Qual o impacto de uma eleição norte-americana no Oscar?
A princípio, é natural pensar que não muita coisa, afinal de contas, os filmes já estão lançados, as estratégias dos estúdios feitas, sabe-se quem são os potenciais favoritos para as indicações, há todo um calendário traçado de eventos e prêmios.
O resultado da disputa entre Donald Trump e Kamala Harris com a vitória esmagadora do republicano no colégio eleitoral e no voto popular, além do domínio do partido no Senado e na Câmara, entretanto, ligou um grande alerta em Hollywood. Afinal, o futuro novo velho presidente dos EUA tem uma relação para lá de turbulenta com o mundo do showbusiness desde que entrou na política.
Nas três últimas disputas eleitorais, os principais nomes de Hollywood fizeram campanhas para Hillary Clinton, Joe Biden e Kamala Harris, respectivamente. Trump devolvia na mesma moeda com ataques, críticas e cutucadas nas redes sociais. Se em 2016, o republicano levou mesmo perdendo no voto popular e quatro anos depois foi derrotado, agora, ele retorna à Casa Branca mais do que empoderado.
A temporada de premiações será o termômetro inicial para saber como será a relação de Hollywood com Trump.
MELHOR FILME
Traçar paralelos de uma relação direta entre a chegada de um novo presidente ou a reeleição do atual mandatário com o ganhador do Oscar do mesmo ano soa forçado, como bem mostra as edições deste século.
Fugindo totalmente do polêmico embate entre George W. Bush e Al Gore, a Academia consagrou o épico “Gladiador” na cerimônia de 2001, destacando a qualidade técnica absurda que Hollywood consegue levar para as telas. Quatro anos depois, os dilemas morais de “Menina de Ouro”, no máximo, podem refletir um EUA que começava a se questionar sobre as justificativas para a guerra ao terror promovida pelo presidente republicano reeleito.
A chegada de Barack Obama ao poder provocou euforia em Hollywood e nos setores mais progressistas em 2009. O alegre “Quem Quer Ser um Milionário?” com seu olhar para fora dos EUA refletia um bom humor do país. Se “Argo” pouco reflete sobre a reeleição do democrata, o anúncio feito pela primeira-dama Michelle Obama mostrava como a Casa Branca e a indústria do cinema estavam de mãos dadas.
A conquista de “Moonlight” em 2017 foi mais uma resposta da Academia às críticas do #OscarSoWhite do que necessariamente uma cutucada ao histórico racista de Trump. Já em 2021, “Nomadland” ecoava a crise norte-americana generalizada após a quebradeira de 2008 e o mal-estar de um país para além de democratas e republicanos.
Por isso, não sinto que o ganhador do Oscar 2025 tenha esta função de passar uma mensagem de resistência ao Trump ou qualquer coisa que o valha. Talvez isso só venha de fato a acontecer para as próximas temporadas com o desgaste natural de qualquer presidente no cargo e o tempo de Hollywood e da classe artística digerir todo o processo eleitoral e político.
PRÊMIOS DE ATUAÇÃO
Agora, há pontos sim que a eleição do Trump pode ter impacto na corrida do Oscar. Os analistas políticos e as próprias redes sociais debatem sobre o peso do identitarismo para o desempenho tão fraco da Kamala Harris e dos progressistas de modo geral, refletindo uma possível desconexão com o povo. A vitória do republicano seria ainda uma forma de combate à suposta ‘cultura woke’.
Dentro desta linha mirando o Oscar, em Melhor Atriz, por exemplo, como será que vai ecoar nas chances da Karla Sofia Gascón em Melhor Atriz? Ela tem tudo para ser a primeira artista trans indicada na história – isso eu acredito que aconteça.
Mas, será que a Academia vai além e a premia, topando comprar a grita das redes sociais e certamente que Trump irá aproveitar também? Ou os votantes vão preferir apenas o reconhecimento da indicação e ter uma opção mais conservadora?
Caso a Academia adote uma linha menos divisiva optando por filmes menos polêmicos, complica-se as situações de Demi Moore com “A Substância”, Nicole Kidman em “Babygirl” e Daniel Craig por “Queer”.
Ainda nas atuações, como ficará a situação de Sebastian Stan em “O Aprendiz”? O longa do Ali Abbasi mostra um Donald Trump inescrupuloso, ingrato e violento em uma grande interpretação do ator. Se a Academia resolver indicá-lo, certamente compraria uma briga certa com o novo presidente ao dar visibilidade para uma obra que considera ser um ‘ataque político’ a ele. A saída mais confortável e, claro, menos corajosa seria simplesmente ignorá-lo.
APRESENTAÇÃO
Acima de tudo, considero que o maior efeito da eleição do Trump será na escolha dos futuros apresentadores da festa. Jimmy Kimmel, que deixou o comando do Oscar, nunca poupou Trump.
Em 2017, o então presidente foi alvo ao longo da noite: de cara, Kimmel afirmou que a eleição do republicano redimia a Academia do #OscarSoWhite do ano anterior em referência às acusações de racismo do político.
O apresentador ainda pediu uma salva de palmas para Meryl Streep, a qual Trump havia chamado de superestimada semanas antes. O mandatário não se fez de rogado e considerou que a troca de envelopes de Melhor Filme no fim da festa foi motivada pelo focado excessivo na política e menos no cinema.
Já neste ano, Kimmel leu uma mensagem de Trump o criticando em uma rede social. O apresentador cortou dizendo que o ex-presidente deveria estar preso.
Acredito que a Academia vá atrás de um apresentador ou apresentadora mais disposto focar no cinema sem ir muito longe em assuntos como política. Serviria não apenas para evitar atritos com Trump, mas, principalmente, em tocar no vespeiro da guerra no Oriente Médio que divide Hollywood atualmente.
Neste caso, a melhor saída seria a dobradinha Hugh Jackman e Ryan Reynolds, apontados pela imprensa norte-americana como favoritos a hosts. São dois astros mundialmente conhecidos, vindos de um dos maiores sucessos do ano e que passam longe de qualquer questão política. Dentro desta linha, Dwayne Johnson teria boas chances também. Outra alternativa seria fazer sem apresentadores fixos igual 2019 e 2021, tornando possível uma cerimônia mais enxuta.
Agora, se quiser correr o risco, a Academia bem que poderia tentar a Amy Poehler e o Will Ferrell, comediantes experientes com um arsenal para mesclar com inteligência o entretenimento e os comentários políticos.
















