“Falsa Loura” poderia se chamar “A Vida Sexual das Operárias”. Aliás, o cinema de Carlos Oscar Reichenbach Filho, o Carlão, teve como uma de suas facetas a preocupação com o cotidiano de mulheres do proletariado da Grande São Paulo. É esse o mote central de filmes como “Anjos do Arrabalde” (1987), “Garotas do ABC” (2003) e este “Falsa Loura”.
“Garotas do ABC”, aliás, parece estar em diálogo direto com “Falsa Loura”: ambos mostram os amores e desamores de operárias em uma fábrica têxtil, ambos estão preocupados com o imaginário afetivo dessas mulheres. Em “Garotas do ABC”, nossa protagonista Aurélia era obcecada por homens tão musculosos quanto seu ídolo-mor, Arnold Schwarzenegger. Já aqui, Silmara (Rosanne Mulholland) oscila entre os dois astros que ama: de um lado, Luís Ronaldo (Maurício Mattar), o cantor romântico à la Roberto Carlos; de outro, Bruno André (Cauã Reymond), o roqueiro xarope metido a bad boy.
Silmara é a operária mais vaidosa do ABC. É também ocasionalmente cruel com as colegas de trabalho e ligeiramente racista. Aliás, todos os personagens têm seus preconceitos: o pai de Silmara é homofóbico e suas amigas a taxam de piranha. Mas ninguém é realmente mau aqui. Que o filme seja caloroso sem nunca precisar maquiar os aspectos mais feios do mundo que retrata é uma de suas muitas dádivas.
É uma vida dura, a dessas mulheres, mas Carlão as filma com tesão, com desbunde e humor. Se são apaixonadas por cantores bregas, se sonham com luas de papel e piscinas de celofane, o que lhe cabe é apostar nessa artificialidade da forma mais amorosa possível. Estamos longe da típica hagiografia da classe operária: a abordagem irreverente de Carlão é bem mais generosa.
É uma generosidade que se estende também ao espectador, que é surpreendido com um filme que, na prática, é um musical. Aliás, difícil é encaixar o longa (e a filmografia de Reichenbach como um todo) nesta ou naquela caixinha genérica. Sequências melancólicas, como a ida do pai a São José dos Campos, são temperadas por gags visuais inusitadas. Encontros amorosos terminam em tentativas de suicídio. Um sonho se transforma em número de karaokê.
A sequência do karaokê é exemplar porque a preocupação central de “Falsa Loura” é o modo como o imaginário popular se constrói. As caracterizações dos personagens não estão muito distantes do extinto “Zorra Total”. Por sua vez, o elenco é recheado de figuras televisivas: Léo Áquilla, Mamma Bruschetta, Tiazinha, sub-celebridades de 2007 que, revisitadas vinte anos depois, recobrem o filme de um estranho verniz melancólico. A cultura popular evanesce tão rápido quanto os sonhos de Silmara.
Tudo isso culmina em um clímax que é apoteótico e singelo na mesma medida — aquilo que, com o perdão do clichê recente, só pode ser descrito como puro cinema. O encontro entre Silmara e Luís Ronaldo, construído por meio de gestos, olhares, movimentos de câmera e dissoluções na montagem (um trabalho absolutamente inventivo de Cristina Amaral), é de fazer chorar. Só mesmo depois de devotar uma vida inteira aos filmes é que se é capaz de fazer um negócio desses.
Sim, é como viver uma noite de princesa. E então, o sonho acaba, pontuado por um punhado de notas colocadas na sua mão. O vento varre as mechas de cabelo no seu rosto enquanto você retorna para mais um dia de batente na fábrica, seu grande rosto vermelho contra o cinza do céu paulista (e que baita rosto tem Rosanne Mulholland). O romance era tão falso quanto a cor do seu cabelo. Mate seus ídolos.













