O debate sobre a escala 6×1 no Brasil revelou um medo de todo trabalhador CLT: perceber que o trabalho domina todo o tempo dela. Produções como a série Ruptura exploram as rotinas exaustivas e, principalmente, a sensação de se estar sempre vivendo o mesmo dia. Exit 8, adaptação do jogo The Exit 8, também parte de um medo muito específico da classe trabalhadora: ficar preso no terminal de espera do transporte público, como numa espécie de Feitiço do Tempo (1993). Aqui, o personagem de Kazunari Ninomiya fica preso após descobrir que será pai, ao mesmo tempo em que lida com um emprego temporário e uma tosse que parece capaz de arrancar seus pulmões.

Essa parte inicial funciona muito bem justamente por ancorar o absurdo em algo reconhecível. Ninomiya consegue construir um personagem que gera identificação com o público, porque ele está inserido numa realidade extremamente comum. O filme até se aproxima de propostas como 127 Horas, O Quarto de Jack e O Quarto do Pânico, que também se sustentam a partir de espaços limitados e da necessidade de manter a tensão dramática com poucos elementos. A diferença é que esses filmes sabem expandir suas ideias ao longo da duração, não é o caso de Exit 8.

Depois que a premissa se estabelece, o filme parece esgotar rapidamente suas possibilidades. O longa passa a se repetir sem grandes variações: encontrou uma anomalia, volte imediatamente; não encontrou, siga em frente. O personagem precisa acertar oito vezes e, caso erre, retorna ao início. O que deveria gerar tensão progressiva acaba se tornando mecânico. Com cerca de 30 minutos, o espectador já entende completamente o funcionamento daquele universo, e o restante do filme pouco acrescenta.

Temos aqui também mais dois personagens: um homem que fica caminhando e sorrindo, e que eu acredito que represente todas aquelas pessoas que já aceitaram que nada vai mudar, que as coisas vão continuar as mesmas. Ele até tem um momento na história em que parece acordar daquele transe, mas logo volta, andando em círculo sem se preocupar com nada. E eu acho isso muito assustador. Porque não tem nada pior do que trabalhadores que já aceitaram a escala 6×1, que já aceitaram essa rotina e não fazem mais questão de tentar mudar.

Ele acaba sendo um dos elementos mais peculiares do filme justamente por isso, caminhando e sorrindo como se nada mais importasse. Tem até uma frase do protagonista em que ele diz que “esse aí já perdeu a humanidade”, e faz muito sentido, porque é exatamente essa sensação que o personagem passa de aceitar os dias iguais pelo resto da vida. E temos também a criança, que aparece mais pra ajudar o protagonista a carregar esse peso, como uma espécie de consciência. É como se fosse o próprio filho dele ali, trazendo esse peso emocional e essa responsabilidade. São duas adições interessantes ao filme.

Porém, mesmo com esses paralelos, os 90 minutos continuam mais arrastados do que deveriam pela incapacidade de desenvolver essa ideia de forma consistente. O que começa como uma proposta angustiante e cheia de potencial acaba preso na própria estrutura repetitiva, transformando a experiência em algo extremamente previsível. Mas também não dá pra chamar Exit 8 de uma péssima adaptação, nem de um desastre completo. Principalmente na construção dos cenários, existe um cuidado claro em tentar te colocar dentro daquele ambiente, como se você estivesse no próprio jogo.

Tem muito esse debate hoje em dia sobre filmes feitos “para fãs”, como aconteceu recentemente com o filme do Michael Jackson. E talvez Exit 8 funcione um pouco nessa lugar, como algo pensado para quem já conhece o jogo. Nesse sentido, eu consigo ver valor. O cenário é praticamente idêntico ao do game, existe um esforço visível em manter a fidelidade e até em adicionar elementos que tentam fazer a gente se importar mais com a história.

Porém, acredito também que o filme não consegue envolver quem nunca teve contato com o jogo, nem despertar interesse real por aquele universo. Fica mais como uma extensão da experiência original do que como uma obra que se sustenta sozinha. Sobra uma boa ideia, até criativa dentro de um cenário cheio de produções genéricas, mas que não consegue ir além disso. É uma adaptação que tem identidade, mas que acaba presa na própria proposta, sem desenvolver todo o potencial que tinha.