Uma coisa é certa: ser politicamente correto nunca foi uma grande ambição para Peter Farrelly, diretor estadunidense que, juntamente com seu irmão Bobby Farrelly, é responsável por algumas competentes e hilárias comédias escrachadas dos anos 1990 e início dos 2000, como “Débi & Loide”; “Quem Vai Ficar com Mary?”; “Eu, Eu Mesmo  e Irene” e “O Amor é Cego”. Isso também pode ser verificado no seu drama, vencedor do Oscar em 2019, “Green Book”. Apesar da irreverência e falta de  pudor dessas obras, seus filmes eram sempre marcados por uma lição de vida edificante, personagens cativantes e desenvolvidos de forma competente, com uma singela superação de problemas e preconceitos. Bem… o mesmo não se pode dizer de “Bola pra Cima”. Esse aí veio só para dar vergonha alheia mesmo. 

Para ser justo, a trama tem uma história simples e divertida, envolvendo uma dupla de amigos, Brad (Mark Wahlberg) e Elijah (Paul Walter Hauser), que trabalham numa empresa de marketing trabalhando em uma curiosa campanha de patrocínio de preservativos para a Copa do Mundo de 2025 no Brasil. Então… também fiquei em dúvida sobre o porquê desse ano, mas é uma história fictícia, então até aí tudo bem.  

E sim, o tema dos preservativos rende alguns momentos de humor constrangedor (no sentido positivo e inofensivo da palavra), ou melhor ainda, um humor “quinta série”.  Depois de um escândalo durante a comemoração da seleção de sua campanha – que  leva os dois amigos a serem demitidos – eles resolvem aproveitar as passagens que receberam para vir ao Brasil acompanhar os jogos. E é aí que entra a parte mais problemática do filme: a representação do Brasil.  

De certa forma, chega a ser inacreditável a existência de um filme como “Bola pra Cima” em pleno 2026. Não é porque o Brasil está na moda entre os gringos, com dois vencedores sucessivos do Globo de Ouro de Melhor Filme Internacional, que o país pode ser representado ao bel prazer sem o mínimo de consultoria e uma pesquisa decente sobre a cultura local e a geografia da região. Em matéria de total falta de acurácia na representação dos locais em que a história se passa, ele deixaria as equipes de “Emilia Pérez” e “Anaconda” (2025) emocionadas. 

Isso porque, após participarem de uma confusão que faz o Brasil perder a partida para a  Argentina, os dois protagonistas entram numa teia de eventos absurdos que cruzam a  linha entre o exagero cômico e o estereótipo. Apesar do ritmo de acontecimentos ser competente e divertido, eles conseguem ir de um estádio de futebol a uma sede do  Ministério da Defesa (?) no mesmo dia. Esplanada dos Ministérios, cadê você???  Nesse Brasil aqui, não tem muita diferença entre Rio de Janeiro e Brasília não. Entra um super caricato Ministro da Defesa, interpretado por Luciano Szafir, que parece mais um general do que um ministro. 

Depois de saírem da sede do Ministério da Defesa e serem capturados por traficantes,  em pouco tempo os protagonistas estão em nada menos do que a selva amazônica e conhecendo um… grupo de “ecofundamentalistas apátridas”. Todos falando inglês,  claro. É, eu desisto. Tirando a rivalidade entre Brasil e Argentina e a abordagem sobre os candirus nos rios amazônicos, quase nada de autêntico é dito sobre o Brasil. 

Uma outra questão é a ausência de atores brasileiros: fico me perguntando se isso se dá por um desleixo de Hollywood ou porque nenhum ator brasileiro teve coragem de  estar num filme tão pouco autêntico, a não ser Luciano Szafir e um ator chamado Will Santana, que faz um dos criminosos da facção lideradas por um surpreendente e hilário Sacha Baron Cohen (que não convence nem um pouco como brasileiro). E claro, como Gisele Bündchen deve ser uma das poucas figuras brasileiras que os EUA conhecem, o personagem de Cohen ser um irmão (fictício) da modelo deve ser uma piada hilária para um estadunidense. Aqui é só… “oi?”. Enfim, o resultado de tantos atores de fora representando brasileiros são pronúncias em português completamente inverossímeis.  Eles só parecem estrangeiros tentando falar português brasileiro.

E mais uma vez temos cenas que se passam no Brasil gravadas na Austrália – assim como na nova versão de “Anaconda – e mais uma vez Daniela Melchior – que é uma atriz portuguesa – representando uma latina (existe um plot twist sobre a verdadeira nacionalidade da personagem dela). Sério, estamos em 2026 e deveríamos estar mais conscientes sobre questões de representatividade e diversidade,  certo? É pedir muito que cenas no Brasil sejam gravadas no Brasil? Não aprenderam nada com a reputação de Emilia Perez? Hollywood já veio para Manaus gravar o “Anaconda” original, então, não deveríamos esperar menos do que isso nunca mais.  “Bola pra Cima” é quase uma versão brasileira de “Emily em Paris” (e eu sendo brasileiro  já achei absurda a representação dos franceses ali). 

Deixando a ambientação de lado, a dinâmica entre a dupla de protagonistas rende boas risadas, numa vibe “Drake e Josh” onde temos um galãzinho popular e galanteador  e o gordinho inteligente e inocente. E sim, existem alguns diálogos sagazes e criativos. Particularmente, a cena na casa do traficante é bem divertida e inusitada. As reviravoltas  são eficientes dentro da proposta despretensiosa da obra, e os atores sabem navegar  por elas.  

Nesse sentido, cabe destacar que, a despeito de Mark Wahlberg ser um ator no piloto automático, Paul Walter Hauser é digno de elogios, com seu típico perfil desajeitado e nerd, com um timing, expressividade e linguagem corporal que o tornam um ator cômico cada vez mais interessante de acompanhar. O carisma de seu personagem consegue até  fazer com que, apesar de dizer uma linha de diálogo extremamente racista em certo momento, o interesse do espectador por ele não se estrague por completo. 

Em suma, “Bola pra Cima” tem pouco a dizer sobre os temas que abraça. Marketing, futebol, política internacional, cultura brasileira… nada é bem explorado. A grande alma do filme, a amizade entre Brad e Elijah, não traz nada de muito significativo para além de uma boa jornada de sobrevivência e situações inusitadas e coincidentes. Não fosse a total falta de noção representativa, seria pelo menos um road movie mediano divertido de acompanhar,  porém sem o mesmo coração que sempre marcou as comédias dos irmãos Farrelly.