Rosamund Pike é uma atriz interessante. Ela tem o talento, a competência como intérprete e a beleza, o pacote completo para virar mega-estrela. A inglesa fez papel de mocinha, esteve até em alguns filmes de ação, mas nunca chegou a dar aquele grande salto para o estrelato. Ela entregou atuações boas, outras nem tanto, durante a carreira. David Fincher, que a dirigiu no suspense Garota Exemplar (2014), disse que a escalou para o cobiçado papel de Amy Dunne porque “a tinha visto em 4 ou 5 filmes ao longo dos anos, mas nunca consegui captar nada sobre ela. Havia uma característica opaca nela, que era muito interessante”. Fincher é um cara inteligente.

Garota Exemplar deu um impulso estratosférico para Pike e lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Parecia que ela iria virar estrela, afinal. Porém, desde então a coitada meio que despareceu no redemoinho, participando de filmes que não fizeram muito por sua carreira. Era estranho ver aquela atriz, tão interessante naquele filme, interpretando figuras da vida real em cinebiografias pouco inspiradas, ou tentando injetar humanidade em papéis para os quais ela não parecia a melhor opção. Fincher tinha apontado o caminho: O ideal para Pike é a personagem inumana, gelada, distante do mundo, de preferência sociopata. É por isso que, de novo, ela funciona tão bem em Eu Me Importo, produção da Netflix dirigida por J Blakeson que mistura comédia de sarcasmo, drama, suspense e filme de gângster. É um filme curioso, cínico e por quase toda a sua duração, bem divertido e envolvente. E acima de tudo, é o retorno da atriz que impressionou o mundo quando fez a Amy Exemplar.

Em Eu Me Importo, Rosamund Pike interpreta Marla Grayson, uma advogada com um esquema interessante e completamente antiético, para não dizer tenebroso. Ela escolhe pessoas idosas, arranja um médico para preparar um laudo, e emite uma liminar dizendo que tal pessoa é incapaz de cuidar de si ou que está sofrendo de alguma enfermidade grave. Então ela se torna guardiã dessa pessoa e a interna em alguma instituição, passando assim a receber uma boa grana para cuidar dela. Blakeson, também autor do roteiro, disse que se inspirou em alguns casos reais para criar a personagem, e visto como os Estados Unidos é o país do legalismo, tal figura parece assustadoramente verossímil. Mas os EUA é também o país do crime organizado, e a vida de Marla se complica quando ela interna a senhora Jennifer Peterson (Dianne Wiest). Essa idosa tem ligações com criminosos, incluindo o misterioso Roman, vivido por Peter Dinklage, e logo a advogada fria como gelo começa a enfrentar problemas e a ter a vida ameaçada.

CINISMO SEDUTOR

Contar mais do que isso pode estragar algumas viradas interessantes para o espectador, mas é suficiente dizer que o roteiro de Eu Me Importo é hábil em construir situações interessantes e ao manejar a mistura de gêneros que a trama propõe. Numa hora estamos rindo nervosos; na outra, escandalizados pelos atos da protagonista; e depois testemunhamos elementos de filmes de gangsteres aparecendo e dominando a narrativa. O filme tem um bom ritmo e tem sempre alguma coisa interessante acontecendo. Visualmente, o diretor de fotografia Doug Emmett filma tudo como um comercial de margarina, bem iluminado e com cores fortes, ressaltando a trama sórdida acontecendo no mundo aparentemente perfeito da sociedade norte-americana. A trilha sonora eletrônica de Marc Canham adiciona à tensão, ao absurdo e à diversão da história.

Blakeson também trabalha bem com seus atores, extraindo atuações interessantes de nomes como a veterana Wiest, Dinklage, Eiza González como a namorada/cúmplice de Marla e Chris Messina como um advogado seboso. Os personagens são bem delineados e trazidos à vida de maneira cativante. Mas Pike é a dona do show. A atriz de novo se esbalda com uma personagem manipuladora e cínica, e que fica ainda pior ao percebermos como ela se esconde atrás da própria feminilidade – mais de uma vez no filme, ela saca do baralho a carta do sexo, a conversa de que está sendo perseguida por ser mulher e triunfar num mundo machista. Ela é um belo monstro, que nos atrai e repele: Muitas vezes no filme queremos que ela se dê mal, em outros momentos até torcemos por ela. Da aparência dela até as expressões faciais e ao comportamento, tudo em Marla é preciso e poderoso: Pike realmente merece elogios pela personagem e pela forma como a trouxe à tela.

A visão cínica e precisa do início do filme é tão sedutora que é uma pena que o filme comece a dar umas derrapadas perto do final. O roteiro de Blakeson é bom, mas tem um grande porém: os vilões são bobos, quase cartunescos, e quando o filme entra no terceiro ato, a trama segue umas direções questionáveis por causa da burrice dos mafiosos. Esse trecho final não chega a estragar o filme, mas o diminui: a história sofre pelo fato de Marla não ter oponentes mais à altura. Mas o longa meio que se redime perto do fim, com uma decisão inesperada que retoma a sua veia cínica, para logo depois emendar uma conclusão que parece uma concessão moralista.

Divertido e assustador, mas com uns inegáveis altos e baixos, Eu Me Importo vale a pena ser visto, principalmente pela sua atriz principal retornando ao seu estado de graça. Essa é a atriz que vale a pena ver: Não estou dizendo que ela deveria só fazer vilãs ou personagens venenosas, mas Rosamund Pike não é tão interessante fazendo biografias ou desaparecendo no cenário. A Rosamund Pike boa é a Rosamund Pike má. E no caso dela, quanto pior, melhor.

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