Os primeiros momentos de Nós Acreditamos em Vocês nos deixam completamente desnorteados. Alice (Myriem Akheddiou) corre, grita, cambaleia e é driblada pelo filho, enquanto tenta convencê-lo a embarcar em um bonde com ela e a irmã mais velha. Não vemos nenhuma das crianças, no entanto; na verdade, a câmera está tão perto de Alice que às vezes sequer a vemos.

Ecos de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria? De fato, o filme da dupla belga Arnaud Dufeys e Charlotte Deviller, estreante em longas-metragens, é mais um projeto enervante sobre maternidade. Mas a comparação termina por aí. Ao contrário do que temos no filme de Mary Bronstein, os filhos de Alice são revelados logo na cena seguinte. Mas o interessante em Nós Acreditamos em Você é justamente a relação entre o que é mostrado e o fora-de-quadro.

A começar pelo fato de ser um filme de tribunal — e em filmes de tribunal, você sabe, geralmente temos acesso parcial aos acontecimentos; montamos o quebra-cabeças do caso a partir das diferentes versões apresentadas. Aqui, o que está sendo julgado é a custódia dos filhos de Alice. O pai (Laurent Capelluto), após uma ruptura de dois anos, entrou com um processo contra a ex-esposa.

Mas as crianças não querem a reaproximação com o pai — na verdade, elas sequer suportam compartilhar a mesma sala que ele. Por quê? E por quê o comportamento tão errático de Alice diante desse homem? Logo fica claro se tratar de uma situação de abuso familiar. Pelos 70 minutos seguintes, Nós Acreditamos em Vocês se desenrola em tempo real na audiência perante a juíza.

A primeira metade de projeção, grosso modo, é dedicada às declarações iniciais dos advogados — incluindo aí um advogado indicado pelo Estado para falar pelas crianças, retratado grotescamente pelo filme, com direito a uma das perucas mais horrendas na memória recente. Gradualmente, a estratégia visual dos diretores se torna clara: estamos sempre colados à Alice, ao rosto de sua intérprete.

De tal modo que o filme é também um estudo desse rosto, sempre com o nariz vermelho, sempre ofegante, nervoso. Por longos minutos, Myriem Akheddiou precisa fazer aquilo que há de mais difícil no trabalho de um ator: ouvir e nada mais. É tanto tempo observando suas reações silenciosas à audiência que o menor indício no seu rosto de uma explosão nos causa sobressalto. É uma performance de virtuosi.

Nessas horas, Nós Acreditamos em Vocês toma ares de thriller: será que ela vai fazer isso? Será que vai fazer aquilo? Será que vai se prejudicar? Estamos indiscutivelmente ao lado desta mulher, o que, se sacrifica a ambiguidade dos filmes de tribunal (os dois “anatomias”, Anatomia de um Crime e Anatomia de uma Queda, são exemplares nesse sentido), faz ganhar em teor inflamatório. E inflamar é claramente o objetivo final do projeto.

O problema é que isso é tensionado pelo suposto realismo da abordagem, pela secura da sua mise-en-scène, pela sobriedade do tempo real. Não há dúvidas de que é importante acompanharmos o passo a passo da audiência, sem ter, assim como Alice, para onde fugir — o que está em questão é justamente a falta de agência desta mulher ante os imbróglios legais, ante as contra-acusações do pai. É justamente por isso que, conforme certos arroubos maniqueístas se revelam, o resultado é uma certa dissonância em relação ao tom estabelecido.

“Arroubos maniqueístas”? O supracitado advogado das crianças e sua peruca tenebrosa, por exemplo. Ou o pai, que é sutil, mas certeiramente construído como uma presença execrável desde sua silenciosa aparição inicial. Ou, mais ainda, durante o testemunho de Alice, introduzido como clímax da narrativa e durando em torno de vinte minutos, a maior parte dos quais em close. Conforme ela rebate as acusações de seus doutos algozes, o filme corta para as reações envergonhadas dos seus adversários — como se eles não tivessem considerado antes todas as coisas que a mãe iria dizer, e agora se chocassem com a verdade de seu testemunho. 

Ora, o que Alice diz é mais do que o bastante para nos comover, mas não para comovê-los. Essas reações, portanto, são encenadas apenas para que tenhamos algum tipo de satisfação moral ante eles. Isso para não dizer nada do confronto final entre Alice e seu ex, introjetado à força na história precisamente com esse propósito. É como se Nós Acreditamos em Vocês abrisse mão do realismo nervoso estabelecido a duras penas e, finalmente, forçasse a barra. 

O problema, é importante frisar, não é forçar a barra; o problema é a dissonância entre o impulso melodramático e a secura da maior parte da projeção. O que pode ser o bastante para nos tirar da história; em se tratando de um filme-denúncia, não deveria haver margem para tais questionamentos. O resultado, claro, é prejudicado. Inflamatório? Sim, mas não tanto quanto poderia.