Uma das coisas que já fica fácil de observar no cinema de Lee Cronin é sua habilidade de pegar materiais cinematográficos de horror — como sua versão de Evil Dead, feita há três anos, e agora a releitura de A Múmia — e adequá-los para contar uma história de terror psicológico que assuste e gere aflição, ao mesmo tempo em que mantém o público imerso nos conflitos do drama familiar.
Apadrinhado atualmente por James Wan (Invocação do Mal e Sobrenatural) e Jason Blum, duas das maiores forças do terror atual, responsáveis pelas produtoras Atomic Monster e a Blumhouse, respectivamente, Cronin teve mais liberdade para impor seu ponto de vista.
Em tempos em que Wan tem deixado uma leva de novos cineastas de terror assumirem “suas criações”, é bom ver Cronin mostrar a Michael Chavez, Adam Robitel, Gary Dauberman e Corin Hardy como fazer um horror, ainda que básico, dentro da proposta de funhouse.
A Maldição da Múmia faz o diretor subir mais um degrau em seu horror corporal, ao aperfeiçoar a fórmula apresentada por ele em A Morte do Demônio: A Ascensão. Se, dentro da revitalização dos monstros da Universal, o novo A Múmia não é tão sólido em sua mensagem quanto O Homem Invisível, ele ao menos se revela melhor que a releitura do recente O Lobisomem, lançada no ano passado.
Aqui, Cronin demonstra maior confiança ao fazer um filme sobre mumificação a seu estilo e ao vendê-lo como se fosse uma obra de John Carpenter, colocando o próprio nome no título original, Lee Cronin’s The Mummy.
Exageros à parte, devido a uma autoestima elevada, na nova história, acompanhamos o casal Charlie Cannon (Jack Reynor) e Larissa (Laia Costa), cuja filha Katie (Natalie Grace) desaparece no Egito após se encontrar com uma mulher misteriosa. Oito anos depois, já no Novo México, Katie, antes dada como desaparecida, ressurge dentro de um sarcófago, desencadeando uma força sombria sobre a família.
Gosto de como o filme explora a figura da Múmia longe de uma aventura de sessão da tarde, investindo em um terror pesado, nojento e grotesco para embrulhar o estômago dos mais sensíveis a partir de questões bizarras apresentadas em tela, além de um sarcasmo que faltava no trabalho anterior do seu realizador.
Aqui, tudo é mais gráfico, corporal e visceral, de dar gosto, respeitando os elementos que fazem parte da mitologia da criatura nos filmes clássicos da Universal. A própria história apresenta algumas surpresas interessantes, com Cronin cadenciando bem o drama familiar, ao mesmo tempo em que desenvolve um enredo de investigação instigante sobre os mistérios que envolvem a maldição.
De certa forma, A Maldição da Múmia é eficiente em equilibrar o grotesco do horror com a temática emocional ao transitar entre o luto e a doença para construir uma metáfora sobre um lar despedaçado em razão de uma ruptura pessoal, desencadeando o sofrimento gerado pela enfermidade do ente querido, em que o sacrifício é a única alternativa possível para reintegração familiar.
Apesar das referências ao clássico, a impressão é que essa releitura bebe muito da fórmula do cinema sobrenatural de Wan para construir seu terror de “assombrações e possessões”. E, neste campo, a obra é inventiva em trabalhar as cenas indo fundo no body horror estético para fazer o espectador ficar chocado. A cena da pedicure já pode configurar entre um dos melhores momentos do gênero este ano, ao unir um belo trabalho entre montagem, som e maquiagem.
Não sou muito fã do epílogo, devido às resoluções rocambolescas que Cronin costura e que se perdem nos excessos, juntamente com a dilatação da obra além do necessário, mas, até chegar lá, “A Maldição da Múmia” é uma boa surpresa, por instigar um terror sujo, agressivo e visualmente impactante.














