Espionagem, ação e humor são ingredientes conhecidos do gênero, mas Parceiras no Crime aposta em um diferencial: colocar uma amizade de duas décadas no centro da narrativa. Protagonizada por Octavia Spencer e Hannah Waddingham, a série acompanha duas mulheres que precisam enfrentar conspirações internacionais enquanto lidam com os segredos da própria relação.
O Cine Set participou de uma coletiva de imprensa mundial em que as atrizes explicaram como construíram a química entre Debbie e Judith, revelaram por que aceitaram o projeto imediatamente e falaram sobre os bastidores das filmagens em cidades como Praga, Karlovy Vary e Ischgl, na Áustria.
Spencer e Waddingham também refletiram sobre as transformações da indústria para atrizes mais experientes, comentaram a importância de produzir os próprios projetos e defenderam que, em meio às perseguições e mistérios da série, é a amizade entre as protagonistas que realmente move a história.
Cine Set – É impossível assistir à série sem pensar em James Bond, Missão: Impossível e tantos outros agentes secretos clássicos do cinema. Ainda assim, Ride or Die tem uma identidade muito própria, e suas personagens possuem características bastante únicas. Na sua opinião, o que diferencia a série dessas histórias de espionagem tão conhecidas?
Hannah Waddingham – Acho que a amizade entre as personagens. A Octavia e eu conversávamos sobre isso o tempo todo. Sempre nos perguntávamos: “Isso fortalece a amizade delas?”. Essa relação precisava estar no centro da história. Claro que a série tem ação, humor e inevitavelmente será comparada a todas essas franquias, mas o vínculo entre as duas é o que realmente a torna diferente.
Aliás, minha filha disse que, se fosse para mudar o nome da série, ela chamaria de “Janice Bond”. Não faço ideia de onde ela tirou isso, mas confesso que achei divertido.
A vida dupla da Judith só faz sentido por causa desse vínculo entre elas. Sem essa amizade, nada do que ela faz teria o mesmo peso.
É justamente isso que diferencia Ride or Die da maioria das histórias de espionagem. Estamos falando de uma amizade construída ao longo de 20 anos. Existe toda a aventura, as perseguições, a fuga e o mistério envolvendo a Black Mark, mas, no centro de tudo, há uma relação de amor profundo entre essas duas mulheres.
Elas precisam uma da outra. São, de certa forma, o oxigênio uma da outra. É isso que torna a série diferente.
Pergunta – Como Ride or Die chegou até vocês? Vocês já sabiam que seria uma história de espionagem ou a proposta inicial era apenas sobre duas melhores amigas?
Octavia Spencer – O projeto estava sendo desenvolvido pela Barbara Muschietti e pelo Andy Muschietti na Skydance, estúdio com o qual tenho contrato. Minha equipe disse que eu apenas ouviria a proposta, sem compromisso. Mas aconteceu exatamente o contrário: ouvi o pitch e aceitei na hora.
Depois que entrei para o elenco, começamos a discutir quem seria a Judith. Todos chegamos ao mesmo nome: Hannah Waddingham. Fizemos o convite e…
Hannah Waddingham – …eu também aceitei imediatamente, o que, convenhamos, não é o mais comum. E o curioso é que nós nem nos conhecíamos pessoalmente. Admirávamos muito o trabalho uma da outra, mas nunca havíamos nos encontrado.
Lembro de pensar: “Só preciso lembrar de falar, e não ficar olhando para a Octavia o tempo todo”. (risos)
Só depois percebemos que as duas tinham dito “sim” na hora, sem nem conversar com suas equipes. Foi muito estranho, porque ambas tiveram exatamente a mesma reação: “Claro que vamos fazer isso. Depois resolvemos o resto”.
Pergunta – Debbie e Judith são personagens carismáticas e muito fortes. Na opinião de vocês, quais são as maiores qualidades delas e, ao mesmo tempo, suas principais fraquezas?
