O curta-metragem Ticar Bodó, do diretor Luís Fernandes, é uma interessante produção que explora o contexto e o visual amazônico para contar uma história eminentemente nossa. Faltou um pouco mais de fundamentação para torná-lo uma experiência de fato marcante e forte, mas é um filme feito com entusiasmo e capricho, e isso o ajuda bastante.
A produção conta a história de um rapaz que sufoca um trauma em sua vida e, numa manhã, sai para caçar na floresta. Ele não consegue acertar em nada e então tenta pescar, e ao pegar um bodó, vai se confrontar com suas emoções num momento que evoca lendas com sabor amazônico. O Cine Set fez uma matéria sobre os bastidores do curta, você pode ler aqui.
Primeiro, as qualidades do filme: Ticar Bodó possui um bom trabalho de fotografia de Evandro Fernandes, explorando paisagens sob luz naturalista, e com direito a um plano plongée da canoa do protagonista dentro do rio, ressaltando a sua solidão. O uso do som – e do silêncio, em um dado momento – é interessante para ressaltar a atmosfera dramática. O ator principal, Abraâo Leão, também conduz a narrativa com um desempenho bem natural. E para completar a ambientação amazônica, temos uma bonita canção nos créditos finais, composta especialmente para o filme.
De fato, Ticar Bodó só não alcança voos mais altos porque o roteiro carece de um pouco mais de trabalho básico: só ouvimos a circunstância em torno do trauma passado do protagonista, com narração em voiceover. A velha máxima de que “no cinema, é sempre melhor mostrar do que contar” se comprova novamente aqui: só com essa exposição, o final do filme não consegue se tornar tão emotivo quanto poderia ser.
E o curioso é que o filme se mostra eficaz ao mostrar visualmente o alcoolismo do personagem principal: no início, vemos uma transição usando o abrir e fechar da porta de uma geladeira para indicar o consumo de bebida pelo protagonista. Saber transmitir informação de modo visual é sempre um desafio para roteiristas e diretores, e é uma pena que faltou só um pouquinho de trabalho para deixar o curta realmente redondo.
Ainda assim, Ticar Bodó é um belo pedaço de vida amazônica contado em narrativa de cinema. A imagem final, realmente, só poderia existir no nosso contexto, e captar esse visual e essas sensações são grandes méritos desta produção.













