Joe Biden e Donald Trump fazem uma das disputas mais acirradas da história da Presidência dos EUA. Um país dividido politicamente, em meio a uma pandemia, crise econômica e questões raciais tensas. Diante disso, será que este cenário afeta a corrida do Oscar 2021? 

Nesta última semana, a Variety fez uma matéria muito legal mostrando como foram os Oscars em anos eleitorais nos EUA pegando lá da década de 1920 até 2016 quando o Trump foi eleito.  

Para começar, uma curiosidade: sempre que um republicano vence, o Oscar e o Globo de Ouro coincidem nos seus vitoriosos. Já quando teve um democrata ganhador, as cerimônias divergiram duas vezes. Vamos agora, viajar no tempo. 

DE HOOVER A EISENHOWER

Em 1928, o republicano Herbert Hoover, impulsionado pelo ótimo desempenho da economia do país nos anos 20, levou a presidência dos EUA. Na cerimônia de 1929, quem levou o prêmio foi “Asas”, um drama de guerra que esbanjava a capacidade técnica invejável de Hollywood, simbolizando bem a grandiosidade da América. 

Porém, tudo mudou pouco tempo depois com a Grande Depressão econômica de 1929.  

Já em 1932, chegava à presidência dos EUA um ícone do país, Franklin Delano Roosevelt. Ele teve quatro consecutivos, liderou a recuperação econômica e teve papel fundamental na Segunda Guerra Mundial. 

Dez dias depois da vitória de Roosevelt nas urnas aconteceu a quinta cerimônia do Oscar com  que teve “Grande Hotel” e seu elenco repleto de estrelas como vencedor. Em 1937, “O Grande Ziegfeld” mira na valorização de pilares da cultura americana, o showbusiness e o self-made man. Em 1941, deu “Rebecca”, um suspense do Hitchcock para dar um alívio em meio às tensões da Segunda Guerra. E, por fim, em 1945, “O Bom Pastor”, trazia esperança em meio ao conflito mundial. 

O Roosevelt morreu em abril de 1945, antes do fim da guerra, e quem assumiu o poder foi o Harry Truman que acabou reeleito em 1948. 

Em meio ao reposicionamento do mundo levando para a Guerra Fria, o Oscar de 1949 foi no seguro e optou pelo clássico com “Hamlet”, de William Shakespeare, em uma adaptação sensacional do Laurence Olivier. A produção britânica foi a primeira feita totalmente fora dos EUA a levar o prêmio máximo. 

O republicano Dwight Eisenhower ganhou a primeira das duas eleições que disputou em 1952. Na época, os EUA viveram o período máximo do american way of life e também do macarthismo. 

Não é toa que os vencedores dos Oscars de 1953 e 1957 sejam duas obras para lá de escapistas e esquecíveis: “O Maior Espetáculo da Terra” e “A Volta ao Mundo em 80 Dias”. 

DE KENNEDY A BUSH

se meu apartamento falasse jack lemmon shirley maclaine billy wilder

O mais popular dos presidentes norte-americanos, John F. Kennedy, foi eleito em 1960.  

No ano seguinte, “Se Meu Apartamento Falasse” levou trazendo o charme e a elegância do período. Vale também lembrar que na cerimônia de 1961 que Sidney Poitier se tornou o primeiro intérprete negro a vencer a categoria de Melhor Ator, simbolizando as transformações sociais que marcariam a década. 

Kennedy foi morto, assumiu Lyndon Johnson que venceu a eleição de 1964. Mas, o sonho americano começava a dar sinais de desgaste. 

O prêmio de Melhor Filme de 1965 sintetiza bem isso: ainda que seja um divertido e bem feito, “Minha Bela Dama” mostra como aquele velho modo de fazer cinema de Hollywood já não refletia tão bem as mudanças da época. 

Na era do sexo, drogas e rock n´roll e de tensões cada vez mais pesadas, os EUA encaretaram de vez. Em 1968, chegava ao poder o republicano e conservador Richard Nixon. 

O Oscar seguiu a linha da política ao premiar, em 1969, “Oliver!”, o último suspiro dos grandes musicais daquela época. Em 72, Nixon conseguiu se reeleger mesmo em meio a críticas pesadas da participação americana no Vietnã e dos primeiros indícios do Watergate. A Academia, porém, acordou para vida e, no meio da contestação trazida pela Nova Hollywood, consagrou “O Poderoso Chefão”. 

