Alguns dos filmes que consagraram o espanhol Albert Serra se passam entre os séculos XVII e XVIII. Tempos brutais e também de libertinagem, tematizada diretamente em títulos como “A História da Minha Morte” e “Liberté”. Filmes como esse renderam ao cineasta a alcunha de “provocador”, palavra que geralmente descreve pessoas que escondem seus gestos vazios sob um manto de suposta ousadia. 

O milieu dos libertinos é perfeito para as provocações baratas de Serra. Assim, ele pode se justificar alegando que seu cinema explora o elo frágil entre morte e erotismo, sensualidade e decadência — ou qualquer baboseira que o valha. Tudo isso embalado pela plasticidade acadêmica de suas imagens, cortesia de seu fiel escudeiro e diretor de fotografia, Artur Tort.

O problema de Serra não é a superficialidade das suas imagens, e sim que ela esteja a serviço dessa pose de bad boy de grife. Eis então “Tardes de Solidão“, seu primeiro documentário, no qual se debruça sobre as brutais touradas de seu país. A isca que ele nos lança é óbvia demais: cenas reais de crueldade animal adornam as duas horas de projeção em um desfile anestesiante de touros abatidos. 

Dá até para imaginar Serra se divertindo com a polêmica, como quem diz: “podem acreditar, eu realmente fiz isso“. Nossas objeções morais são exatamente o que fortalecem sua “provocação”. É uma armadilha. Ou talvez, e essa é a hipótese mais desoladora, Serra acredite no seu próprio papo. 

Talvez seja coisa de espanhol. Afinal, em crítica altamente elogiosa, o El País descreveu o longa como uma “obra-prima brutal”, “fascinante” e “quase sagrada”. Sendo neto de espanhol, tentei com todas as forças trazer meu lado ibérico à tona enquanto assistia ao filme, na esperança de que seu sentido profundo assim se revelasse. Não adiantou: as touradas seguem sendo o mais oco e estúpido monumento à ignomínia humana.

Talvez então seja o caso de ser francês, já que a Cahiers du Cinéma colocou o filme como o melhor de 2025. Ou ainda, e essa parece a hipótese mais forte, talvez seja o caso de viver no ar rarefeito dos festivais europeus, habitat natural de um bon vivant internacional como Serra. 

No centro de “Tardes de Solidão”, temos o toureiro Andrés Roca Rey. Ele tem uma beleza quase andrógina: a sobrancelha fina, muito bem desenhada, os cílios longos, a boca pequena, o corpo magro e atlético, as pernas longas modeladas pelas calças justíssimas. O contraponto é o nariz ligeiramente adunco, uma vírgula traçada sobre um retrato delicado, uma interrupção.

É a interrupção das touradas, quando o rosto de Rey se torna cheio de fúria, franzido, grotesco, frequentemente coberto de sangue e suor. Sem dúvidas, Serra enxerga nele a epítome das suas preocupações sobre beleza e decadência, violência e sensualidade. Mas o que isso realmente significa? Não passam de termos vagos que Serra não sabe como articular, palavras-chaves lançadas a esmo à espera de algum otário que lhes compre.

Serra declarou em entrevistas que seu filme não é sobre violência, mas sobre “morte e sacrifício”, sobre a transcendência do ritual. Ele diz que não é nem pró, nem contra o espetáculo sangrento que nos mostra em detalhes, com direito a um design sonoro que transforma as estocadas da espada e os esguichos de sangue em material digno de ASMR. Mas não se deixe enganar pelo discurso de “isentão”: é só uma desculpa para que Serra possa se esbaldar com o esteticismo de araque da matança que retrata.

Se enxerga qualquer coisa além de brutalidade na tauromaquia, Serra falha em nos fazer enxergá-la também. O touro ferido que nos encara não é a morte encarnada — é um touro ferido. Os movimentos do toreador, com sua mão na cinturinha e seu coletinho diminuto, não nos parecem belos, mas patéticos. E como sempre, a belíssima fotografia de Artur Tort serve de garantia apenas de que veremos imagens bonitas que, nas mãos pesadas de Serra, nos cansarão rapidamente. 

Na verdade, os únicos momentos emocionantes aqui são quando o animal finalmente acerta uma chifrada em seu cruel algoz. Estamos sempre do lado do touro. De resto, nenhuma transcendência, nenhuma revelação, apenas a banalidade de poses fajutas — seja do machão na arena, seja do machão atrás da câmera (Serra provavelmente tem mais em comum com seu retratado do que é capaz de enxergar).

A única explicação que encontramos para que Rey retorne à arena de novo e de novo é o status que sua “valentia” lhe traz: a hombridade que projeta, a bajulação patética de seu séquito (sempre a postos para louvar o tamanho dos seus culhões), as fotos com os seguidores. Ele não está muito distante de um Neymar da vida.

Mas o quão valente realmente se é se o touro é estocado por uma lança e ferido por dardos antes mesmo que você se ponha diante dele? Se há um pelotão de homens de calças apertadas a postos para te acudir ao menor sinal de problema? Dê ao touro as mesmas chances que ao toureiro antes de falar em valentia.

Não importa: as contradições da masculinidade não interessam a Serra. Ele só tem olhos para gestos vagos e grandiloquentes, como os de seu torero. “Tardes de Solidão” é a consagração final de Serra como um falsário cheio de pose. Pena dos que seguem caindo na sua ladainha.