Primeiro, um comentário pessoal, leitor: enquanto assistia ao belo documentário Super/Man: A História de Christopher Reeve, constatei um fato na mente. Na minha juventude nos anos 1990, devo ter ouvido pela primeira vez sobre terapia com células-tronco graças ao ator que fez o Superman no cinema e que ficou tetraplégico após um acidente em meados daquela década. Considere isso: foi graças a uma celebridade, um ator de Hollywood, que um conceito científico – as células jovens que podem se transformar em qualquer tipo celular e reparar tecidos e órgãos – foi disseminado junto à sociedade e ajudou a impulsionar pesquisas científicas.
Agora imagine se algo assim poderia acontecer hoje, na época em que tantos idiotas voltaram a acreditar que a Terra é plana e a duvidar de vacinas… Enfim, divago.
Isso ajuda a ter consciência do impacto que Reeve teve em milhões de fãs e também sobre pessoas com diversos tipos de paralisias ou deficiências em todo o mundo. O grande mérito do documentário dirigido por Ian Bonhôte e Peter Ettedgui é de nos levar para dentro da família Reeve e nos fazer compreender o maior desafio da vida de um homem que, nas telas de cinema, fez as pessoas acreditarem que podia voar.
Super/Man: A História de Christopher Reeve até que não traz muitas curiosidades sobre Superman: O Filme (1978), suas sequências e a carreira de Reeve. Não há muito aqui que outros documentários já não tenham mostrado. Porém, as imagens de arquivo da família Reeve, da juventude dos três filhos e da vida após o acidente de equitação quase fatal ocorrido em 1995, isso tudo é inédito e muito, muito emocionante. É até difícil segurar algumas lágrimas em alguns momentos do documentário, que consegue nunca parecer manipulador ou piegas.
Pelo contrário, os diretores em suas entrevistas – auxiliados pela montagem precisa – conseguem fazer com que entrevistados abram seus corações e até mergulhem em momentos claramente difíceis de se recordar.
Estruturalmente, o documentário é interessante por começar pela tragédia e depois voltar em flashbacks para o início da carreira de Reeve como ator off-Broadway, a amizade com Robin Williams, a fama após Superman e as dificuldades para não ficar estigmatizado pelo personagem. Nomes famosos que foram amigos do ator também participam, como as atrizes Glenn Close, Susan Sarandon e Whoopi Goldberg.
Apesar de, claro, enfocar a coragem de Reeve e sempre evocar a figura do herói – entre as cenas aparecem imagens de uma versão estatuesca do ator em computação gráfica, em alguns momentos tomada pela kryptonita – o filme não esquece de que ele era um homem, e como tal, falho. O trecho que aborda o fim do primeiro casamento do ator evita que Super/Man se torne uma hagiografia e rende alguns dos momentos mais dramáticos do filme.
No fim, o que fica é o retrato de um homem que fez as pessoas sonharem nas telas, e depois inspirou outros milhões na vida real. O filme não foge dos detalhes fortes, e não segue a trilha mais fácil, a de enfocar a carreira de Christopher Reeve nas telas e mostrar a vida pós-acidente como um epílogo. De fato, os cineastas por trás de Super/Man fazem o contrário, e extraem força da narrativa de um homem que, no auge da vida, perdeu quase tudo, mas soube se reconfigurar como um avatar de esperança para muitas outras pessoas por todo o planeta.
Em alguns momentos isolados o filme parece querer emocionar demais o seu público: A trilha sonora com um piano começa a soar um pouco intrusiva, e alguns segmentos da vida de Reeve e sua esposa Dana, que esteve do lado dele por todo o período pós-acidente, parecem compactados. Mas esses pequenos deslizes não diluem o impacto do documentário, sobre um homem que teve uma história de vida realmente singular.
Nós, que amamos e refletimos o cinema, gostamos de endeusar diretores. Porém – e isso é mais comum do que gostamos de admitir – a verdadeira força motriz de muitas obras cinematográficas é o ator ou a atriz em frente à câmera. Apesar de todos os efeitos especiais incríveis para a época, foi a fisicalidade e a performance de Christopher Reeve que o tornou um herói para milhões de pessoas. E curiosamente, grande parte da força simbólica dele se manteve quando passamos a vê-lo imobilizado e sentado numa cadeira de rodas. Retratar essa transição é a força deste documentário.















