O David Fincher é um dos maiores diretores surgidos nos EUA nas últimas décadas, porém, no Oscar, ele tenta ainda a primeira vitória na categoria. Em 2021, ele chega com pinta de favorito pelo trabalho em “Mank”.  

Porém, o Fincher terá que desafiar um momento de baixo dos cineastas nascidos nos EUA na categoria de Melhor Direção, onde tem predominado os estrangeiros. 

Caio Pimenta apresenta uma retrospectiva do duelo entre norte-americanos e estrangeiros em Melhor Direção e quais as chances de David Fincher no Oscar 2021.

Na história do Oscar, a categoria de Melhor Direção nunca viu um domínio tão grande de cineastas nascidos fora dos EUA como nos últimos anos. Não que esse domínio seja inédito: sem levar em conta naturalizações, o predomínio de diretores estrangeiros aconteceu em três outros momentos. 

No início do Oscar, nos anos 1920 e 1930, os estrangeiros ganharam 7 vezes contra 5 de americanos. Somente o siciliano Frank Capra levou três estatuetas com “Aconteceu Naquela Noite”, “O Galante Mr. Deeds” e “Do Mundo Nada se Leva”. Já nos anos 1960, foram 6 vitórias de não nascidos nos EUA. Os britânicos se deram muito bem nessa época com o David Lean, de “Lawrence da Arábia”, o Tony Richardson, de “As Aventuras de Tom Jones”, e o Carol Reed, de “Oliver!”. 

 Por outro lado, teve períodos em que os nascidos nos EUA dominaram o evento. 

Steven Spielberg

Spielberg venceu dois Oscars nos anos 1990, período em que os cineastas nascidos nos EUA dominaram Melhor Direção.

 

Nos anos 1950, foram 8 vitórias de americanos, contra 2 de estrangeiros. O Joseph Mankiewicz, de “Quem é o Infiel?” e “A Malvada” levou duas vezes. Os mestres John Ford e Elia Kazan também foram premiados na época. No auge da Nova Hollywood, os americanos fizeram a festa com Coppola, Woody Allen, Bob Fosse ganhando oito vezes. Somente o tcheco, depois naturalizado norte-americano, Milos Forman, e o britânico John Schlesinger romperam essa barreira. Porém, o maior domínio aconteceu nos anos 1990: exceto pelo britânico Anthony Minguella, de “O Paciente Inglês”, só deu diretores norte-americanos. Sorte de Steven Spielberg, ganhador por “A Lista de Schindler” e “O Resgate do Soldado Ryan”, além de James Cameron, Mel Gibson, Clint Eastwood, entre outros. 

Porém, nos anos 2000 refletindo o mundo cada vez mais globalizado, Hollywood voltou a se mostrar mais receptiva a talentos vindos de diversas partes do planeta. 

Os anos 2000 viram um empate entre vitórias de estrangeiros e norte-americanos. Se de um lado monstros sagrados de Hollywood como Martin Scorsese e Clint Eastwood venceram o Oscar, a Academia premiou também Peter Jackson e Ang Lee, primeiros diretores, respectivamente, da Oceania e da Ásia, a ganharem a estatueta. Também tivemos o polonês Roman Polanski e dois britânicos – Sam Mendes e Danny Boyle. 

Os cineastas norte-americanos, entretanto, não imaginaram o atropelo que viria nos anos 2010. 

Os estrangeiros deram um banho: os mexicanos Alfonso Cuáron, Alejandro González Iñarritu e Guillermo Del Toro conseguiram vencer cinco vezes. O taiwanês Ang Lee, o britânico Tom Hopper e o francês Michel Hazanavicius completaram a goleada. Somente Kathryn Bigelow, a primeira mulher a vencer a categoria, e o Damien Chazelle, fizeram as honras da casa. E é claro que teve a vitória em 2020 do sul-coreano Bong Joon-Ho, de “Parasita”. 

Ainda que estes ‘estrangeiros’ estejam inseridos dentro de Hollywood, é bom destacar as duas últimas vitórias, de Alfonso Cuáron, por “Roma”, e do Bong Joon-Ho, de “Parasita”, dois filmes de língua não-inglesa, o que demonstra esse cada vez mais global de uma Academia renovada. 

E O OSCAR 2021?

A corrida pelo Oscar 2021 deve colocar novamente esse embate entre os ‘born in the USA’ contra os estrangeiros que chegam a Hollywood. E, nesse duelo, pode ser que os norte-americanos voltem a ter força. 

Além do Fincher que surge como favorito, aparecem com boas possibilidades o Aaron Sorkin, de “Os Sete de Chicago”, a Regina King, de “One Night in Miami”, Shaka King, de “Judas e o Messias Negro”, o Spike Lee, de “Destacamento Blood”, George C. Wolfe, de “A Voz Suprema do Blues”, a Kelly Reichardt, de “First Cow”, e o descendente de coreanos, Lee Isaac Chung, de “Minari”. 

No time internacional, tem também grandes alternativas. 

O francês Florian Zeller pode chegar com “The Father”, enquanto o britânico Paul Greengrass e tenta a sorte com “Relatos do Mundo”. O húngaro Kornél Mundruczó chega em Hollywood com “Pieces of a Woman”, e, claro, tem a chinesa Chloe Zhao, de “Nomadland”. 

Nascida em Pequim, Chloe Zhao é favorita a Melhor Direção por Nomadland.

 

Vai ser curioso uma disputa China e EUA no Oscar após a era Trump tantos problemas na relação entre os dois países. Evidente que, aqui, o clima é outro, afinal, a Chloe Zhao fez uma trajetória muito mais ligada em Hollywood do que ao cinema chinês.  

Aqui, além dos trabalhos extremamente elogiado de cada um, há para os dois lados narrativas que fortaleçam as campanhas. A favor da Chloe Zhao, há uma pressão para que a Academia volte a indicar e premiar uma mulher em Melhor Direção, afinal de contas, a única vencedora foi a Bigelow em 2010 e a última indicada foi a Greta Gerwig em 2018. 

Quanto ao Fincher, a pressão fica por conta dele ser um gigante do cinema americano com uma carreira marcada por filmes ousados para o padrão de Hollywood e amado pela indústria, crítica e público. Há uma sensação clara de que já passou da hora dele vencer esse Oscar. 

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