Deprecated: Automatic conversion of false to array is deprecated in /home/cinesetc/public_html/wp-content/themes/Extra/core/functions.php on line 1469
O que pode acontecer nos Alpes italianos? Maura Delpero nos mostra em “Vermiglio” que grandes acontecimentos pessoais-coletivos surgem entre não ditos, sussurros, tradição e a forte mão do patriarcado. Somos convidados a um vilarejo na Itália pós-guerra que tenta entender a nova dinâmica social, tudo isso sob a ótica das pessoas mais afetadas indiretamente pelos conflitos bélicos: mulheres e crianças.
Um forasteiro da Sicília (Giuseppe De Domenico), soldado desertor, chega ao vilarejo e encontra abrigo na família numerosa do único professor da localidade (Tommaso Ragno). Ele é olhado pelos homens da vila com desconfiança, mas pelas crianças com curiosidade. Nesse entremeio, encontra um amor pueril e arrebatador nos braços de Lucia (Martina Scrinzi), filha mais velha da família que o abrigou, o que traz consequências ao clã, que emerge em sua própria ruína, enquanto o mundo ressurge do pós-guerra.
A trama se desenvolve de forma epistolar, como Cesare discute com seus alunos em sala de aula. Todos os episódios, contudo, trazem como ponto de partida a família e a condição feminina imposta aos membros do clã. Como escolher uma filha para continuar a estudar entre cinco irmãs? Por que uma filha teria privilégio sobre o filho homem que, na verdade, possui pouco interesse pelos estudos? Como permitir que uma filha se case e negligencie os sentimentos impressos no comportamento da outra? Esses são questionamentos que surgem no decorrer das estações de “Vermiglio”.
É curioso e interessante como Delpero arquiteta a estrutura da narrativa de modo a observarmos como essa passagem capitular se mobiliza de acordo com o uso da cor vermelha. A fotografia de Mikhail Krichman (que assina também o tocante “Loveless”) se afunda em um azul característico da frieza do ambiente, mas também da própria mornidão que ronda os habitantes da região. O único contraponto a isso é uma peça rubra que passa de irmã para irmã conforme estas experimentam seus conflitos pessoais e se contrapõem à tradição e ao autoritarismo patriarcal. O roteiro, no entanto, é categórico e realista em mostrar como essa oposição não é forte o suficiente para romper os grilhões da tradição e da escassez cultural, social e financeira que se alojou nas montanhas.
Assim, temas como casamento, maternidade, educação e trabalho — doméstico e na cidade — são colocados sobre a vida das irmãs-protagonistas, mas não permanecem com elas: lhes são retirados da mesma forma como são apresentados — abruptamente e com gosto agridoce. Evidencia, dessa forma, o quanto a força patriarcal e patrimonialista pesa sobre elas, uma vez que Cesare age menos como pai-provedor e mais como o professor que precisa mostrar o quanto sua família é modelo. Nessa perspectiva, o silêncio domina entre as montanhas. Ouvimos as vozes irritantes dos homens, enquanto as mulheres se limitam aos sussurros. Aos homens, é permitido o espaço público; às mulheres, resta a domesticidade e os trabalhos rurais.
Esse processo, contudo, aponta a união que nasce naturalmente entre elas. É no leito que dividem o local em que deixam suas opiniões, angústias e resoluções. Fora dali, elas se ajudam porque sabem que é a única maneira de se oporem ao que vivem e lutarem para alcançar o mínimo que seja para tornar a existência suportável. Leva à reflexão de que, diante dessa conjuntura, para elas o mais importante, no entanto, não seria a troca de gênero, mas serem ouvidas. Por isso, “melhor que ser homem, é ser padre.”
“Vermiglio” é um filme com muito a dizer entre sussurros e resoluções silenciosas. Sua beleza visual singular nos lembra que dramas familiares revelam a organização de uma sociedade em temas complexos e em campo microscópico. Sem dúvida, uma obra que merece atenção e um olhar humanizado para as mulheres, as crianças e os estrangeiros.














