A febre do momento no audiovisual são as “novelinhas verticais”, que nada mais são do que os melodramas que vemos na TV, só que contados em vídeos de até 5 minutos, com o formato de tela adequado ao seu celular na vertical e com um nível de produção duvidosíssimo. Da Rede Globo até Susana Vieira, todos parecem aceitar bem o novo formato. Agora é a vez da Netflix tirar proveito, ainda que eles tentem disfarçar sua novelinha filmando-a na horizontal. 

Dirigido e roteirizado por Leah McKendrick (que também atua no longa), “Mensagens para Isabelle” traz a história de Jill (Zoey Deutch), uma aspirante a confeiteira que continua a enviar mensagens de voz para a irmã falecida, mensagens essas que acabam sendo enviadas para Wes (Nick Robinson), novo detentor do número, e que começa a se apaixonar por Jill, mesmo de longe.

“Mensagens para Isabelle” já chega ao catálogo da plataforma com um público-alvo definido: jovens entre 20 e 30 anos, que tenham como seus filmes preferidos dramédias dos anos 2000 e até meados de 2010, com um alto tempo de tela em redes de vídeos curtos e que consumam tudo que estiver dentro da playlist das 50 mais tocadas mundialmente do Spotify. Sucesso na certa! O filme é um compilado de 2 horas disso tudo.

O longa parece incapaz de equilibrar os diferentes tons que pretende assumir. Em diversos momentos, a história alterna bruscamente entre drama, romance e comédia. O problema não é ser plural, mas é importante saber agir com coesão perante sua própria obra. Não ajuda a citar a cada fala ou acontecimento, filmes como “Um Amor para Recordar” (2002) ou “A Culpa é das Estrelas” (2014), apelando diretamente para uma nostalgia barata (que infelizmente se tornou a tendência pós-pandemia), sem nunca encontrar uma identidade própria, que a diferencie até mesmo das outras milhares de produções originais nessa mesma pegada, que a Netflix possui no catálogo. 

Particularmente, me incomodou a grande quantidade de cenas e falas que são evidentemente feitas para serem recortadas e postadas no TikTok e Instagram ou virarem edits (vídeos criados por fãs que reúnem várias cenas de personagens ou celebridades, com cortes rápidos) com alguma música cafona de casamento. 

Falando em música, eu nunca presenciei um uso tão intenso da trilha sonora, sendo bombardeado com algum pop melancólico ao estilo Taylor Swift – incluindo a própria, a cada 5 minutos. Assistir esse filme é realmente como rolar a página inicial do TikTok. Existe ainda música importante pra narrativa: “Dancing On My Own”, da cantora Robyn. Ela serve como um ponto de conexão entre as irmãs, que as faz lembrar uma da outra sempre que estiverem longe. É um conceito bonito, mas eu nunca entendi o fascínio por essa música (cultuada desde seu lançamento em 2011) e vê-la na prática só confirmou o que eu sempre achei: é sem graça. Ao menos, um hit dos anos 90, “Show Me Love”, também de Robyn, está presente. É bem melhor e toca numa cena menos constrangedora. 

A construção do romance também deixa a desejar. A relação entre Jill e Wes nasce de uma situação que aos olhos do mundo real seria vista como criminosa. O primeiro encontro dos dois ocorre depois dele ouvir as mensagens deixadas para a irmã falecida e ir até o local que ela costuma ir sozinha. Wes a surpreende em um local deserto, a instiga uma conversa com informações da qual somente ela poderia saber e tudo é tratado com a maior naturalidade. Bizarro. Ele é praticamente um stalker, mas no filme, é retratado como o homem mais fofo e sensível que você já viu. E não que cobremos show de atuação de um filme como esse, mas a atriz principal é um nível abaixo do ruim. O resto do elenco até que dá conta do recado – destaque para um Nick Offerman aleatoriamente vilanesco aqui, depois de um papel bem legal em “Margô Está em Apuros”.

Visualmente, a direção de McKendrick opta por uma estética típica das produções românticas da Netflix e em imagens que fiquem boas ao serem recortadas para o formato vertical dos celulares. A montagem me lembrou a do nacional “Perrengue Fashion”, outro filme de qualidade duvidosa, feita paras as redes sociais e que parece ter sido editado no CapCut. Não há nada que ofereça qualquer elemento que diferencie o filme dentro de um catálogo já repleto de histórias semelhantes. 

O resultado? Artisticamente, é mais uma produção sem personalidade. Comercialmente, é mais um sucesso no Top 10 dos mais vistos e campeão das menções nas redes sociais. Agora é só desfrutar da novelinha da Netflix e se cansar, é só pular pro próximo vídeo.