O Brasil vem abraçando cada vez mais produções de séries e filmes baseados em true crimes – “Tim Lopes – Histórias de um Arcanjo”, “A Mulher da Casa Abandonada”, “Maníaco do Parque” são exemplares recentes desta leva. Neste cenário, surge “Tremembé” com proposta ousada em abordar autores de crimes famosos vivendo dentro de um presídio. Sempre com um pé no chão, a série acerta em cheio no casting dos atores e em contar uma história cheia de cinismo, equilibrando muito bem os fatos e a ficção moldada em um formato norte-americano de produção.
Mesmo não o true crime não sendo tão popular no Brasil como nos EUA, os streamings vêm investindo cada vez mais e dando mais espaço para o gênero. Dentro deste contexto, chama a atenção como “Tremembé” parece importar o formato e os recursos narrativos, seja através da inserção de músicas dentro de determinadas cenas para fixar no público a personalidade de um personagem bem como apostar em uma estilização de letreiros na introdução dos criminosos. A montagem foca na agilidade e a câmera próxima aos atores causa uma intimidade incômoda.
Outro recurso muito interessante que dá mais peso dramático para a narrativa é demorar para revelar o crime de certos prisioneiros. Isso leva o público a criar vínculo com aquele sujeito para depois quebrar essa ligação de forma muito cínica. “Tremembé” faz tudo isso sem afastando a ideia de romantização daquelas pessoas.
A narrativa é muito assertiva ao enfatizar a vida carcerária e não nos crimes dos detentos. As abordagens dos delitos servem para dar um contexto básico e para as construções psicológicas dos personagens. O roteiro também traz o sensacionalismo por parte da imprensa brasileira e escancara a realidade penitenciária de Tremembé, refletindo uma glamourização do presídio e de seus presos. A base da obra vem dos livros do jornalista Ullisses Campbell sobre Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga. Existe muita fidelidade aos acontecimentos reais, mantendo um compromisso sério com o que é mostrado. Ainda assim, “Tremembé” também tem o seu tempero ficcional nos diálogos e na ordem dos eventos, criando uma coerência narrativa a partir da história mais fluida e interligada.
Todas estas escolhas acertadas nada seriam sem um grande elenco. Sorte de “Tremembé” que não é o caso: o maior destaque vai para Marina Ruy Barbosa como Suzane, com uma construção impressionante de atuação. A atriz transmite com perfeição as características da jovem conhecida por matar os próprios pais, seja o lado mais sonso e doce até o manipulador e dissimulado. Letícia Rodrigues também traz uma Sandrão malandra e imponente, enquanto Bianca Comparato faz uma Ana Carolina Jatobá lidando com o trauma de seus atos e a relação com os filhos. Lucas Oradovschi impressiona com a semelhança com Alexandre Nardoni e Anselmo Vasconcelos é outro que está muito parecido com o Roger Abdelmassih, apostando em uma dissimulação asquerosa na construção do ex-médico condenado por abusar sexualmente das pacientes. Já Felipe Simas tem uma presença mais sinuosa como Daniel Cravinhos dentro da história, sem muito destaque. Por fim enquanto Kelner Macêdo mostra Christian Cravinhos sem aquela masculinidade rústica, mais solto e safado, Carol Garcia aposta no vitimismo para trabalhar sua Elize Matsunaga.
Infelizmente, a quantidade de episódios – cinco apenas – atrapalha muito um desenvolvimento mais aprofundado, deixando alguns acontecimentos bem resumidos e apressados. Elementos muito importantes e relevantes como o triângulo amoroso de Suzane, Sandrão e Elize, a amizade de Suzane e Jatobá, a rivalidade entre Suzane e Elise e o arco narrativo do Alexandre Nardoni acabam não sendo bem aproveitados durante a série. “Tremembé” é um retrato perspicaz da realidade da justiça brasileira e em como ela lida com o sensacionalismo criminal. Apesar de sua veia ficcional, ela se mantém crível com a veracidade dos fatos e prioriza mais as vivências dos criminosos dentro da cadeia do que seus atos criminosos.














