Se a política pública de regionalização do audiovisual brasileiro adotada na última década tinha como um dos objetivos dar voz a artistas locais apresentarem realidades de locais pouco vistos na TV e cinema, “Boto” consegue ser um representante certeiro deste processo produzido aqui no Amazonas. Com os três primeiros episódios exibidos na última sexta-feira (22) na TV Ufam, a série pode até não conseguir dar uma unidade satisfatória a todas as suas temáticas e personagens, mas, deixa claro o foco principal em sua protagonista: a enigmática e colorida Manaus. 

“Boto” acompanha um grupo artístico da capital amazonense, o Coletivo Boto. Formado por jovens artistas na faixa dos 20 a 25 anos, a companhia está no meio das gravações de um longa com orçamento de curta intitulado – adivinha? – ‘Boto’. Morando todos em uma casa, eles conseguem uma grana ao fechar parceria com a dona do Maracutaias Bar, graças ao sucesso dos shows de Valdomiro/Val dos Prazeres (Lucas Wickhaus). No meio disso, temos a chegada de Lara (Daniel Blois), uma garota realizando um mochilão pela América Latina. 

O primeiro episódio, intitulado “Cais” guarda certas semelhanças com o piloto de “Mad Men”: ambos fornecem as bases do que veremos adiante, mas não chegam a apresentar uma história clara que permita ao espectador já decifrar o que vem pela frente. Importa, acima de tudo, a ambientação. Se com Don Draper era o inebriante ‘american way of life’ dos anos 1960, aqui, temos a Manaus dos barcos na orla, a aglomeração da Manaus Moderna, das cores das frutas e da farinha expostas na feira, do bodó, de gente e gente e gente por todos os cantos – um retrato, aliás, que ganha novos significados neste momento de pandemia.  

Isso se repete ao longo do segundo episódio seja nos passeios de Lara pela Praça da Polícia, Ponte do Educandos, na orla em um barco e no terceiro com imagens de vários pontos da região central. “Boto”, entretanto e felizmente, não busca respostas simplistas sobre a cidade; como o próprio personagem Alex (Renan Tenca) aponta, estamos diante de várias Manaus – a gourmet, cosmopolita, cabocla – repleta de inconsistências e mudanças a mil. A própria desorientação espacial e de tempo sugerida pela montagem ao transitar entre o dia e a noite, urbano e floresta, ressoa neste constante mistério e fascínio tal como a lenda que dá nome à série possui no imaginário popular. 

METALINGUAGEM E PERSONAGENS: PONTOS FALHOS  

A força desta perspectiva de Manaus ressoa tão alto que eclipsa o demais, soando estes sempre como já vistos melhor em algum lugar. Os conceitos de metalinguagem, por exemplo, surgem mais como um exercício para a própria equipe do que necessariamente instigantes a quem assiste, assim como as conversas sobre técnicas de preparação de elenco e as dificuldades de um ator sair de um personagem. As questões relativas à sexualidade, masculinidade tóxica, sociedade patriarcal ainda se apresentam muito amplas, sendo mais um pincelado do que já vimos em obras como “Tatuagem”, “Corpo Elétrico” e “Meu Corpo é Político” do que necessariamente fazendo uma interligação potente com a capital amazonense como Elen Linth alcançou no excelente “Maria”. 

Desta maneira, grande parte dos personagens ainda não dizem a que vieram: do quinteto de protagonistas, apenas Alex e Valdomiro possuem personalidades multifacetadas e complexas com dramas muito bem definidos e geradores de tensão para o desenvolvimento da trama – a sequência da revelação de um trauma da infância de Alex, aliás, rende um momento sensorial e poético no segundo episódio. Por mais carisma e energia que possua, Dinne Queiroz ainda está à margem dos principais acontecimentos da história, enquanto Ítalo Almeida também pouco pode fazer com Giordano. Lara segue sendo aquele velho arquétipo da personagem conhecendo um novo universo, mas, até o momento, ainda não saiu desta fase para avançar na trama.  

Com destaque para performances hipnotizantes de Wickhaus nos shows de Val dos Prazeres captadas à perfeição pela direção de fotografia excelente de César Nogueira, os três episódios iniciais de “Boto” seguem em cartaz na TV Ufam, sempre às 23h, até quinta-feira (28/5). Na sexta-feira, serão exibidos os capítulos 4 e 5.  

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