Na cama de um quarto de hotel em Las Vegas, o prodigioso jogador de hóquei Shane Hollander (Hudson Williams), nu e se tocando de maneira insinuante, abre suas pernas e diz ao seu arquirrival nos rinques, Ilya Rozanov (Connor Storrie), que precisa dele.

A situação, ponto de ebulição do segundo episódio da série “Rivalidade Ardente”, vê os protagonistas oscilando entre desejo e incredulidade – algo que, de certa forma, encontra eco no fandom do seriado, que estreia no Brasil hoje depois de um sucesso estrondoso na América do Norte que repercutiu mundo afora.

Em teoria, um programa com muito sexo gay, abordando temas não necessariamente novos (paixões proibidas e homofobia no esporte), indicava um público-alvo nichado. No entanto, ele claramente tocou em algo que, com o perdão da expressão, ardeu: “Rivalidade Ardente” se tornou a mais assistida série roteirizada comprada pela HBO Max, mais que dobrando sua audiência desde que o seu último capítulo (por ora) foi exibido nos EUA, na semana do Natal.

As discussões sobre o que é esse “algo” estão a pleno vapor na mídia e nas redes sociais, mas para além delas, parece impossível negar que há algo de extremamente simbólico em um show abertamente adulto, romântico e queer fazer sucesso em um cenário econômico e sociopolítico que se mostra bastante hostil a esses atributos.

Há um argumento – não exatamente inválido – de que, em meio a notícias de guerra e retrocessos legislativos, ver dois jogadores de hóquei vivendo um tórrido romance proibido é uma alternativa mais reconfortante. Essa certamente é uma leitura – mas ela falha em contemplar o amplo caráter inspiracional de “Rivalidade Ardente”.

Em Shane e Ilya, a série tem uma história de amor com dificuldades que pode ser apreciada por todos, mas eles também servem como espelhos de uma busca por aceitação (tanto de si mesmos como de sua família e entorno social) para o público queer. Além disso, eles exemplificam uma relação cujo afeto se expressa despido de masculinidade tóxica, o que atrai as mulheres hétero (que compõem grande parte do público tanto do seriado quanto da série de livros de Rachel Reid que o inspirou).

“Rivalidade Ardente” encontrou um terreno fértil na encruzilhada entre desejo, projeção, identificação e idealização. É nele que seu criador, Jacob Tierney, mantém o público a maior parte do tempo, seja através de seus protagonistas ou de histórias paralelas – como a que ele magistralmente introduz no terceiro episódio, a qual expande o canvas da série e faz com que ela diga muito mais sobre preconceito institucional do que faria se ficasse limitada aos personagens de Williams e Storrie.

Falando neles, os ilustres desconhecidos (até o lançamento da série) entregaram performances que elevam (e muito) o material ao redor, com atuações focadas em micro gestos, reações suprimidas e, no caso de Storrie, longos diálogos em russo aprendidos foneticamente. Além disso, suas aparições públicas depois da série criaram um paralelo com a série, com eles reproduzindo, na vida real, uma relação (dessa vez, não romântica) entre homens que tem muito afeto e fisicalidade.

Os paralelos não acabaram aí: ex-atletas (inclusive de hóquei, como Jesse Kortuem) se assumiram gays depois do lançamento da série e, segundo os atores, vários outros, que continuam no armário, os enviaram mensagens privadas elogiando o projeto e dizendo o quão fidedigno à vida deles ele é. O impacto dessa representatividade é o que dá ao seriado uma urgência pouco vista em séries desse gênero, muitas vezes visto como escapista.

“Escapista” é um termo que costuma ser usado pejorativamente para descrever narrativas tidas como leves e inverossímeis, como alguns romances. Porém, o apelo longevo de “Rivalidade Ardente” vem da necessidade de acreditar que sua narrativa é possível, que o amor pode ser libertador e que as pessoas podem ser suas melhores versões. Um pouco utópico? Talvez… mas talvez o mundo precise dessa utopia tanto quanto Shane precisa de Ilya naquela cama em Las Vegas.