Todos os vídeos de divulgação de A Odisseia, novo trabalho do cineasta Christopher Nolan, ressaltam este fato: é o primeiro filme da história do cinema gravado inteiramente em IMAX 70mm.
Mas o que isso realmente significa, e como impacta na experiência do espectador?
Vamos destrinchar isso aqui, começando pelo básico: afinal, o que é o IMAX?
Breve história dos formatos de cinema
Por praticamente todo o século XX, a película, o filme fotográfico, foi o principal meio de gravação do material cinematográfico. Existem vários tamanhos, ou “bitolas”, de película cinematográfica, que foram usadas de modos diferentes ao longo da história do cinema.
O filme de “super 8”, de tamanho pequeno, era usado em câmeras portáteis e foi por muitos anos um formato caseiro. Apresenta forte granulação e foi o ponto de partida da carreira de muitos cineastas. O longa Super 8 (2011), de J. J. Abrams, mostra a filmagem de um filme de terror pelos garotos da história, com película de 8mm. É uma homenagem a essa era do cinema e aos filmes de Steven Spielberg, que também começou usando o formato em seus curtas na infância e juventude.
Acima dele, existe a bitola de 16mm, que apresenta maior definição. Por ainda ser um formato barato, tanto em custo quanto em revelação, foi usado em muitos filmes independentes ao longo da história, para criar um visual cru ou impactante, como no clássico do terror O Massacre da Serra Elétrica (1974). Porém, e você talvez não saiba disso, produções modernas continuam sendo feitas em 16mm por cineastas que querem a textura e o senso de abstração que o filme proporciona: é o caso de Guerra ao Terror (2009), Cisne Negro (2010), Carol (2015), Coração de Lutador (2025) e a série da HBO Euphoria, entre outros.
E o formato padrão da indústria, por muitas décadas, foi a película de 35mm: é o filme que passamos a vida assistindo, com imagem de definição perfeita, textura, riqueza de cores e que pode originar transferências para 4K, 6K, 8K, baseadas na qualidade da resolução da imagem. Pense no seu filme favorito da vida, ele provavelmente foi filmado em 35mm. E por muito tempo, o filme de 35mm também era projetado nas salas de cinema, antes do advento dos projetores digitais.
Mas existem ainda outros formatos, com bitolas maiores. O mais representativo é o de 65mm. Como o número indica, oferece quase o dobro do tamanho da imagem e da resolução do filme de 35mm, e foi usado em grandes épicos como Lawrence da Arábia (1962), 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), e alguns recentes como Duna: Parte 2 (2024). Essa imagem grandiosa possibilitou ao cinema competir com a televisão, que surgiu como grande ameaça à experiência cinematográfica e para concorrer, a sala escura precisava oferecer um espetáculo que as pessoas não podiam ver em casa.
O que nos traz ao IMAX.
IMAX: Filme e tela gigantes
O formato IMAX surgiu nos Estados Unidos e Canadá no começo dos anos 1970, criado por um grupo de desenvolvedores que queriam oferecer uma experiência imersiva para o espectador. Eles começaram a filmar e exibir documentários com imagens da natureza e do espaço. Entre os primeiros títulos, estavam North of Superior (1972) e To Fly (1976). Esses filmes não eram exibidos em cinemas comuns, mas em pavilhões de feiras e exposições capazes de comportar a tela gigantesca idealizada pelos criadores: na Expo’74 em Spokane, Washington, a tela de exibição tinha 20m de altura por 27m de largura, na época a maior do mundo. Hoje, uma sala IMAX padrão tem tamanho de 16m por 22m.
Qual o diferencial do IMAX, além da tela gigante? Basicamente, o filme IMAX tem bitola de 70mm, o dobro do padrão de 35mm, o que já garante uma imagem maior e mais definição. Além disso, o filme gigante passa horizontalmente pela câmera, ao invés de na vertical como ocorre numa câmera tradicional, e em velocidade mais rápida. Por causa desse processo, a resolução do filme IMAX é sem paralelo. Nitidez e qualidade, aliada ao tamanho da imagem e da tela, que ocupa literalmente todo o campo de visão do espectador, proporcionam a imersão. Segundo relatos, pessoas que viram os primeiros documentários em IMAX experimentavam vertigem de verdade diante das imagens aéreas. E claro, a resolução melhorou ainda mais com o aprimoramento das câmeras ao longo do tempo.
