Ousado e provocativo, Joãozinho da Goméia foi uma das lideranças mais populares do candomblé no Brasil durante os anos de 1940 a 1960.  Apesar da rejeição da parte mais conservadora da sociedade e de alas mais tradicionais da religião africana, o babalorixá negro e homossexual, prestigiado por presidentes como Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas e a Rainha Elizabeth, nunca deixou de ser quem era e, sem temor de retaliações, tinha verdadeiro amor ao carnaval (chegou a se fantasiar de mulher para desfilar em 1956) e indumentárias de extrema beleza.

Selecionado para a mostra competitiva do Festival de Gramado 2020 entre os curtas-metragens nacionais, o documentário “Joãozinho da Goméia – O Rei do Candomblé”, dirigido por Janaina Oliveira ReFem e Rodrigo Dutra, mostra a mesma ousadia e provocação do seu personagem principal, aqui, presente como narrador da própria história em um resgate histórico de uma pesquisa brilhante feita por Uilton Dutra, Tais Noronha junto com os dois cineastas. Longe da tradicional linha de filme biográfico – já vista, inclusive, no evento gaúcho deste ano com “O Samba é Primo do Jazz” – a produção utiliza a trajetória do babalorixá para fazer paralelos pertinentes entre aquele Brasil e o desta era distópica através do corpo preto, do constante reacionarismo hipócrita e da necessidade de resistência para seguir existindo.

A construção visual do documentário é um show à parte, pois, coloca grande parte da força nas performances de Átila Bezerra. Da sequência inicial no antigo local onde Joãozinho da Goméa tinha seu terreiro como ao desfilar por uma feira no Rio de Janeiro ao lado de feirantes e compradores, a existência daquele corpo ali, destacado em planos detalhes, é fundamental não apenas para ajudar o espectador em uma identificação mais imediata do personagem, mas, também por continuar sendo um ato transgressor uma pessoa preta ocupar espaços, sendo o que ela é e o que quer ser. Isso se completa com a riqueza do material de acervo com as indumentárias utilizadas por Joãozinho, gerando momentos belíssimos. 

Paralelo a isso, “Joãozinho da Goméia – O Rei do Candomblé” deixa claro como os discursos conservadores de 60, 70 anos atrás repetem-se à exaustão para tentar calar a cultura e religião afro no Brasil e, consequentemente, os pretos e pretas. O editorial de uma rádio da época se opondo ao babalorixá com frases de efeito, levantando um falso alerta sobre os riscos da degradação da família, dos lares, da moral e, claro, da Pátria soam tão familiares aos feitos por pastores neopentecostais donos de extensos horários na televisão e no discurso do governo federal através da ministra Damares Alves, da pasta da Mulher, Família (sempre ela) e Direitos Humanos.

No fim das contas, Janaina Oliveira ReFem e Rodrigo Dutra fazem de “Joãozinho da Goméia – O Rei do Candomblé” um projeto tão rico que tornam os 14 minutos de duração do documentário muito pouco para o tanto que tinham à disposição. Quem sabe um longa não seja o próximo passo?

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