Em um espaço de 15 dias, a carismática Dakota Johnson estrelou duas comédias românticas sobre relacionamentos amorosos nos cinemas, com títulos quase idênticos.
Se Amores Materialistas era aquele que se tinha altas expectativas por ser o segundo filme da diretora Celine Song (do belíssimo Vidas Passadas) e ser composto por um elenco hollywoodiano formado pela atriz, Pedro Pascal e Chris Evans vivendo um triângulo amoroso, Amores à Parte de Michael Angelo Covino é o primo pobre, que passou de maneira quase despercebida pelo circuito cinematográfico até mesmo pelos fãs das comédias românticas se não fosse pela presença da própria Dakota.
E se o primo rico meio que decepcionou pela sua falta de ousadia em analisar as questões românticas, a comédia indie de Covino, mesmo distinta na proposta em relação a de Song, consegue ser divertida e deliciosamente caótica na sua discussão sobre relacionamentos, rendendo boas reflexões na esfera afetiva.
O trabalho marca mais uma parceria entre o diretor e o ator Kyle Marvin, dois nomes oriundos do cinema indie americano e que tinham feitos juntos A Subida (2019). Aqui, na nova parceria, ambos devem ganham bastante relevância já que além de atuaram em papéis centrais, eles também escrevem a obra.
Marvin é Carey, um romântico inveterado que logo no começo da história leva um fora da esposa Ashley vivida pela revelação do momento Adria Arjona (a femme fatale de Assassino por Acaso). Enquanto lida com a revelação dolorosa que a sua mulher o traiu e tem o anseio por experimentar novos parceiros, ele se envolve com Julie (Dakota), esposa do seu melhor amigo Paul (o diretor Covino), casal que mantém uma relação aberta sexual para terem outros parceiros. Acaba que o quarteto vai se envolver em idas e vindas românticas que irá mexer com a dinâmica de cada um.
O caos delicioso impregnado na comédia de erros
Com uma narrativa estruturada em capítulos, Amores à Parte tem um gosto caprichado pela comédia de erros. Consegue criar uma bagunça amorosa que se apoia em gerar risadas a partir de situações surreais que resgatam o espírito das comédias politicamente incorretas da década de 70 e 80. O maior acerto do roteiro da dupla Covin e Marvin é trazer esse humor extremamente afiado para discutir a temática dos relacionamentos abertos tão em voga na nossa sociedade contemporânea.
Neste contexto há cenas bizarras que arrancam gargalhadas, como a dos peixes na montanha russa e a briga entre Carey e Paul na casa de veraneio, filmada de uma maneira longa e teatral, que produz um tipo de humor pastelão que remete alguns conceitos físicos visuais físicos das comédias de O Gordo e o Magro e dos Três Patetas.
É curioso o quanto Covino valoriza essa teatralidade em cenas pontuais, com direito a muitos planos gerais em espaços grandes que privilegiam os corpos e feições de seus personagens. Nota-se o quanto ele filma pensando na tela grande de cinema e o melhor exemplo disso é a passagem de tempo – apoiado por um belo trabalho de montagem – que mostra os vários parceiros de Ashley em frações de segundo enquanto a câmera passeia pela casa, revelando toda a elegância e inteligência humorística por parte do diretor em fazer essa fantasia flutuar dentro da história.
O relacionamento aberto e a dependência emocional
Essa qualidade também é sentida no aspecto textual em estabelecer as personalidades contraditórias dos amigos como as do próprio casal entre si, valorizando os sentimentos, a dor e os conflitos que Carey e Paul sentem em ter que aceitarem a liberdade sexual que suas parceiras possuem na escolha de novos parceiros.
Em relação a isso o filme é bem certeiro em demonstrar no humor esquisito e ao mesmo tempo terno por meio de diálogos humanos, o quanto somos dependentes emocionalmente dos nossos parceiros e dificuldade de lidarmos com nossos próprios valores pessoais mesmo dentro de um relacionamento aberto, principalmente quando temos que lidar com sentimentos repletos de contradições por si só. Em outras palavras, queremos ser liberais, mas não conseguimos fugir das arestas moralistas da relação monogâmica.
O grande pecado do longa são os últimos capítulos que são menos interessantes do que os dois terços iniciais, talvez por se focarem mais no drama do casal deixando de lado a comédia anárquica.
Amores à Parte acaba sendo um filme com muita mais personalidade do que o primo rico, ainda mais em desconstruir o ideal de amor romântico. E muito dessa qualidade é proporcionada pelo ótimo elenco e pelo timing em que os atores interagem entre si. No geral, o texto afiado faz uma combinação visual certeira com a comédia escrachada que Covino e Marvin desejam e demonstram através do prazer honesto em encená-la, algo bastante difícil de encontrar atualmente no mundo das comédias românticas.














