Assim que The Order começa, já ouvimos as ladainhas antissemitas de sempre: judeus estão por trás de uma mega-conspiração global e são a causa do retrocesso da raça branca. O filme abre com um programa de rádio e o locutor Alan Berg, interpretado pelo ator e podcaster Marc Maron, desmonta esses argumentos ridículos com facilidade. A cena inicial até parece se passar nos tempos atuais, mas logo aparece um letreiro indicando que tudo se passa no começo dos anos 1980.
O filme do diretor Justin Kurzel é baseado em acontecimentos reais e mostra a investigação de um grupo de agentes do FBI para desbaratar as ações criminosas de um grupo de supremacistas brancos. Mais radicais do que a já nefasta Nação Ariana, esse grupo, chamado A Ordem, passou a realizar roubos e ações terroristas com o objetivo de criar um levante armado no país.
É um ótimo filme, que funciona tanto como drama quanto como thriller de ação/policial. Em termos de ritmo, lembra uma produção dos anos 1980, centrada nos personagens com uma narrativa que tem tempo para respirar, sem a necessidade artificial de incluir um tiroteio ou luta a cada 10 minutos. E nos momentos mais explosivos, The Order realmente empolga. Kurzel e o montador Nick Fenton não deixam o interesse cair e aceleram à medida que a trama vai se tornando mais tensa.
Embora Kurzel tenha sido notado com o estilizado Macbeth: Ambição e Guerra (2015), ele vem aos poucos se tornando menos um esteta e mais um narrador, digamos, “à moda antiga”. Ele já havia explorado gangues de fora-da-lei em cenários naturais no excelente A Verdadeira História de Ned Kelly (2019), e aqui adapta um pouco dessa visão e tom à ambientação americana. Em The Order, o diretor entrega um tipo de filme policial que já não vemos com tanta frequência, e imagino que cineastas como William Friedkin ou Sidney Lumet ficariam com um sorriso no rosto ao fim desta sessão.
Os dois motores do filme são as atuações de Jude Law, como Terry Husk, o cansado agente do FBI que já não vê as filhas há muito tempo porque está caçando bandidos e supremacistas, e de Nicholas Hoult, como Bob Mathews, o jovem com cara de bom moço que orquestra todo o plano terrorista e é o personagem mais racista em um filme cheio deles. São dois ótimos desempenhos que fogem das caricaturas e trazem força ao longa.
Matthews, em especial, parece uma figura à frente de seu tempo, infelizmente. Quando ele discute com o líder da Nação Ariana – e seu pai, ainda por cima – o homem diz ao filho que, em dez anos, eles terão pessoas na política e no judiciário, mas Matthews não quer esperar. Imagine o que ele diria se visse o que a internet tornou possível hoje… Ou se visse a invasão do Capitólio americano, em 2021. Hoje, suas palavras e ideias de ódio estão mais vivas do que nunca. O filme também destaca a fonte de inspiração para muitos supremacistas brancos hoje, o livro Os Diários de Turner, e o relaciona diretamente com o ataque ao Capitólio no letreiro final.
Esses toques narrativos e comparações com o nosso momento histórico são sutis, e o filme não os impõe de forma excessiva ao espectador. The Order, na verdade, tem como objetivo principal entreter, e consegue, embora apresente alguns tropeços aqui e ali. O clímax tenta ser grandioso demais, sacrificando um pouco a verossimilhança. E o longa poderia ter dado mais destaque às personagens femininas: as duas mulheres em torno de Mathews acabam parecendo mais dispositivos de trama, ajudando os heróis a avançar de ponto A para B, do que figuras reais.
Ainda assim, The Order é um bom suspense que extrai boa parte de sua tensão da nossa familiaridade atual com o horror e o ódio raciais. Dizem que todo filme é um retrato de seu tempo, não é? A sociedade e o mundo avançaram ou regrediram nessa questão? São questionamentos que o filme pode deixar na mente, mesmo para quem deseja apenas assistir a um jogo de gato e rato tradicional nas telas. Talvez alguns espectadores saiam da sessão se sentindo cansados e vazios, como o protagonista.












