Caio Pimenta apresenta os pontos positivos e negativos para Fernanda Torres na corrida pelo Oscar 2025 de Melhor Atriz.
GRANDIOSA ATUAÇÃO
Para matar a ansiedade de vocês e porque otimismo nunca é ruim, eu começo o vídeo falando dos bons motivos para acreditar na indicação da Fernanda Torres a Melhor Atriz. O primeiro ponto, claro, é a atuação fantástica dela.
Em “Ainda Estou Aqui”, ela conduz o filme de ponta a ponta. Está presente desde a parte solar com toda a família reunida na casa passando pelos dramáticos momentos da prisão do marido e dela própria até a luta para encontrar Rubens Paiva.
A jornada de décadas com a transformação latente da personagem – de uma dona de casa preocupada com pormenores do dia a dia passando para a mulher que vê a vida transformada em uma luta pela sobrevivência da família e da busca pelo marido – dimensiona muito bem a importância de Eunice Paiva para todos ao seu redor e ainda para o Brasil. É impossível assistir ao longa do Walter Salles e não reconhecer a grandeza daquela mulher a partir de uma atuação absurdamente sóbria e bem pontuada pela Fernanda Torres, o maior destaque de longe de “Ainda Estou Aqui”.
ESPAÇO MAIOR A ATRIZES DE FORA DOS EUA
24 atrizes de filmes não falados em inglês disputaram a categoria ao longo da história do Oscar. Se apenas a Sophia Loren e Marion Cotillard venceram, pelo menos, a presença tem sido grande neste século com mais de um 1/3 da lista total, incluindo, Catalina Sandino Moreno, Penélope Cruz e a própria Cottilard ambas por duas vezes, Isabelle Huppert, Emanuelle Riva, Yalitzia Aparicio e Sandra Huller.
Muito desta alta reside no crescimento dos votantes ao redor do planeta na Academia e justamente eles que podem dar o impulso para a Fernanda Torres chegar ao Oscar. Votantes latinos, europeus, africanos e asiáticos serão decisivos para a brasileira conseguir a vaga.
HISTÓRICO DE WALTER SALLES
O Walter Salles tem histórico em Melhor Atriz: quem não lembra da indicação da Fernanda Montenegro por “Central do Brasil”? Naquela temporada, a estrela vencera o prêmio da categoria no Festival de Berlim do ano anterior. Durante a temporada, ganhou o National Board of Review e concorreu ao Globo de Ouro de Atriz em Drama. Perdeu no Oscar para Gwyneth Paltrow em resultado traumático para os cinéfilos brasileiros até hoje. Quem sabe o raio não caia duas vezes no mesmo lugar?
TRAJETÓRIA EXCELENTE DO FILME
Não dá para negar a carreira excelente de “Ainda Estou Aqui” nesta temporada: por onde passa, o filme arranca aplausos e elogios do público e crítica. A presença da Fernanda Torres ao lado do Walter Salles e do Selton Mello ao redor do planeta – Veneza, Londres, São Paulo e, agora, nos EUA, especificamente, em Los Angeles – contribui para ainda mais evidência ao trabalho dela e do filme como um todo. A Sony Pictures Classic vem apostando neste crescimento do longa ao fazer uma estratégia acertada até o momento.
GLOBO DE OURO E CRITICS CHOICE
Por fim, acredito que a Fernanda Torres deva aparecer em dois eventos importantes antes das indicações ao Oscar: o Globo de Ouro conta com mais de 20 votantes brasileiros que dificilmente vão deixá-la de lado. Hoje com a possibilidade de até seis indicações, soa muito improvável que ela não esteja na festa do dia 5 de janeiro. E até considero que imaginar uma vitória dela não soa absurdo: seria um caso que lembraria a Isabelle Huppert, de “Elle”, a qual superou Sally Hawkins, Jessica Chastain e até a Meryl Streep.
