A despedida de Laura Cardoso, que morreu aos 98 anos na noite de segunda-feira (17), também convida a olhar para uma parte de sua carreira que muitas vezes fica em segundo plano diante da dimensão de seu trabalho na televisão: o cinema. Ao longo de mais de oito décadas de trajetória artística, a atriz construiu uma filmografia que atravessa diferentes períodos do cinema brasileiro, do início dos anos 1960 ao curta Dona Rosinha, lançado em 2025.
Nascida em São Paulo, em 1927, Laura começou profissionalmente no rádio aos 16 anos e estreou na televisão em 1952, na TV Tupi. A partir daí, tornou-se uma das figuras fundamentais da dramaturgia brasileira, com trabalhos no teatro, na televisão e no cinema. Sua filmografia cinematográfica reúne mais de 30 produções, entre longas e curtas, e inclui obras fundamentais de diferentes gerações de realizadores.
Mais do que uma sequência de participações, os filmes mostram uma atriz capaz de encontrar força mesmo em personagens que apareciam por poucos minutos. Em alguns casos, como Através da Janela e O Outro Lado da Rua, Laura esteve no centro das atenções e foi reconhecida com alguns dos principais prêmios do cinema brasileiro.
A história de Laura Cardoso no cinema brasileiro merece ser lembrada para além de seus trabalhos na televisão. Ao longo de mais de seis décadas, a atriz esteve em filmes de diferentes épocas, gêneros e propostas, trabalhando com nomes como Walter Salles, Daniela Thomas, Tata Amaral, Luiz Villaça, Carla Camurati e Hugo Carvana.
Sua filmografia também revela uma característica marcante: Laura nunca ficou restrita a um único tipo de personagem. Ela passou pelo drama, pela comédia, pelo cinema histórico e por produções de grande alcance popular, muitas vezes transformando participações secundárias em momentos memoráveis.
Com a morte da atriz, aos 98 anos, em 17 de agosto de 2026, o Cine Set revisita alguns dos trabalhos destacados nesta seleção de cards — incluindo seu último filme, Dona Rosinha, lançado em 2025.
Dona Rosinha (2025)
O último trabalho de Laura Cardoso no cinema ganhou um significado especial depois de sua morte. No curta dirigido por Kk Araújo, a atriz interpreta uma idosa abandonada pela filha que encontra acolhimento em uma nova relação de afeto.
Laura participou do lançamento do filme em fevereiro de 2025, aos 97 anos. Mesmo já com dificuldades de locomoção, esteve presente para falar sobre o trabalho e demonstrar a mesma disposição que marcou sua carreira.
É um encerramento involuntário, mas bastante simbólico, para uma trajetória cinematográfica tão longa: Laura permaneceu diante das câmeras praticamente até o fim.
De Onde Eu Te Vejo (2014)
No filme de Luiz Villaça, Laura interpreta Yolanda, personagem inserida na história de um casal que tenta reorganizar a vida depois da separação.
O longa combina relações familiares, memória e afetos cotidianos, características que permitem à atriz trabalhar com um registro mais delicado. O papel também faz parte da fase madura de sua carreira cinematográfica, quando Laura já era reconhecida como uma das grandes intérpretes brasileiras.
O filme lhe rendeu o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de Melhor Atriz Coadjuvante, ampliando uma coleção de reconhecimentos que já incluía Copacabana e O Outro Lado da Rua.
As comédias: Fica Comigo Esta Noite, Muito Gelo e Dois Dedos d’Água, Casa da Mãe Joana e Muita Calma Nessa Hora 2
Uma parte importante da filmografia de Laura está justamente em filmes que exploram seu talento para a comédia.
Em Fica Comigo Esta Noite (2006), dirigido por João Falcão, ela interpreta Dona Mariana em uma história que mistura romance, humor e elementos sobrenaturais.
No mesmo ano, aparece em Muito Gelo e Dois Dedos d’Água, de Daniel Filho. Aqui, Laura vive a avó de duas irmãs que decidem sequestrá-la e levá-la para uma casa de praia. A situação absurda permite que a atriz explore um registro bastante diferente de seus trabalhos dramáticos.
