As vitórias de “Anora” nos sindicatos dos diretores e produtores, além do Critics’ Choice, colocaram a produção de Sean Baker como a grande favorita para o Oscar 2025 de Melhor Filme.

A questão, agora, é saber quem ainda pode ameaçar o longa da Neon entre os outros nove finalistas da categoria.

Neste novo vídeo do Cine Set, analiso a corrida para o tão cobiçado prêmio no dia 2 de março.

NICKEL BOYS E DUNA 2: SEM CHANCES

Faltando pouco mais de três semanas para o Oscar 2025, considero que dois filmes não possuem chances.

“Nickel Boys” é um deles: o drama de RaMell Ross pode até ser bem-visto dentro do circuito independente norte-americano, com ótima recepção nos festivais do segundo semestre e muitos elogios da crítica. Estar na lista de Melhor Filme, entretanto, foi a maior vitória, pois havia o risco de ficar de fora.

Já “Duna 2” se manteve na disputa, mesmo longe de ser a franquia mais amada de Hollywood. A ausência nas demais categorias principais, como Direção e Roteiro Adaptado, além da performance abaixo do esperado nas categorias técnicas, mostra como a continuação passou longe de empolgar.

EMILIA PÉREZ E A SUBSTÂNCIA: CHANCES MÍNIMAS

Por diferentes motivos, “Emília Pérez” e “A Substância” possuem chances mínimas de vitória em Melhor Filme. Já não bastasse a dificuldade natural de um musical performar bem diante de uma lista de modelo preferencial, a produção da Netflix derreteu diante das polêmicas envolvendo Karla Sofia Gascón. Até mesmo o barulho latino passou a ser ouvido pela imprensa norte-americana. Somente um milagre poderia dar a volta por cima.

Embora tenha grandes chances de vencer Melhor Roteiro Original e Demi Moore deva vencer Melhor Atriz, “A Substância” levar Melhor Filme parece uma possibilidade distante demais. Claro que a temática sobre pressão estética e etarismo toca fundo em Hollywood, e o terror de Coralie Fargeat teve boa recepção nos festivais e nas bilheteiras ao redor do mundo, mas considero que dificilmente ele conseguirá a convergência necessária para agradar os mais de 10 mil votantes da Academia. Seria incrível se acontecesse, mas é altamente improvável.

WICKED E AINDA ESTOU AQUI: BAIXAS CHANCES

“Wicked” tem o carinho inegável de Hollywood e pode vencer Melhor Elenco no SAG, uma sinalização importante de que a ala dos atores da Academia está com ele. O fato de o musical conseguir dialogar com todas as idades dos votantes e ser prestigiado tanto no cinema quanto nos palcos também ajuda. Além disso, premiar o filme seria um aceno ao público, pois ele foi a terceira maior bilheteira do ano.

Por outro lado, não sinto que os setores mais internacionais e os voltados ao cinema independente penderiam a favor de “Wicked”. Fora que a continuação poderá concorrer em 2026. Premiar o primeiro poderia comprometer o ano seguinte, caso a sequência seja ainda melhor. Acredito que, se for para a Academia premiar o musical, isso acontecerá na próxima temporada.

Acredito que “Ainda Estou Aqui” aparece na quinta posição desta corrida. O candidato brasileiro segue em alta, ganhando cada vez mais espaço na temporada, principalmente com a expansão no circuito norte-americano e europeu. Virou o filme a ser visto nesta reta final.

A ruína de “Emília Pérez”, com a chance real de vencer Melhor Filme Internacional, o colocaria à frente do musical francês, um feito importante nesta altura do campeonato. Além disso, é o longa com a estrutura mais clássica, ao lado de “Conclave” e “Um Completo Desconhecido”, e conta com uma atuação aclamadíssima de Fernanda Torres.

UM COMPLETO DESCONHECIDO E O BRUTALISTA: BOAS CHANCES

Não dá para esquecer, porém, a resistência dos americanos em relação a obras legendadas. A ausência nos principais precursores do Oscar – Bafta, SAG, PGA, DGA – e a falta de indicação, pelo menos, em Roteiro Adaptado, complicam demais a vida de “Ainda Estou Aqui”. Se vencer Melhor Filme sem essas indicações, seria quase uma admissão de que a Academia descobriu o longa de última hora e o deixou com menos indicações do que deveria. É um resultado improvável, mas não impossível.

Agora, vamos aos três filmes que mais têm chances de barrar “Anora”.

“Um Completo Desconhecido” aparece na quarta posição. Mesmo sem ser um filme amado, o longa de James Mangold chega como aquele candidato capaz de pontuar bem na lista preferencial. Afinal, traz a história de uma lenda viva como Bob Dylan, com um elenco excelente indicado em três categorias, direção e roteiro também na disputa e parte técnica impecável.

A década de 2010 consagrou muitos filmes bons, mas nenhum brilhante, com essa receita capaz de agradar a todos – “O Artista“, “Argo” e “A Forma da Água“ são exemplos claros. A Academia, porém, se transformou ao longo dos últimos anos e, talvez, alas internacionais não se convençam tanto assim a votar em “Um Completo Desconhecido”.

Embora não seja uma cinebiografia 100% por retratar apenas um período da vida de Bob Dylan, o Oscar vem da conquista arrasadora de um filme do gênero – “Oppenheimer”. Logo, a Academia pode desejar seguir por outros caminhos nesta temporada.

A terceira posição fica com “O Brutalista”. Se o caráter épico e ambicioso de Brady Corbet é inegável, a temática é bastante relevante para os dias atuais e Adrien Brody está rumo à segunda estatueta da carreira, as quatro horas de duração são uma barreira enorme para o longa da A24. A informação de que muitos votantes assistiram apenas à metade do filme durante o período de votação para as indicações dá uma dimensão do desafio a ser superado.

Claro que muita gente lembra de “Oppenheimer”, mas o ritmo empregado por Christopher Nolan é bem diferente do de Corbet, mais clássico. Considero que “O Brutalista” pode até pegar muitas primeiras posições, assim como colocações muito baixas no sistema preferencial de votação. Isso é fatal para quem luta por Melhor Filme.

CONCLAVE: GRANDES CHANCES

“Conclave” é o candidato que mais ameaça “Anora” no Oscar 2025. Imponente na técnica e com uma temática clássica, mas também provocadora, o drama da Focus Features é aquele suspense com grande elenco e assunto relevante. Chega favorito para levar Roteiro Adaptado, categoria vencida recentemente por “Coda”, “Moonlight”, “12 Anos de Escravidão” e “Argo”.

Isso ajudaria a compensar a esnobada de Edward Berger em Melhor Direção. “Conclave” ainda pode chegar ao Oscar com importantes conquistas, como o Bafta, onde lidera as indicações, e no SAG de Melhor Elenco.

Como venho dizendo há alguns meses, “Conclave” lembra muito “Spotlight”, aquele filme que também não é brilhante, mas que tem tudo no lugar para se sagrar vencedor. Não tenho dúvidas de que pontua muito bem no sistema de lista preferencial do Oscar – até mais do que “Anora”, que pode ser bem divisivo.

A questão é saber se uma Academia com um discurso de inclusão e diversidade tão forte premiaria, pelo segundo consecutivo, uma obra dominada por homens e com apenas uma mulher de destaque no elenco.