PARA LER OUVINDO…
“Tempo, tempo, tempo, tempo. Vou te fazer um pedido…”. Assim canta Caetano Veloso em uma das suas mais belas canções. O tempo, realmente é primoroso e, de certa forma, pitoresco. No mundo das artes ele determina uma carreira e uma vida inteira.
Nas artes, o tempo é sina, é busca, é explosão. Depois de uma longa e extensa carreira, o corpo não acompanha mais o tempo. O tempo é outro e é preciso descansar. E para onde vão os artistas que dedicaram sua vida e seu tempo à arte? Nesse meio, a aposentadoria não é tão validada como em carreiras ditas comuns, de carteira assinada e tudo mais. As necessidades básicas são comuns a todos e aos artistas, os transviados, os subversivos, o tempo nem sempre está ao seu favor.
Foi pensando nessa inconstância aos artistas da terceira idade, que Giuseppe Verdi (1813-1901), um dos maiores compositores de ópera do seu tempo, construiu do zero e do seu próprio bolso a “Casa Verdi”, o lar de acolhida para artistas líricos aposentados que não tinham para onde ir.
Construído a partir de 1898 e inaugurado em 1901 após a sua morte (exigência do próprio). O lugar é um monumento, abrangendo museu, a casa e residência de jovens promissores da música erudita e muitas, muitas histórias para contar.
Viva Verdi mistura imagens raras do final do século XIX e início do XX e a carreira extensa e gloriosa nos palcos do mundo de seus personagens. A diretora Yvonne Russo em parceria com o editor Federico Conforti, construíram uma narrativa muito simples, escolhendo nomes e personagens em potencial para abrilhantar um legado centenário que carrega consigo talento, arte e memória.
O grande porém aqui é a sensação de incompletude em questões importantes como solidão destes senhores e senhoras tão distintos, o tema aparece de maneira superficial deixando um clima gélido no ar. O filme devaneia muito junto aos seus personagens, mas não se aprofunda em pormenores que fariam diferença, como por exemplo, de mostrar como se sustentam e como a comunidade em geral abraça esse lugar, para além dos jovens residentes. A impressão que tive era que estava assistindo a um filme institucional, até mesmo nos cortes, há a sensação de um produto encomendado. A verdade desses talentosos veteranos não se sobrepõe à tela prejudicados pelo ritmo da direção, minando as histórias narradas, pois muitas não se desenvolvem.
Ainda que haja boas descobertas para o público que médio que desconhece o legado da casa e dos seus residentes. Como Claudio Giombi e sua energia jovial, passando por outros demais artistas fascinantes que tem o peso do tempo no corpo, mas que a memória e o talento sobressaem as limitações, como Tina Aliprandi, que chegou a tocar junto ao seu marido na Orquestra Sinfônica Brasileira nos anos 1940, ou uma dupla de nonagenários com uma voz potente e cristalina.
Outro ponto negativo, é a questão da ideia de algum conhecimento prévio do que é a Casa Verdi. Certamente, a diretora não pensou nessa questão. Presumindo que, para além do território italiano ou que você seja algum artística lírico, a casa/museu é uma novidade. Nesse sentido, interfere diretamente na experiência do espectador por conta dessa linguagem institucionalizada.
Mas a arte que pulsa nesses senhores e senhoras talentosíssimos, cheios de vitalidade, resistência, sempre bem vestidos, e confortavelmente e merecidamente bem instalados é maior que qualquer aposentadoria compulsória e deslizes geracionais.
O filme concorre ao Oscar de Melhor Canção Original, a Ópera que abre esta postagem. OUÇAM!













