Em “Tipos de Gentileza”, Yorgos Lanthimos leva, mais uma vez, o rigor de sua turma hollywoodiana ao absurdo. O filme tem os elementos característicos do cinema do realizador grego, mas também mostra um Lanthimos à vontade o suficiente com o fazer industrial do cinema de estúdio falado em inglês, depois do sucesso de “A Favorita” e “Pobres Criaturas”. Mas seria esse lado mais confortável ou relaxado?

Lançado menos de um ano após as aventuras de Bella Baxter pela Europa, o filme traz novamente Emma Stone, Willem Dafoe e Margaret Qualley, e introduz Hong Chau e Jesse Plemons ao time de atores de Lanthimos. O diretor e roteirista conta aqui histórias divididas em três curtas-metragens, que repetem atores em papéis diferentes, com Plemons protagonizando os dois primeiros e Stone, o terceiro. 

Sem relação aparente, os curtas parecem mais convites para que o elenco se exercite como uma trupe de teatro de repertório em histórias sobre violência, perda, paranóia e, como não poderia deixar de ser em um filme de Lanthimos, sexualidade feminina (aqui, colada com a fertilidade e a maternidade compulsória). 

Tudo isso é coroado por piadas que, por vezes, beiram o grotesco, como é o caso da menção ao acidente que matou Ayrton Senna. No universo absurdo de Lanthimos, onde tudo é possível e quase sempre tudo é aceitável, essa citação vira uma fonte fácil de risadas nervosas. Em compensação, o uso dos flashbacks em preto e branco soa como uma tentativa de contexto a tramas capazes de se sustentarem sem tanta explicação.

E se Emma Stone segue à vontade para mostrar sua versatilidade como atriz (mesmo em três papéis bem pálidos perto da explosão que foi Bella Baxter), Jesse Plemons é uma boa adição ao grupo de atores de Yorgos: a cada aparição, ele está completamente diferente e consegue vender cada um de seus personagens, do policial paranoico com o sumiço da amada ao aprendiz de coach. Já o cinema do diretor segue com pequenos tesouros escondidos, mesmo quando eles são temas reciclados em tramas menores quando comparadas a seus trabalhos anteriores.

Autor

  • Camila Henriques

    Crítica de cinema afiliada à Abraccine e votante do Globo de Ouro. Integra o Coletivo Elviras, que reúne críticas de cinema de todo o país. Podcaster que ama um filme com cara de sábado à noite. Fã de novelas mexicanas, sempre arruma uma forma de associar A Usurpadora com o filme que acabou de assistir.

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