Octavia Spencer – No caso da Debbie, acho que sua capacidade de amar é, ao mesmo tempo, sua maior força e sua maior fraqueza. As pessoas mais importantes da vida dela são os dois filhos, a melhor amiga e o marido. Mas duas dessas relações não são exatamente o que ela acredita. Por isso, sua facilidade para amar e confiar acaba sendo também o que mais a torna vulnerável.
Hannah Waddingham – A força da Judith é algo que ela construiu ao longo da vida. Ela acredita que essa força está na forma como se tornou uma assassina, mas acaba descobrindo que ela vem de outro lugar, da maneira mais inesperada possível.
E a Debbie representa justamente isso para ela. É quem traz alegria e faz com que ela consiga desligar daquela vida. Essa dualidade existe nas duas personagens e é colocada à prova o tempo inteiro, conforme a história avança e surgem novas reviravoltas.
Pergunta – Vocês filmaram em Praga e em outras cidades lindas da Europa. Qual foi o lugar favorito de vocês e por quê?
Octavia Spencer – Gravamos em vários lugares de Praga, mas Karlovy Vary foi realmente especial. Eu já tinha filmado em Praga cerca de 14 anos antes, então foi maravilhoso voltar. É uma das cidades mais românticas em que já trabalhei, além de ter pessoas incríveis.
Hannah Waddingham – Já eu fiquei encantada com Ischgl, na Áustria. O lugar é lindo e foi uma grande surpresa. Gostei muito do clima do fim da tarde e da noite, do fondue de queijo e da tradição do après-ski. Confesso que aproveitei bastante essa parte. (risos) Na manhã seguinte, porém, havia muitos vestígios da animação da noite anterior pelas ruas, o que não era tão agradável. Felizmente, quando as pessoas começaram a ir para as pistas de esqui, já estava tudo limpo. Como não esquio, entendi perfeitamente por que tanta gente vai para lá só para curtir o après-ski. É uma experiência muito divertida.
Pergunta – Qual foi o momento mais engraçado que vocês viveram nos bastidores e do qual ainda dão risada?
Octavia Spencer – Nunca vou esquecer o dia dos testes de figurino. Entramos em uma van para experimentarmos as roupas e simplesmente começamos a conversar. Ficamos tão entretidas que esquecemos completamente de sair. Nós realmente não percebemos o tempo passar. Achei que alguém fosse bater na janela e dizer que já era hora de testar os outros figurinos, mas isso não aconteceu. Estávamos nos divertindo demais.
Hannah Waddingham – E ninguém teve coragem de nos interromper. (risos) Acho que pensaram: “São as protagonistas, também são produtoras executivas… melhor não falar nada”. Enquanto isso, nós duas estávamos na van só conversando e dando risada. Como a gente diz na Inglaterra, ficamos lá dentro apenas jogando conversa fora.
Pergunta – O que vocês acham que mudou na indústria para que atrizes com tanta experiência tenham hoje mais oportunidades de protagonizar projetos como este?
Octavia Spencer – Acho que a principal mudança é que as mulheres deixaram de aceitar que a sociedade defina o que determinada idade representa. Hoje, isso importa cada vez menos.
Também acredito que assumir o papel de produtora faz toda a diferença. É importante criar seus próprios projetos e gerar oportunidades. Esperar o telefone tocar nem sempre funciona. Mas, quando você é quem faz as ligações e coloca os projetos de pé, ele sempre toca.
Hannah Waddingham – Exatamente. E, além disso, nós duas fizemos questão de defender umas às outras e também toda a equipe. Queríamos garantir que as melhores pessoas estivessem trabalhando conosco e que todas se sentissem respeitadas. Foi muito gratificante participar da construção desse ambiente.
Outra coisa que gosto muito é a forma como a Tessa Coates aborda a questão da idade na série. Há uma cena em que a Judith é chamada de “WACA”, sigla para Woman of a Certain Age (“mulher de certa idade”). O roteiro brinca com o absurdo de essa expressão sequer existir. A cena faz o público rir, mas também perceber o quanto esse tipo de rótulo é estranho. Acho isso um exemplo de uma escrita muito inteligente.