Christopher Nolan populariza o formato
Por décadas, ninguém usou o IMAX para quase nada além de filmar a natureza, e a indústria de cinema mudou de paradigma, da película para a captação digital. Então, entrou em cena o britânico Christopher Nolan, que permaneceu um entusiasta da película e resolveu usar o IMAX para gravar cenas do seu filme Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008).
Em entrevistas, Nolan disse que descobriu o formato numa exibição no Museum of Science and Industry em Chicago, e percebeu as possibilidades. Havia uns poréns: a câmera era um trambolhão, pesada e fazia um barulho imenso, portanto só podia ser usada mesmo para filmar as cenas de ação. Mas quando as pessoas assistiram ao filme, ficaram boquiabertas: cenas como a abertura no banco que apresentava o Coringa de Heath Ledger, o ataque ao comboio policial, a explosão do hospital e outros momentos mostraram que a aposta de usar o IMAX pela primeira vez num filme dramático valeu a pena.
Com o tempo, outros blockbusters usaram o formato, mas ninguém teve uma relação tão boa com o IMAX quanto Nolan, que voltou a se valer das imagens gigantes e superdefinidas em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), Interestelar (2014), Dunkirk (2017), Tenet (2020) e Oppenheimer (2023), sempre para cenas específicas e momentos impactantes. Todos também foram exibidos em cinemas IMAX, fazendo muito sucesso.
A Odisseia: Como Nolan quer que você veja
A Odisseia é um marco para Nolan e o IMAX porque, pela primeira vez, um filme inteiro foi realizado no formato. Os engenheiros da companhia desenvolveram uma forma para suprimir o barulho da câmera, além de outras inovações que permitiram uma maior liberdade a Nolan e seu diretor de fotografia, Hoyte Van Hoytema. Ainda é um trambolho, mas a câmera agora permitiu gravar momentos íntimos e a produção até criou um sistema para possibilitar maior proximidade aos atores, fazendo com que eles se vissem por meio de um sistema de espelhos. É um feito técnico realmente notável.
Mas e quanto à exibição? Bem, infelizmente serão poucos os espectadores que verão A Odisseia 100% do jeito como Nolan filmou. Isso se deve ao fato de que a imensa maioria dos cinemas hoje em dia tem projeção digital: segundo levantamento da Forbes, só 41 salas em todo o mundo projetam em IMAX 70mm. A imensa maioria do público vai ver mesmo em salas com imagem digital.
A propósito, no Brasil existem 12 salas IMAX no momento. No Sudeste, são cinco no estado de São Paulo, uma na capital carioca, e uma em Belo Horizonte (MG); no Sul tem duas, uma em Porto Alegre (RS) e outra em Curitiba (PR); e no Nordeste há três, em Salvador (BA), Fortaleza (CE) e Recife (PE). Apesar de poucas, há procura pelo formato: segundo o Filme B, só essas 12 salas representaram 1% de toda a renda de bilheteria no país no ano passado. O ingresso delas é mais caro, logicamente.
Todas as IMAX no Brasil são de projeção digital. Mesmo assim, ainda são a melhor opção para ver o filme, pois não haverá perda no tamanho da imagem.
E numa sala convencional? Bem, não será 100% a visão do diretor, mas é claro que os cineastas – e também os sistemas de projeção – são inteligentes, e tanto os enquadramentos do filme quanto a mixagem de som foram pensados e adaptados para a exibição convencional. Obviamente, eles sabem que esta será a forma pela qual a imensa maioria dos espectadores verá a obra. Há perda no tamanho da imagem, mas o espectador ainda presencia cores riquíssimas, visuais impactantes e nitidez absoluta.
E no fim de tudo, o que pode ser dito? Ora, não se preocupe, leitor. Toda essa discussão serve ao menos para educar mais o público, trazendo à tona uma conversa que parecia perdida nessa nossa era de streamings e na qual a sala escura busca se reconectar com o espectador. É uma conversa importante para quem ama o cinema e quer que ele permaneça vivo e relevante, e uma pluralidade de formatos vai ajudar nisso.
Mesmo em um cinema convencional, A Odisseia ainda está super nítido e impressionante, e no fim das contas o que vale é assistir, do melhor jeito que você puder.

















