Devoradores de Estrelas é um aceno na direção das velhas aventuras espaciais, aquelas com todo jeitão de filme B, das quais o primeiro Guerra nas Estrelas se tornou, paradoxalmente, a epítome e a sentença de morte. Sentença de morte, porque a auto-mitificação e a solenidade que passaram a perpassar a franquia pouco tem a ver com o divertimento ligeiro das óperas espaciais dos anos 1960, dos quadrinhos baratos e da literatura pulp.

É uma tensão, aliás, que o novo filme de Phil Lord e Christopher Miller não consegue resolver totalmente. Porque, por mais que haja o tal aceno sendo feito, o filme também tem lá sua parcela de inchaço, de autoindulgência mítica. Vide a duração inflada — pouco mais de duas horas e meia — que se faz sentir, especialmente, com o acúmulo de finais: o filme parece se recusar a acabar.

Se as mais de três horas do último “Avatar” passam voando, é não só porque Cameron tem melhor controle de ritmo, como porque seu espetáculo é verdadeiramente bombástico. Já Lord e Miller de tempos em tempos precisam puxar as rédeas do filme em prol de explicações sobre o blá-blá-blá científico que permeia a trama — o que, ao contrário do que esperam, não torna seu filme menos confuso.

Isso se deve, sem dúvidas, ao material original, o livro escrito pelo escritor de hard sci-fi Andy Weir, autor também de “Perdido em Marte“. Em “Devoradores de Estrelas”, Ryan Gosling é Ryland Grace, cientista decadente cujas teorias sobre a vida fora da Terra lhe reduziram ao papel de professor no ensino primário. Qual não é seu espanto, então, quando um comitê internacional bate à sua porta, convocando-o para uma missão ultrassecreta sobre a qual depende o futuro do planeta.

Grace passa a somar esforços no estudo de um micro-organismo alienígena que parece se alimentar da energia solar — os tais “devoradores de estrelas” do título. Um baita problema, sem dúvidas, até que nosso Dr. Ryan Gosling consegue descobrir um modo de reproduzir os organismos, o que resulta numa liberação de energia suficiente para possibilitar a viagem espacial a sistemas distantes. 

Conveniente, já que os cientistas descobriram que uma estrela longe para dedéu parece ser a única que não foi afetada pelos temíveis e minúsculos astrofágicos. A energia que produzem é o bastante para garantir a ida — mas não a volta. Por desígnios complicados demais para relatar nesta já rocambolesca recapitulação, o medroso Grace é enviado numa missão suicida pela líder do esforço científico, vivida por Sandra Hüller.

Tudo isso é explicado por meio de uma estrutura de flashbacks que mantém o filme num andamento travado, mastigado. Até porque seu verdadeiro mote só será estabelecido por volta dos 60 minutos: a amizade entre Grace e um simpático alienígena em forma de rocha, apropriadamente nomeado como “Rocky” pelo cientista. Rocky também está à procura de meios para combater o desaparecimento de sua estrela, e o filme logo se revela um curioso tratado em prol da amizade interplanetária.

Rocky, por ser um boneco controlado por diversos técnicos no set (com alguns ajustes em CGI, vale notar), deixa claro o projeto de Miller e Lord: trazer de volta a tatilidade à aventura espacial. Sem dúvidas, seu passado em animações como “Aranhaverso” informa a criação de Rocky, dotado de imensa expressividade nos movimentos e “feições” — entre aspas, porque, por ser basicamente uma rocha, Rocky não tem rosto e se comunica apenas por ruídos.  

Mas essa abordagem não se limita apenas a Rocky: a nave de Grace, com seus painéis cinzentos e botões de estilo retrô, dá a tônica de uma exploração espacial que parece mais analógica que digital. Em termos de design, em termos de direção de arte, em termos de desenho de personagens, “Devoradores de Estrelas” é um grande sucesso.

Mas fica faltando aquele algo mais. Para um filme tão investido em seu próprio palavrório, parece pouco que ele se limite a ser uma compilação de greatest hits da ficção científica: há um pouco de “Alien“, um pouco de “2001 – Uma Odisseia no Espaço“, um pouco de “Gravidade“, além das já citadas aventuras de outrora. Gosling, por sua vez, reprisa seu jeitão cômico de sempre, em chave parecida ao que fez em “Barbie” e “Dois Caras Legais”, com direito ao seu já característico gritinho agudo em momentos de aflição.

O que está longe de ser ruim. Mas a gente espera um pouco mais de desbunde de Lord e Miller. Não há nada aqui tão engraçado ou memorável quanto os créditos finais de “Anjos da Lei 2”, ou tão visualmente instigante quanto “Aranhaverso”. O que há é a competência de todos os envolvidos na criação de uma boa aventura espacial, com as doses certas de sentimentalismo e humor, mas que não chega a inspirar deslumbramento com a vastidão do universo.

Autor

  • Marcos Faria

    Marcos Gabriel Faria é artista visual e cineasta baseado no Rio de Janeiro, RJ. Graduado pela UFF em Cinema e Audiovisual, é um dos criadores, ao lado de amigos da graduação, do blog Conversas de Bandejão, para o qual também contribui com textos sobre cinema e arte em geral.

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