A influência no cinema de artes marciais de “Operação Invasão”, um balé de concreto e tripas fascinado pela própria feiura, não pode ser subestimada. O alegre sadismo de suas incríveis coreografias, solapadas por um tom grave e cinzento, não poderia ser descrito, exatamente, como “realista” — há mais ossos quebrados ali do que o corpo humano pode comportar. Melhor seria dizer “miserabilista”.
“The Furious”, quinze anos depois, traz uma certa afinidade espiritual com aquela obra. Há, por exemplo, dois egressos de “Operação Invasão” aqui: Joe Taslim, antes, um sargento linha-dura, agora, um jornalista que, pasmem, distribui socos como ninguém; e o carismático Yayan Ruhian, um capanga sinistro naquele filme indonésio, e um capanga sinistro aqui.
O ponto de partida é tão miserável quanto a favela vertical daquele longa: um faz-tudo mudo (Xiao Mei) e sua filha vivem em um lugar não particularmente convidativo, e generosamente não identificado, no sudeste asiático. Um dia, a menina é sequestrada por uma rede de tráfico humano. O que seria uma pena, se seu pacato genitor não fosse também um mestre do kung fu. E daí por diante.
Na verdade, essa inespecificidade geográfica é estratégica: “The Furious” é algo como uma miscelânea asiática de talentos das artes marciais. O diretor Kenji Tanigaki, japonês, é um ex-coreógrafo, ex-colaborador de Donnie Yen. O astro do filme, Xie Miao, chinês, traz no currículo um longa com Jet Li, “Dragon Kid”, de quando era ator mirim. Há ainda Brian Le, vietnamita-estadunidense, um brucutu dos bons. Fora as estrelas indonésias.
Só é uma pena que essa integração pan-asiática tenha como preço os diálogos em inglês. Alguns atores não só estão sendo dublados toscamente, como parecem contar com retoques de IA no movimento de suas bocas. Fazer o quê: necessidade mercadológica em tempos de globalização, em que as proezas asiáticas são consumidas orgasmicamente por nerds do cinema de gênero no Ocidente.
Os mesmos nerds, por sinal, que consagraram “Operação Invasão” há quase duas décadas. Felizmente, se “The Furious” herda a brutalidade daquele filme, é também safo o bastante para tomar o próprio rumo. Afinal de contas, em tempos pós-“John Wick”, não pega bem, por exemplo, a paleta monocromática de 2011 — e “The Furious” tem uma cara solar, com toques de neon, em contraste com a premissa sombria.
Aliás, o filme sustenta um bem-vindo clima cartunesco ao longo da projeção. Com um sorriso faceiro, ele extrai até a última gota de suspense de cada situação, escalonando absurdamente o que já seria intenso por si só. Assim, não basta ter Miao correndo atrás da carreta dos sequestradores da sua filha; não, o vilão precisa ainda segurar a menina pelos calcanhares e arrastar seus cabelos pelo asfalto em alta velocidade. Ah, e Miao precisa usar sandálias.
Quando chega a hora de partir para as vias de fato, o coreógrafo Kensuke Sonomura transforma os lutadores em incríveis bonecas-de-pano. Seus atores e dublês saltam uns contra os outros como rãs voadoras, engalfinham-se no ar como mísseis balísticos e amontoam-se no chão como sacos de batatas. Um sonho molhado para os fãs do gênero.
O que também não impede que, aqui e ali, o frenesi se torne anestesiante. O filme, sedento pela aprovação da plateia, se esforça ao ponto da gastura. Eu, por exemplo, adoro comer, mas há um limite do quanto aguento botar para dentro antes de passar mal num banquete.
Mesmo que os pratos sejam feitos por mestres-cucas infalíveis.














