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Desbancando favoritos como Wicked: Parte 2 e A Hora do Mal, o longa-metragem japonês Kokuho – O Preço da Perfeição alcançou um marco inédito na corrida das premiações e conseguiu sair com uma indicação ao Oscar 2026 na categoria de melhor maquiagem e penteado. O filme dirigido por Lee Sang-il e baseado no livro homônimo de 2018 do autor Shuichi Yoshida e se consagrou como a maior bilheteria de um live-action nos cinemas japoneses ano passado. Apesar do sucesso da parceria, essa não foi a primeira vez que Sang-il e Yoshida colaboraram juntos: em 2010, o diretor já havia adaptado um conto do escritor no filme Vilão, que também foi um sucesso no país do sol nascente e recebeu indicações a diversos prêmios no Japan Academy Prize.

Neste drama familiar, Kokuho narra a história de um jovem ator que, momentos depois de se apresentar em uma peça onde interpreta uma gueixa, acaba presenciando a morte do pai durante um confronto com um grupo da Yakuza. Desolado com a perda do genitor, anos depois o protagonista parte em busca de um acerto de contas contra os assassinos responsáveis pelo crime. Contudo, o artista não obtém êxito em sua trama de justiça com as próprias mãos e, felizmente, consegue escapar com vida. Nesse momento, o filme quebra a expectativa e surpreende ao encerrar o arco de vingança, revelando-se não como um thriller clichê de caça a assassinos, mas sim como um drama sobre pertencimento e busca por identidade após uma grande perda familiar.

Seguindo por esse caminho mais intimista, a adaptação também tropeça em escolhas narrativas que, embora ambiciosas, acabam por desgastar o ritmo do filme. O excesso de passagens de tempo dilui a progressão dramática e fragmenta a jornada emocional do protagonista, fazendo com que determinados conflitos percam impacto antes mesmo de amadurecerem. Ao optar por acompanhar diferentes fases da vida de Kokuho, o roteiro se alonga além do necessário e cria uma gordura dramática que pouco acrescenta à construção temática, tornando a experiência de quase 3 horas de filme, em alguns momentos, cansativa.

Ainda assim, o peso dessas irregularidades é suavizado pelo alto nível das atuações. O elenco sustenta a carga emocional da narrativa, com destaque absoluto para Ryo Yoshizawa, intérprete de Kokuho na vida adulta. Seu trabalho é contido, melancólico e profundamente expressivo: cada gesto e silêncio carregam a dor, o vazio e a busca por identidade que definem o personagem. Yoshizawa traduz o conflito interno de um homem que vive entre a tradição artística e os traumas pessoais sem recorrer a excessos dramáticos, oferecendo uma performance sensível e madura.

As sequências em que os atores encenam montagens de clássicas peças japonesas figuram entre os momentos mais delicados e inspirados do longa. As maquiagens dos personagens são muito bem construídas e elaboradas e figuram-se como um fator chave para caracterização desses intérpretes. Nessas cenas, o protagonista evidencia seu maior trunfo: o respeito profundo pela cultura local e por narrativas que atravessam gerações. As encenações surgem não apenas como elemento estético, mas como espelhos emocionais dos personagens, reforçando a ideia de que a arte também funciona como espaço de elaboração do luto e reconstrução identitária.

Muito disso se deve à direção honesta e paciente de Lee Sang-il, que demonstra plena confiança em seus intérpretes. O cineasta permite que as cenas respirem, evita cortes apressados e constrói a tensão a partir do tempo e do silêncio. Trata-se de uma condução que valoriza o trabalho interpretativo e compreende que, em um drama dessa natureza, o não dito pode ser tão poderoso quanto o diálogo explícito.

Essa abordagem dialoga diretamente com outro filme emblemático da carreira do diretor, Hula Girls, obra que lhe rendeu diversos prêmios da crítica japonesa. Assim como em Kokuho, Sang-il utiliza a arte como ferramenta de resgate emocional e social. Se em Hula Girls a dança surge como meio de revitalizar uma comunidade à beira do colapso econômico, em Kokuho o teatro se transforma em abrigo simbólico para artistas marcados pela perda e pelo deslocamento. Em ambos, a arte oferece um senso de pertencimento quando tudo já parece perdido, reafirmando o olhar humanista do diretor e sua crença na cultura como força vital de reconstrução.

Autor

  • Formado em administração, mas com paixão pelo audiovisual, música e literatura. Caça filmes coming-of-age, scifi e suspense. Apaixonado por animações, principalmente em stop motion. Busco me qualificar e buscar cada vez mais minha identidade artística, tentando sempre aprender mais sobre os mais variados campos da arte. Támbém com a missão de ser um bom tecladista/pianista quanto Sebastian foi em "La La Land"

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