Sylvester Stallone em cena de Rocky, um Lutador

Nixon caiu e, em 1976, chegava ao poder o bom mocismo e a esperança de uma nova América com Jimmy Carter.  

A Academia abraçou essa ideia e ficou com “Rocky – O Lutador”, uma produção que mostrava como até as pessoas mais humildes poderiam vencer nos EUA.  

Jimmy Carter, porém, não durou muito e perdeu as eleições em 1980 para um velho conhecido de Hollywood, Ronald Reagan. 

Em meio em um período pouco animador da história americana pelos sonhos não confirmados dos anos 1960, o Oscar de 1981 adotou também a linha conservadora e foi para “Gente como a Gente”, um drama sobre traumas e infelicidade. Reagan venceu novamente em 1984 e, no ano seguinte, a Academia seguiu o mesmo estilo de quatro anos antes e, sem se comprometer, deu o prêmio para o drama de época e obra-prima do Milos Forman, “Amadeus”. 

1988 chegou com a vitória de George Bush, o primeiro à presidência dos EUA, aproveitando a economia em alta deixada pelo Reagan.  

Neste cenário, nada melhor do que um feel good movie como “Rain Man” para distrair o público com o astro da época, Tom Cruise, e um gigante de Hollywood como Dustin Hoffman. 

DE CLINTON A TRUMP

Bill Clinton passou por cima da tentativa de Bush se reeleger e ganhou a eleição em 1992. 

Curiosamente, o Oscar de 1993 foi para um republicano histórico: Clint Eastwood em sua revisão do faroeste com “Os Imperdoáveis”. Com uma economia em alta e os EUA consolidado de vez no comando do planeta após o fim da União Soviética, Clinton se reelegeu em 96. No ano seguinte, o Oscar adotou também a grandiosidade e ficou com um romance nostálgico do melhor estilo do cinema das décadas de 40 e 50 com “O Paciente Inglês”. 

2000 viu uma disputa parecida com a deste ano em que George W. Bush venceu por pouco o Al Gore. 

Para um novo presidente conservador, uma vitória de um gênero clássico, no caso, o Oscar 2001 foi para o épico “Gladiador”. Com mais folga e impulsionado pela guerra contra o terrorismo, Bush se reelegeu em 2004. No ano seguinte, a Academia ousou com “Menina de Ouro”, uma produção que aborda um tema polêmico para os conservadores a partir de um diretor republicano. 

Em 2008, a história foi feita com a chegada do primeiro negro à Presidência dos EUA, Barack Obama. 

O Oscar 2009 refletiu esse clima de esperança ao premiar “Quem quer ser um Milionário?”, o filme mais leve e alto-astral a vencer o prêmio nos últimos anos. Em 2012, ainda que sem a aura anterior, Obama foi reeleito e, no ano seguinte, a Academia ainda in love com o democrata, chama Michelle Obama para anunciar a vitória de “Argo”, um filme que tenta ser político, porém, está mais para, no máximo, uma aventura divertida. 

Em 2016, o outsider Donald Trump surpreendeu o mundo inteiro e levou as eleições. 

Aproveitando a deixa da chegada de um presidente eleito que nunca escondeu o seu racismo, a Academia viu uma boa oportunidade fugir do rótulo #OscarSoWhite e ainda marcar posição ao premiar, em 2017, “Moonlight”, uma vitória tão surpreendente quanto a de Trump. 

O OSCAR DE BIDEN?

E 2021? Nesta disputa tensa entre Biden e Trump, não precisa ser um expert para saber que Hollywood torce pelo democrata e o Oscar vai refletir essa oposição ao republicano. 

Afinal, com filmes como “One Night in Miami”, “Destacamento Blood” e “A Voz Suprema do Blues”, o Oscar 2021 deverá ter uma presença massiva de negros, incluindo atores, atrizes, produtores, roteiristas, profissionais das áreas técnicas, diretores e até diretoras, algo inédito até hoje na premiação. Podemos ver ainda duas mulheres indicadas em Direção, fato também inédito, e com Chloe Zhao, de “Nomadland”, como favorita. “Os Sete de Chicago” pode ser ainda considerado um aceno aos movimentos civis. 

Porém, em um país tão dividido como este EUA de 2020, eu não duvido nada a Academia optar pelo caminho seguro e menos comprometedor em Melhor Filme. Isso significaria uma possível vitória de “Mank”, uma produção que fala sobre o mundo do cinema.

Saída mais conveniente que essa, impossível.

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