Com a estreia de Um Cabra Bom de Bola, nova animação da Sony Animation, o Cine Set teve a oportunidade de entrevistar o dublador do protagonista Zeca Britto, Rafael Sadovski. Conhecido por dublar o Capitão Forest em “Venom: A Última Rodada” e o Jason Todd/Capuz Vermelho em “Batman Ninja vs Yakuza League”. Rafael é de Mossoró, Rio Grande do Norte, ele cresceu na Bahia e hoje mora no Rio de Janeiro.

A história acompanha Zeca Britto, uma pequena cabra com grandes sonhos, que recebe uma oportunidade única na vida de se juntar aos profissionais e jogar berrobol – um esporte de alta intensidade, misto e de contato total, dominado pelos animais mais rápidos e ferozes do mundo. Os novos companheiros de equipe de Zeca não ficam muito empolgados em ter uma pequena cabra no elenco, mas Zeca está determinado a revolucionar o esporte e provar de uma vez por todas que “os pequenos também mandam bem no jogo!”

Na conversa, Rafael conta como foi seu processo, como lida com o nervosismo e sobre o trabalho de direção de dublagem de Andrea Murucci no longa animado.

Cine Set –  Tem uma coisa interessante no seu trabalho como o Zé Cabrito, que é a questão do sotaque. Sabemos que o processo de dublagem envolve sincronismo, interpretação e leitura labial. Como você trabalhou esse sotaque dentro do personagem e da história?

Rafael Sadovski – Na dublagem, a gente costuma buscar um sotaque mais neutro — mesmo sabendo que isso não existe de fato no Brasil. Moro no Rio de Janeiro e fui formado dentro dessa lógica. Por isso, fazer um personagem com meu sotaque nordestino, já que sou de Mossoró, no Rio Grande do Norte, foi uma grande surpresa e um desafio muito prazeroso.

Esse sotaque está muito vivo em mim, porque volto ao Nordeste com frequência e, quando estou com minha família, ele aparece naturalmente. Já no Rio, ele acaba se neutralizando. Trazer isso para um personagem exigiu cuidado, porque a dublagem envolve muitas preocupações ao mesmo tempo: sincronismo, intenção, verdade cênica. Minha técnica parte muito da imagem — preciso sentir que aquela voz realmente sai do corpo do personagem.

Então tentei não racionalizar demais o sotaque, deixar ele fluir de forma natural. A direção da Andrea Murucci foi fundamental nesse processo; ela tem um cuidado e uma sensibilidade incríveis. Também incorporamos algumas gírias em cenas específicas, coisas que remetem a vivências minhas, o que ajudou a dar ainda mais verdade ao personagem. Foi um processo muito orgânico.

Cine Set – O Zé Cabrito é o protagonista da história. Além do sotaque, o que você emprestou de você ao personagem?

Rafael Sadovski – Coloquei muito do meu jeito divertido, do alto astral. Ele tem cenas ótimas, muitas reações, risadas, sustos, vai bastante para o falsete — e eu adoro fazer esse tipo de reação. Esse lado mais solto, mais desenrolado, foi algo que eu gostei muito de imprimir nele. As gírias e o jeito de falar também ajudaram a construir essa personalidade.

Cine Set – Assumir um protagonista de uma animação da Sony é uma grande responsabilidade. Como você lidou com o nervosismo?

Rafael Sadovski – Eu tentei encarar como um dia normal de trabalho. O nervosismo sempre existe — e eu acho até saudável, porque significa que a gente se importa. Mas o estúdio é um ambiente onde eu me sinto muito bem, fazendo o que amo. Geralmente, o nervosismo fica mais na sala de espera. Quando entro no estúdio e começo a trabalhar, fico tão imerso que ele desaparece.

Coloquei na cabeça que o Zequinha já fazia parte de mim, que eu estava indo para mais um dia viver aquele personagem e me entregar de corpo e alma — e de voz, principalmente.

Cine Set – Em apenas uma palavra, qual foi o maior desafio ao dublar o Zeca Britto?

Rafael Sadovski – Resiliência. Essa palavra resume o filme, o personagem e também o meu momento. A mensagem de que ninguém é pequeno demais para sonhar grande dialoga muito com a minha trajetória. Eu me coloquei no lugar do personagem, e isso ajudou diretamente na minha entrega. Resiliência resume tudo.