Em 1999, o empresário de tecnologia Geert (Arieh Worthalter) tenta abrir a porta de seu escritório através de um sistema de reconhecimento vocal que insiste em não funcionar. Ironias como essa dão o tom de “Dust”, filme de Anke Blondé que estreou na mostra competitiva da Berlinale desse ano. A produção ficcionaliza uma crise real para falar do preço (e da tacanhice) da ambição extrema, mas sua narrativa aberta e morosa não explora o pleno potencial de sua trama.

Ela acompanha Geert e seu parceiro de negócios Luc (Jan Hammenecker) durante seu último fim de semana de liberdade antes de serem presos pelos seus esquemas de fraude. Suas reações à situação os levam a lugares e estados de espírito distintos – Geert se refugia com certa calma em sua mansão com seu chofer (e amante) enquanto Luc tenta esconder seu dinheiro com a ajuda de sua mulher, entrando numa espiral de paranoia – e o longa vira, de certa forma, a história de como eles voltam a se reunir em sua hora mais escura.

Escrito por Angelo Tijssens, o roteiro se propõe a caminhar em uma corda bamba ao tentar, ao mesmo tempo, mostrar ao público a humanidade de pessoas amoralmente gananciosas e usar a pequenez e confusão de seus atos como fonte de humor. Esse balanço precário deixa entrever um filme duvidoso sobre o que quer ser, com momentos de pura comicidade enxertados entre morosas cenas dramáticas criando variações incômodas de tom.

Algumas dessas cenas, inclusive, apontam para direções ricas que o filme poderia ter seguido – principalmente as que envolvem Geert. Seu chofer, por exemplo, insere um elemento queer na trama que não vai para lugar nenhum. Em outro momento, seu confronto com uma das executivas de sua empresa faz um argumento sobre a brutalidade do capitalismo e sobre como ele poderia ser considerado o real vilão da história aqui, mas o longa tampouco se aprofunda nessa leitura.

Ele se sai melhor ao sugerir um paralelo entre a cobiça que pautou a crise da tecnologia na virada do milênio e os dias de hoje, em que uma nova geração de “tech bros” conseguem acumular bilhões prometendo soluções para a humanidade, sem saber se eles conseguem entregá-las ou qual o real impacto delas. Em Luc e Geert, o filme cria representações de um momento em que o mundo possibilitou vender sonhos (factíveis ou não) em uma escala sem precedentes. De certa forma, esse mundo ainda é o vigente.

Rodado em cores frias pelo diretor de fotografia Frank van den Eeden, o longa é bem-sucedido ao mostrar homens que, na claustrofobia de seus pensamentos, já estão na prisão muito antes dos policiais chegarem. No entanto, a força de suas temáticas não conseguem vencer sua narrativa arrastada, que dá muito pouco para os seus protagonistas fazerem durante os 114 minutos de projeção.

No rolar dos créditos, a imagem que mais reverbera não é a do interior belga onde a maior parte da história se passa, mas a da reconstrução do que constituía a vanguarda tecnológica de 1999. É acachapante lembrar que ela já foi o futuro. De lá para cá, tudo mudou, exceto a vontade de arriscar tudo – inclusive a própria ruína – por um punhado de dólares a mais. O tempo não para.

Autor

  • Lucas Pistilli

    Jornalista e advogado baseado no Reino Unido. Cobre eventos cinematográficos internacionais como os festivais de Cannes, Karlovy Vary e Londres. Já foi repórter das edições impressa e digital do jornal amazonense A Crítica, onde escreveu sobre cultura, economia e política. Hoje, além do Cine Set, também colabora para o site cinematográfico britânico DMovies.org e assina o blog Culture Frequencies (ambos em inglês).

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