A Morte de Robin Hood parte de uma proposta promissora: abandonar a imagem do lendário fora da lei como um herói quase intocável para acompanhar um homem marcado pela violência, pelo desgaste e pelas consequências de suas próprias escolhas. Em vez de contar novamente a história que o público já conhece, o filme dirigido por Michael Sarnoski (Pig e Um Lugar Silencioso: Dia Um) tenta olhar para o que poderia existir depois do mito. A ideia é interessante, mas o resultado encontra dificuldades justamente no caminho entre essa desconstrução e a construção de um personagem capaz de sustentar o filme.
O longa estabelece uma mudança bastante evidente de ritmo. Seu início é agressivo, violento e fisicamente desconfortável, criando a expectativa de uma narrativa marcada pela brutalidade. Depois desse primeiro movimento, porém, A Morte de Robin Hood reduz consideravelmente sua velocidade e passa a privilegiar silêncios, paisagens, olhares e momentos de introspecção. Essa transformação não é necessariamente um problema, pelo contrário, combina com a tentativa de apresentar um Robin Hood envelhecido, cansado e distante da figura heroica tradicional. O problema está na dificuldade de fazer essa contemplação produzir tensão dramática.
A fotografia acompanha essa mudança de maneira particularmente eficiente. As imagens inicialmente exploram espaços abertos, com personagens pequenos diante de uma paisagem que parece reforçar a dimensão lendária de Robin Hood. Aos poucos, o filme abandona essa amplitude e passa a trabalhar com ambientes mais fechados, escuros. É como se o mundo do personagem fosse diminuindo junto com suas possibilidades. A escolha visual ajuda a transmitir isolamento e decadência e talvez seja uma das maneiras mais bem-sucedidas encontradas pelo longa de comunicar aquilo que o roteiro não consegue verbalizar.
Nesse contexto, Hugh Jackman assume uma tarefa difícil. Seu Robin Hood não é um herói carismático tradicional, mas sim alguém tomado pelo arrependimento e pela exaustão. O australiano consegue transmitir esse peso com o corpo e com a expressão, fazendo com que o personagem pareça carregar fisicamente a própria história. Há ecos de personagens que o ator já interpretou, especialmente na maneira como trabalha figuras violentas ou quebradas, mas sua presença continua sendo suficientemente forte para impedir que Robin se torne completamente indiferente ao espectador.
Jodie Comer, por outro lado, trabalha em um registro muito mais contido. Sua personagem funciona como uma espécie de contraponto emocional ao protagonista, sem disputar com ele a centralidade da narrativa. A atuação dela depende muito mais de pequenos gestos e silêncios do que de grandes momentos dramáticos, e justamente por isso contribui para a atmosfera intimista que A Morte de Robin Hood procura construir.
Ainda assim, existe uma contradição importante na própria proposta de desconstrução. Para transformar Robin Hood em uma figura mais humana, o filme precisa desmontar a imagem do herói. Mas, ao fazê-lo, acaba retirando alguns dos elementos que tornavam esse universo reconhecível. A ausência de personagens tradicionais associados à lenda, como Lady Marian e os companheiros de Robin, torna a narrativa mais independente, mas também faz com que ela perca parte de sua identidade. Em determinados momentos, fica a sensação de que estamos acompanhando um drama histórico sobre um homem violento e arrependido que poderia carregar qualquer outro nome.
Esta questão também afeta o arco dramático. O filme apresenta Robin já bastante consciente de seus próprios erros, o que diminui o impacto de uma possível transformação. Existe pouco espaço para descobrir quem ele foi antes de julgá-lo por aquilo que fez. O arrependimento, portanto, é apresentado mais como um estado permanente do personagem do que como algo que se desenvolve diante do espectador. Isso torna mais difícil criar uma conexão emocional genuína com sua trajetória.
É aí que o roteiro se torna o principal empecilho para o desempenho de Jackman. O ator oferece intensidade a um personagem que, muitas vezes, permanece pouco definido pelas próprias escolhas narrativas. A atuação sugere uma profundidade que o texto nem sempre consegue alcançar. O silêncio pode ser poderoso quando existe algo por trás dele, quando não há conflito suficientemente desenvolvido, entretanto, ele corre o risco de se transformar apenas em duração.
Essa é provavelmente a parte mais frágil de A Morte de Robin Hood. A contemplação não é, por si só, sinônimo de falta de ritmo. Filmes lentos podem ser extremamente envolventes quando cada pausa acrescenta alguma coisa ao personagem ou à narrativa. Aqui, porém, algumas dessas pausas parecem prolongar uma história que já revelou suas principais intenções. Depois da força do início, o longa demora para encontrar uma nova fonte de tensão, e o espectador pode acabar observando os personagens mais do que efetivamente participando de seus conflitos.
Apesar disso, seria injusto reduzir o filme a um exercício fracassado de desconstrução. Existe uma ambição clara em sua tentativa de questionar a própria ideia de heroísmo e mostrar o que sobra de uma lenda quando a violência deixa de ser romantizada. A direção também demonstra confiança ao não transformar essa proposta em uma aventura convencional. O problema é que a obra parece mais interessada em desconstruir Robin Hood do que em reconstruí-lo como personagem.
No fim, A Morte de Robin Hood é um filme visualmente cuidadoso, sustentado por boas atuações e por uma proposta muito mais interessante do que seu resultado final. Hugh Jackman encontra humanidade em um protagonista difícil de acessar, enquanto Jodie Comer oferece equilíbrio à narrativa. A fotografia traduz com precisão a passagem de um mundo amplo e quase mítico para um espaço cada vez mais íntimo e claustrofóbico. Mas a força dessas escolhas não é suficiente para compensar um roteiro que deixa lacunas justamente onde deveria existir maior envolvimento emocional.
Talvez o problema esteja na própria distância entre Robin Hood e A Morte de Robin Hood. Ao retirar quase tudo aquilo que associamos ao mito, o filme consegue criar uma versão mais sombria e desencantada do personagem, mas também corre o risco de descobrir que, sem a lenda, resta pouco para sustentar a narrativa. É uma experiência interessante pela proposta e pela execução visual, mas irregular na capacidade de transformar essa proposta em uma história realmente envolvente.














