lógica se rompe: sua personagem é instável, agressiva, manipuladora e profundamente humana, sem o verniz de charme ou domínio que costuma organizar sua presença em cena. Há ecos claros de Louca Obsessão, especialmente na forma como o filme organiza sua presença em cena: o controle do espaço, os gestos calculados, a ameaça latente por trás de um comportamento aparentemente funcional.
O grande trunfo do filme está em recusar o moralismo fácil. A vingança do proletariado, se existe, não é celebrada como libertação nem como justiça histórica. O filme se concentra em expor até onde vai a capacidade humana de humilhar o outro quando a hierarquia se inverte. O patrão monstruoso não deixa de ser humano; a funcionária oprimida tampouco se torna santa. Ambos são falhos, contraditórios e plenamente capazes de crueldade. A violência não nasce do acaso, mas do egoísmo, do medo e do prazer silencioso de exercer poder sobre alguém vulnerável.
Mas Socorro! também reafirma algo essencial da obra de Sam Raimi, a comédia física como forma de violência. Desde Evil Dead II, quando Ash entra em uma luta corporal grotesca com a própria mão possuída, um humor que nasce do descontrole do corpo e da humilhação do personagem, Raimi constrói o riso a partir do excesso, da dor e do constrangimento. Mesmo em Homem-Aranha, esse princípio se mantém, ainda que domesticado pelo cinema de estúdio, as cenas de humor ficam concentradas em figuras como J. Jonah Jameson, o chefe abusivo vivido por J.K. Simmons, que demite e recontrata Peter Parker em questão de segundos, transformando a precarização do trabalho em uma piada recorrente. Em Socorro!, esse humor retorna despido de qualquer filtro heroico, o corpo volta a ser o campo de batalha, o riso surge do desconforto, e a comédia deixa de aliviar a violência para aprofundá-la.
Dylan O’Brien se entrega completamente a esse registro. Seu personagem tropeça, improvisa, erra. Há uma sequência envolvendo a construção de uma jangada que dialoga diretamente com Náufrago (2000), assumindo uma referência clara. Raimi brinca com esse imaginário de sobrevivência heroica apenas para esvaziá-lo logo em seguida, transformando esforço em frustração e esperança em ridículo. O riso vem, mas sempre atravessado por humilhação e tensão.
Essa leitura encontra sua expressão máxima na mise-en-scène. Raimi recorre aos seus planos mais característicos, closes extremos e planos-detalhe obsessivos, como ferramentas de controle emocional do espectador. Olhos arregalados, bocas sujas, lágrimas isoladas no rosto: o corpo vira território de conflito. A câmera não observa; ela invade. Cada enquadramento parece calibrado para provocar uma reação física imediata, nojo, tensão, fome, ansiedade.
O uso recorrente da comida e da privação é particularmente perturbador. Comer deixa de ser um ato banal e passa a carregar um peso simbólico enorme: desejo, culpa, controle, humilhação. É o tipo de imagem que gruda na memória. Quando o filme acaba, ele não se encerra de imediato. Há um efeito residual, uma dificuldade em se dissociar daquela lógica brutal. O espectador sai da sala ainda preso àquela ilha.
Ao contrário de obras anteriores de Raimi, como Homem-Aranha ou mesmo Arraste-me para o Inferno, aqui não há redenção possível nem aprendizado claro. Não existe lição de responsabilidade, tampouco uma punição moralmente satisfatória. Socorro! recusa qualquer conforto ético e desmonta a ideia de que a barbárie surge quando a civilização falha. O escritório, com suas hierarquias e humilhações normalizadas, já opera segundo a lógica da selva — apenas com linguagem corporativa e crachá. Quando essas mediações desaparecem, o filme não revela monstros ocultos, mas um sistema levado ao limite. A ilha não corrompe ninguém: apenas expõe, sem filtro, a violência estrutural do capitalismo em funcionamento.














