Entender como funciona o nosso subconsciente parece ser um daqueles mistérios que nunca acabará, nem mesmo se um dia forem criadas máquinas que leiam o pensamento humano. A arte, de forma geral, tenta ofertar soluções que sanem a nossa curiosidade. No cinema, por exemplo, algumas produções recentes como “The Discovery”, “Rememory” (filme de Mark Palansky estrelado por Peter Dinklage) e “Corra!” buscam explorar facetas diferentes da mente humana. Emmanuel Osei-Kuffour bebe delas em “Black Box”, primeira parceria entre a Amazon e a Blumhouse.

O diretor cria uma trama carregada de mistérios em um terror psicológico que se prende a memórias e perdas. Acompanhamos Nolan (Mamoudou Athie), um homem que saiu do coma recentemente, após sofrer um acidente de carro que tirou a vida de sua esposa. Ele tem alguns lapsos em sua memória e conta com a ajuda da filha (Amanda Christine) para lidar com questões comuns do dia-a-dia.

Partindo dessa premissa, Osei-Kuffour procura abraçar o lado tecnológico da busca por lembranças, o que suscita questões muito maiores como a ética médica e limites passionais. Tais discussões alçam “Black Box” a uma ficção cientifica aproximada dos romances de Bradbury e ao que vemos em “Black Mirror”, até mesmo algumas cenas remetem ao já visto na série da Netflix.

O roteiro de Stephen Herman, Wade Allain-Marcus e o próprio Emmanuel Osei-Kufforur ambienta a produção como se estivéssemos constantemente na confusa mente de Nolan e é preciso estar atento ao que acontece para não se perder na trama. Em determinado momento, a realidade se funde ao inconsciente do protagonista e apenas elementos corriqueiros colocados na fotografia de Hilda Mercado nos fazem perceber até que ponto estamos diante de Nolan ou de sua mente.

SCI-FI E TERROR LADO A LADO

A diretora de fotografia nos coloca constantemente em um ambiente escuro e claustrofóbico, sutilmente é a tonalidade do design de produção que nos leva a ter noção de onde estamos. Enquanto está com a filha, por exemplo, as peças que envolvem o protagonista são verdes e um pouco alaranjadas. Já quando entramos em sua mente, o verde dá lugar ao azul e o laranja, ao amarelo. Isso é importante para nos nortearmos a grande virada de “Black Box”.

De certa forma, tanto os roteiristas quanto o diretor são ousados em colocar o plot twist no meio do filme. Por meio da hipnose e suas implicações, o roteiro é arquitetado para que esse momento consiga por tudo em seu lugar e nos fazer vislumbrar realmente a confusão que se estabeleceu na mente de Nolan após o acidente. E, apesar disso decorrer faltando meia hora para o seu término, a trama procura manter a tensão e os desdobramentos até os créditos finais subirem.

Um dos pontos mais interessantes é que isso também leva a conexão entre todos os personagens e o porquê de suas ações. Desde a menina que tem um zelo forte pelo pai a médica que parece querer ajudar pela simples visão sacra da medicina. Tudo está conectado e o elenco é maduro para ofertar essas nuances quando desconhecemos o que se passa e depois que todos os mistérios são revelados. No entanto, apesar de toda essa construção, “Black Box” passa a sensação de que seria melhor aproveitado se fosse o episódio de uma série.

Diante disso, é perceptível o quanto Osei-Kuffour tem a crescer e seu potencial tanto para a ficção cientifica quanto o terror psicológico. É um bom começo para a parceria da Blumhouse com o Prime Vídeo, resta saber o que nos reserva os próximos capítulos e que outros segredos o subconsciente tem a revelar.

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