O mesmo cenário é provável no Critics Choice. Lá são seis vagas também, mas, sem a divisão de categorias de drama e comédia. Será mais difícil, porém, a Fernanda Torres ganhou recentemente uma homenagem dado a estrelas latinas que se destacaram no ano. Isso pode ligar o radar dos votantes a ela.
Você pode estar dizendo: ‘ah, Caio, Globo de Ouro e Critics são votantes diferentes do Oscar’. Sim, é verdade, mas, para quem não é Nicole Kidman ou Angelina Jolie, qualquer holofote é holofote. Logo, estar na mesa de discussão ao lado das grandes estrelas de Hollywood coloca seu nome para jogo e seu filme ser visto. Tudo o que a Fernanda Torres e “Ainda Estou Aqui”.
CONCORRÊNCIA PESADA
Hora de dar as más notícias: o Oscar de Melhor Atriz em 2025 promete ser em nível altíssimo com muitas candidatas na disputa. Além da Fernanda Torres, outros 12 nomes estão na briga.
O primeiro pelotão conta com Angelina Jolie, Nicole Kidman e Mikey Maddison. Estas três estão perto demais das vagas. A Karla Sofia Gascón ainda está incerta, mas, deve figurar também entre as finalistas.
Sendo assim, sobra uma vaga: Saoirse Ronan e Tilda Swinton estão na dianteira desta corrida. Cynthia Erivo quer aproveitar o embalo de “Wicked” nas bilheterias para se firmar, enquanto a Marianne Jean-Baptiste é um nome para ficar atento pela tradição britânica. Se a Pamela Anderson, Zendaya e June Squibb pintam como zebras, a Demi Moore busca o hype em torno de “A Substância” para quebrar as resistências da Academia em relação ao terror.
DISPUTA COM TILDA SWINTON
Complica também o fato da Tilda Swinton travar uma disputa interna na Sony Pictures Classic com a Fernanda Torres. A estrela de “O Quarto ao Lado” é um camaleão do cinema, querida pelos pares, críticos e cinéfilos do mundo inteiro, mas, soma apenas uma mísera indicação ao Oscar, justamente quando venceu em 2008 por “Conduta de Risco”, trabalho mais convencional dela.
O drama do Pedro Almodóvar em que rouba a cena a ponto de deixar a Julianne Moore em segundo plano pode ser enxergado dentro da Academia como esta oportunidade de ouro dela voltar a concorrer. A vantagem da Fernanda Torres, porém, é que “O Quarto ao Lado” não hitou como se esperava desde Veneza, diferente de “Ainda Estou Aqui” que permanece em alta desde o festival italiano.
LONGE DA PRIMEIRA PRATELEIRA DO OSCAR
Apesar do bom momento, “Ainda Estou Aqui” não está na prateleira dos principais filmes da categoria máxima do Oscar. Entre os internacionais, o candidato brasileiro aparece atrás, pelo menos, do francês “Emilia Pérez”. “Anora”, “O Quarto ao Lado”, “Babygirl” e “Wicked” também aparecem como obras com maior visibilidade neste momento.
Colocar-se nesta lista de obras essenciais a serem vistas pelos votantes da Academia será necessário para que a projeção da Fernanda Torres cresça na temporada. Um trabalho fundamental a ser feito pela Sony Pictures Classics.
DUAS ATRIZES INTERNACIONAIS NO MESMO ANO?
Por fim, será que a Academia banca duas atrizes com obras de língua não-inglesa na categoria?
A última vez que ocorreu em 1977 com Liv Ullmann, de “Face a Face”, falando em sueco, e a Marie-Christine Barrault, por “Primo, Prima”, falando francês. Se a espanhola Karla Sofia Gascón parecer aqui complica bastante o cenário para a Fernanda Torres.
No frigir dos ovos, o panorama é complicado para a Fernanda Torres ainda que haja plenas chances dela concorrer ao Oscar. Trata-se de um cenário mais enroscado do que quando a Fernanda Montenegro disputou em 1999. Resta torcida para uma indicação que, se vier, fica para a história do nosso cinema.




