Já Casa da Mãe Joana (2008), de Hugo Carvana, coloca Laura em uma comédia protagonizada por José Wilker, Paulo Betti, Pedro Cardoso e Antônio Pedro. O filme acompanha quatro amigos que vivem juntos e levam uma existência marcada pela boemia.
Em Muita Calma Nessa Hora 2 (2014), Laura participa da continuação da comédia dirigida por Felipe Joffily. A trama reencontra as quatro amigas do primeiro filme, agora em uma nova etapa de suas vidas.
Esse conjunto de trabalhos ajuda a lembrar que a relação de Laura com o cinema popular também foi fundamental para sua carreira. Ela não precisava estar no centro da narrativa para estabelecer uma presença reconhecível.
O Outro Lado da Rua (2004)
Se há um filme capaz de demonstrar a força de Laura mesmo quando cercada por grandes nomes, é O Outro Lado da Rua.
Dirigido por Marcos Bernstein, o longa tem Fernanda Montenegro e Raul Cortez como protagonistas. Laura interpreta Catarina/Patolina, personagem que integra a rede de relações construída em torno da história.
A produção foi reconhecida internacionalmente e Laura recebeu o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de Melhor Atriz Coadjuvante pelo trabalho.
O reconhecimento não é apenas uma curiosidade da premiação. É também um exemplo de como a atriz conseguia criar personagens completos mesmo quando o tempo de tela era menor.
Copacabana (2001)
Na produção dirigida por Carla Camurati, Laura divide a cena com nomes como Marco Nanini em uma história ambientada no tradicional bairro carioca.
O filme combina humor, memória e relações pessoais para construir um retrato afetivo de Copacabana. Laura encontrou ali mais uma oportunidade de trabalhar com personagens populares e cotidianos.
O desempenho lhe rendeu seu primeiro Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de Melhor Atriz Coadjuvante. Foi o início de uma sequência de três vitórias da atriz na categoria.
Através da Janela (2000)
É impossível falar da presença de Laura Cardoso no cinema sem destacar Através da Janela, de Tata Amaral.
No filme, ela interpreta uma mulher que vive uma relação intensa com o filho e acompanha, a partir de sua janela, acontecimentos que alteram sua percepção sobre o mundo ao redor.
Aqui, Laura não é apenas uma presença importante no elenco: ela assume o centro da narrativa. O papel revelou uma atriz capaz de sustentar um drama psicológico complexo em uma fase da vida em que muitas intérpretes ainda enfrentavam dificuldades para encontrar protagonistas no cinema.
O trabalho foi amplamente premiado e tornou-se um dos momentos mais importantes da carreira cinematográfica de Laura.
Terra Estrangeira (1995)
O cinema da chamada Retomada brasileira também contou com a presença de Laura Cardoso.
Em Terra Estrangeira, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, ela interpreta Manuela, mãe de Paco, personagem vivido por Fernando Alves Pinto.
A trama parte de uma das grandes feridas econômicas do início dos anos 1990: o confisco das poupanças durante o governo Fernando Collor. Após a morte da mãe, Paco decide partir para Portugal, iniciando uma trajetória marcada pelo deslocamento e pela sensação de não pertencimento.
Walter Salles recordou Laura após sua morte e destacou justamente a capacidade da atriz de conferir profundidade e humanidade ao personagem. Para o diretor, sua presença ajudou a dar ao filme uma dimensão emocional que ultrapassava sua participação em cena.
Terra Estrangeira permanece como um dos filmes fundamentais da retomada do cinema brasileiro dos anos 1990.
Tiradentes, o Mártir da Independência (1977)
Laura também esteve em produções históricas que ajudaram a construir diferentes representações do passado brasileiro.
Em Tiradentes, o Mártir da Independência, dirigido por Geraldo Vietri, ela interpreta a Vice-Rainha em uma narrativa centrada na Inconfidência Mineira.
O filme faz parte de uma etapa anterior de sua carreira cinematográfica e mostra como a atriz transitava por diferentes gêneros muito antes de alcançar alguns de seus trabalhos mais celebrados na fase madura.
É também um lembrete de que sua relação com o cinema começou décadas antes de Através da Janela, O Outro Lado da Rua e Terra Estrangeira.



















