O terror Rock Springs, filme de estreia da diretora Vera Miao exibido na mostra Midnight do Festival de Sundance 2026, é um exemplar do gênero que deve dar o que falar mais à frente no ano. Porém, confesso: Achei o início do filme bem clichê, e o final ligeiramente decepcionante.

No entanto, é no seu meio que o filme fica vivo e na memória do espectador, quando Miao usa uma tragédia real para falar do horror tipicamente americano. Nem que seja só por esse segmento, Rock Springs merece ser visto.

O filme conta a história de uma família que viaja para uma cidadezinha pequena – a Rock Springs do título, que existe de verdade no estado do Wyoming – para morar numa casa isolada. Se você já viu meia dúzia de filmes de terror na vida, já sabe que isso não vai dar em coisa boa. E para completar, a mãe, filha e sogra estão superando um luto – de minha parte, não aguento mais filmes de terror usando o luto como alavanca dramática e, porque não, para assegurar um ar de seriedade que ajuda a atrair pessoas que nunca tiveram respeito pelo gênero.

A mãe – vivida por Kelly Marie Tran, de Star Wars: Os Últimos Jedi (2017) – é uma violoncelista que não sabe muito bem o que fazer com a filha pequena (Aria Kim), pois a garotinha está sem falar com ela há seis meses. A sogra dela (Fiona Fu) tenta lidar com o luto através das tradições chinesas. Um dia, após uns eventos estranhos, a menina desaparece na floresta próxima à casa, deixando a mãe em pânico.

Para ser justo, o filme é eficaz em construir uma atmosfera sinistra e de isolamento, graças ao trabalho de fotografia de Heyjin Jun, que explora a frieza e o desconforto do local. Mas ao mesmo tempo, essa construção da história parece tão calculada, tão “estilo Blumhouse”, tão repetitiva em relação ao que o gênero tem oferecido recentemente, que é difícil se envolver com Rock Springs nesse início, apesar também das boas atuações de Tran e suas colegas de cena.

É então que Miao dá uma guinada na história, num longo flashback para nos mostrar a origem do mal ao redor da cidade e da casa das nossas protagonistas. Vemos uma tragédia baseada em fatos reais, quando trabalhadores chineses foram mortos num crime racial que aconteceu no século XIX. Os personagens de Benedict Wong – no segundo filme de terror consecutivo, depois de sua participação marcante em A Hora do Mal (2025) – e Jimmy O. Yang passam a comandar o filme, como trabalhadores de uma mina que discutem sobre sua nova terra natal e seu novo papel como americanos.

No contexto atual, é claro que o filme busca fazer um comentário sobre os Estados Unidos de hoje, construídos sobre as costas dos imigrantes que hoje são demonizados. E o filme o faz com força e ressonância emocional. A tragédia de ontem é a mesma do país hoje, e os fantasmas do passado continuam a assombrar a nação. Nesse sentido, o filme também se encaixa numa tendência atual do horror, de examinar a experiência de algumas minorias frente ao chamado “sonho americano”. Ainda assim, nesse segmento, Rock Springs tem força suficiente para se sustentar por si mesmo.

Ao voltar para o século XXI no terceiro ato, e ao dilema da mãe à procura da filha, o filme busca amarrar suas temáticas de forma poderosa, mas aí Miao acaba sendo sabotada – um pouco – por uma ameaça sobrenatural que também parece reciclada de outro filme famoso recente, que chegou a romper a bolha do terror corporal – não vou dizer qual para não dar spoiler. A conclusão é eficiente, mas não consegue ficar à altura do drama que presenciamos na metade do longa.

Mesmo com essas irregularidades, Rock Springs convida o público a uma reflexão e a ter consciência de que o horror americano continua vivo. Vale a pena continuar a acompanhar a carreira da sua diretora, cujo toque humano e força narrativa ainda transparecem, mesmo quando ela parece ainda em busca de um estilo próprio.